Crônicas de Jerusalém: Quando o Passado Faz uma Visita.

Eu estava distraída olhando a luz do sol que parecia refletia sua beleza e intensidade nas pedras cinzas. Também tentava vislumbrar algum movimento na rua. Estava tudo calmo. Era impressionante o quanto tudo parecia impassível lá fora, quase como se o momentos de tensão como os daquele verão fossem algo rotineiro naquela cidade sagrada.
 
A minha atenção rapidamente se voltou para os olhos marejados da minha professora de Halacha para mulheres. Estávamos discutindo sobre as diferenças no currículo ensinado para mulheres nos vários tipos de escolas religiosas de Jerusalém. Uma conversa que fatalmente poderia ter nos levado ao debate sobre a política existente dentro do meio religioso ou ao complicado debate sobre o papel da mulher em um meio que muitas vezes pode ser patriarcal e retrógrado, terminou nos levando ao emocionante encontro com Sarah Schenirer.
 
A professora nos contou que uma de suas filhas estudava na Bais Yaacov, uma famosa rede de ensino Haredi, que possui um currículo muito diferente daquele ensinado na escola religiosa na qual eu estava. Sarah Schenirer foi a fundadora dessas escolas e uma pioneira na educação judaica para mulheres.
 
Sarah nasceu na Polônia, no seio de da comunidade hassidico ultra-ortodoxa Belzer. Ela era inteligente e tinha uma profunda vontade de aprender. Sua vida lhe levou a Viena, onde ela foi aluna do Rabino S. Raphael Hirsch. Quando retornou à Polônia, ela percebeu que ao contrário dos rapazes de sua comunidade, as moças não tinham um local para estudar e desenvolver sua identidade judaica.
 
Ela enfrentou a resistência de alguns líderes de sua comunidade, contudo conseguiu criar o sistema de ensino Bais Yaacov. Ela desenvolveu mais de 300 escolas e educou uma geração inteira de jovens judias.
 
Com lágrimas nos olhos, a professora terminou sua narrativa contando que o Holocausto engoliu com toda a sua fúria as escolas, as moças que iriam iluminar sua geração e que a Sarah Schenirer morreu em 1935. Quando tudo terminou, restaram poucos sobreviventes e o enorme espaço vazio de mentes que se perderam.
 
Houve um silêncio ao final da fala da professora. Acho que nós compartilhávamos com ela a dor da perda e a admiração pela reconstrução do mundo judaico em Israel.

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