Crônicas de Jerusalém: Quem Era Ele?

Eu amava cada Shabbat no Old Katamon, porque eu tinha a sensação de estar em um outro planeta, um que era estranho e familiar ao mesmo tempo, pois todos eram judeus, havia música em hebraico nas ruas, um vento frio delicioso que me lembrava São Paulo no inverno e eu me sentia um pouco parte daquela mundo mesmo que eu nunca estivesse me sentido tão não judia em toda a minha vida.

Na noite de Shabbat em que eu soube das anotações desse rapaz, eu lembro de caminhar da sinagoga em direção à casa na qual eu estava hospedada e ter a autoconsciência do quão surreal era poder estar naquele lugar, bem como do quanto eu gostaria que os meus pais estivessem lá. Também lembro de que, no caminho, eu terminei passando na frente da casa do Presidente de Israel, cuja entrada era guardada por soldados. Talvez fosse a minha experiência latino-americana com violência,  mas o olhar de suspeita que o soldado armado jogava em cada transeunte me deixava desconfortável.

Quando eu cheguei na casa do Airbnb na qual eu estava hospedada percebi que a dona da casa, uma mulher amigável de aparência austera chamada Chava, havia convidado uma amiga para o tradicional jantar de Shabbat. Elas me perguntaram se eu gostaria de participar do jantar e eu aceitei. Depois que as brachot foram feitas, nós começamos a conversar.

Logo descobri que a amiga da senhora Chava, cujo nome eu não me recordo, trabalhava na Universidade de Jerusalém e, pelo que eu entendi, ela era historiadora. Imediatamente isso despertou o meu interesse. Como era ser historiador num local em que cada povo conta uma história diferente a respeito do último século? Era a pergunta que estava ecoando na minha mente enquanto eu olhava para cada detalhe do rosto dela.

Houve um momento no qual Chava e sua amiga começaram a conversar em hebraico, língua que até hoje eu não domino, quando o assunto se tornou a influência de algumas ideologias sobre a pauta das pesquisas dos historiadores. Gostaria de ter sido capaz de entender os argumentos daquele dialogo. A minha curiosidade em relação aquela conversa permanece até hoje, pois foi como saber o título de um artigo, mas não poder ler o mesmo devido ao fato do acesso estar bloqueado para aqueles que não são assinantes.

Durante aquele breve dialogo no qual fiquei de fora, a minha curiosidade se voltou para uma pintura fixada na parede da sala de Chava. A pintura era o retrato de uma mulher na casa dos seus trinta anos, que usava um belíssimo vestido e joias que lhe davam um ar de realeza. Nós falamos sobre esta pintura naquela noite, mas não antes da historiadora comentar sobre um objeto com o qual ela havia tido contato e cuja pesquisa lhe interessava.

Tratava-se de um caderno de anotações que pertencia a um rapaz judeu que viveu na Europa há séculos atrás. Ele escrevia anotações pessoais sobre o que ele pensava e sobre o mundo ao seu redor. Era como um diário. Quem era o rapaz? Como ele viveu? Como era seu vilarejo? Várias perguntas surgiram na minha mente. Eu havia sido tomada como uma onda de curiosidade.

Ela contou que não sabia quem era o rapaz  e que era um desafio encontrar detalhes sobre sua vida, porque os documentos religiosos que ficavam em sinagogas de pequena cidades como a que ele viveu foram destruídos durante as guerras ou devido às perseguições, bem como as comunidades judaicas locais, mas acreditava-se que ele provavelmente tinha um certo poder aquisitivo, pois era caro ter acesso a papel e tinta na época. Instantaneamente o valor de um caderno moleskine me veio à mente. “Ainda é caro” Eu pensei. Foi um pensamento idiota, mas o que é a vida sem comentários mentais idiotas?

Eu fui tomada por uma sensação de vazio. O mundo dele havia sido destruído, a continuidade do passado foi brutalmente interrompida por guerras e eu continuava sem respostas. A principal herança que aquele rapaz havia deixado do período em que ele viveu na terra foi um caderno de anotações, palavras perdidas que não contavam tudo sobre ele, mas contavam o bastante para que ele fizesse falta. Será que aquele rapaz conseguiu viver através de seus descendentes? Será que seus descendentes viviam em Israel, nos Estados Unidos ou permaneceram na Europa? Será que eles ainda eram judeus?

Essas perguntas nunca me abandonaram e, as vezes, esse misterioso autor ainda encontra um caminho até os meus pensamentos numa tarde chuvosa em Belém do Pará. Acho que ele me marcou devido a natureza banal de sua obra, a forma peculiar com que eu entrei em contato com sua história e a curiosidade que ele despertou em mim. Eu penso nele como um Stefan Zweig comum, igualmente engolido pelas esmagadoras ondas da história.

 

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