Entre o Rebbe de Breslov, Maimonides, e John Locke.

Rebbe Nachman de Breslov (1772 – 1810) foi um dos mais criativos, influentes e profundos mestres Hassidicos. Ele fundou o grupo Hassidico Breslov, que ganhou esse nome porque Breslov é uma cidade na Ucrânia onde Rebbe Nachman viveu durante toda a sua vida. É relevante saber que o Hassidismo foi um movimento que começou no século XVIII (no leste europeu) como uma resposta ao vácuo sentido pelo judeus observantes daquele tempo que buscavam um judaísmo comprometido com a Torah, mas acessível ao homem comum. Tal movimento contrastava com o judaísmo que possuía um estilo mais intelectual dos líderes estabelecidos da época. Entre outras ideias interessantes, o Rebbe de Breslov tinha ensinamentos que enfatizavam a vida simples e que mesmo uma pessoa não educada poderia servir à D´us, o que era uma ideia radical numa época na qual o judaísmo enfatizava que uma pessoa só poderia se aproximar de D´us através do estudo. Ele também enfatizava orações, observância religiosa e a experiência mística judaica. Rebbe Breslov defende a ideia de que um homem deve seguir todas as mitzvot através do amor à D´us, sem que ele precise investigar a razão para elas, pois dessa forma a bondade humana se tornará habitual e, então, D´us irá mostrar ao homem as razões que antes eram desconhecidas para a mente humana.

Maimonides (1135 – 1204) era um médico e um estudioso, ele foi fortemente influenciado pelo pensamento Grego (particularmente o pensamento de Aristóteles). Sua obra mais famosa foi um livro chamado “O Guia dos Perplexos. Ele é considerado um maior filosofo judeu do período medieval e para ele você só poderia servir à D´us através do estudo. Segundo Maimonides, as verdades importantes não mudam e o progresso humano é medido pelo nível em que tais verdades são identificadas e entendidas, por  isso, a principal função do Mashiach será ensinar essas verdades e ajudar a criar condições nas quais mais pessoas vão ser capazes de refletir sobre elas. Para este filosofo medieval o mais alto nível de perfeição é o intelectual. Maimonides, tal como o Rebbe Breslov, acreditava que você deveria cumprir as mitzvot, contudo para Maimonides você deveria buscar a razão escondida no dever de cumpri-las.

O contraste entre essas duas perspectivas me fez pensar: sabendo que me foi dado uma ordem por uma autoridade (neste caso D’us) na forma de mandamentos, devo cumpri-los sem buscar a razão que fundamenta os mesmos ou é meu dever, como um ser racional, tentar encontrar a razão antes de cumpri-los? Neste caso, eu opto pela interpretação de Maimonides, pois acredito que dificilmente a bondade se torna habitual entre os seres humanos, especialmente quando decidimos abdicar da razão frente as ordens de uma autoridade. Como escreveram os Federalistas, “se os homens fossem anjos, os governos não seriam necessários”.

Além disso, qual o problema de questionar e racionalizar algo? Nós judeus temos uma longa história questionando autoridades, desde Avraham questionando D´us na história de Sodoma e Gomorra até os dias de hoje quando questionamos os poderes, por vezes exacerbados, dos nossos rabinos e instituições religiosas.

A interpretação de Breslov não me atrai, talvez seja porque não guardo simpatias para com as lideranças hassídicas do leste europeu ou porque abdicar da minha razão por inteiro seria o mesmo que abdicar da minha própria liberdade e eu não posso abdicar de um direito natural. Por isso, eu trago dois convidados não judeus. John Locke e Thomas Jefferson. Escolhas um tanto estranhas eu admito.

The necessity of believing without knowledge, nay often upon very slight grounds, in this fleeting state of action and blindness we are in, should make us more busy and careful to inform ourselves than constrain others. At least, those who have not thoroughly examined to the bottom all their own tenets, must confess they are unfit to prescribe to others; and are unreasonable in imposing that as truth on other men’s belief, which they themselves have not searched into, nor weighed the arguments of probability, on which they should receive or reject it. Those who have fairly and truly examined, and are thereby got past doubt in all the doctrines they profess and govern themselves by, would have a juster pretence to require others to follow them: but these are so few in number, and find so little reason to be magisterial in their opinions, that nothing insolent and imperious is to be expected from them: and there is reason to think, that, if men were better instructed themselves, they would be less imposing on others.
– John Locke.
Question with boldness even the existence of a God; because, if there be one, he must more approve of the homage of reason, than that of blind-folded fear.
– Thomas Jefferson.

Em momentos nos quais estudo sobre Maimonides e Rebbe de Breslov, ao mesmo tempo trago para o eterno debate que existe na minha mente nomes tão estranhos nessas circunstâncias quanto Jefferson, Arendt e Locke, não consigo deixar de me perguntar se um dia vou terminar como um pária consciente. Caso você não saiba, os párias conscientes são aqueles judeus que tinham todas aquelas qualidades que eu sempre admirei nos judeus (o “coração judeu”, a humanidade, o humor e a inteligência desinteressada) e que admitem sem timidez o seu status de pária. Eles tem como essência um tensão dialética entre sua judaicidade (e a experiência judaica moderna) e a sua experiência humana embebida de valores liberais típicos do ocidente da era moderna. Certamente eu não cheguei nesse nível ainda.

O principal incomodo que esse debate gerou em mim, a ponto de me fazer escrever um texto a respeito, foi porque ele reside numa pergunta simples e perigosa: devo ou não seguir uma autoridade sem racionalizar a ordem dada? A autoridade para aqueles rabinos era D´us, contudo, hoje não temos debates como os de Avraham mas temos o clero judaico – que, em alguns casos, parece produzir indivíduos que pensam ter o direito divino -, o que torna essa pergunta ainda mais importante para uma pessoa religiosa.

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