Quem é o General James “Cachorro Louco” Mattis?

A primeira vez que eu ouvi o nome e o apelido icônico deste General foi quando o mesmo surgiu como uma das possibilidades que o então Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, poderia escolher para ocupar o cargo de Secretário de Defesa. Logo fiquei curiosa, por que “cachorro louco”? Seria o General James Mattis mais um factoide ou alguém de bom senso? Decidi ver algumas palestras dele disponíveis na internet e descobri que havia muito mais do que o apelido de interessante a respeito desse personagem da administração Trump.

Nota I. As informações dispostas no texto abaixo são um resumo de várias palestras que eu vi do General James Mattis. Os links das palestras estão inseridos em palavras e frases no decorrer do texto.

Nota II. As palestras que fundamentam as informações do texto ocorreram antes do General Mattis se tornar Secretário de Defesa da administração Trump.


QUEM É O GENERAL JAMES “CACHORRO LOUCO” MATTIS?

General James Mattis, também conhecido como “cachorro louco”, foi escolhido pelo Presidente-eleito Donald Trump para ocupar o cargo de Secretário de Defesa dos Estados Unidos. O “cachorro louco” é um homem que dedicou a sua vida ao exercito dos Estados Unidos e é reverenciado entre os militares. Além disso, ele é famoso pela sua retórica, que inclui frases como “fuzileiros não sabem soletrar a palavra ‘derrota'” e “seja educado, profissional, mas tenha um plano para matar todos que você conhece”.

Não pense nele como um “general que senta atrás da mesa com o c* na mão”, porque ele não é esse tipo de militar. O General J. Mattis começou sua carreira militar com 19 anos e desde então já teve contato com a conflito no Golfo Persa, Afeganistão, Iraque, Síria, Yemen e muitos outros. Ele também já leu mais de 6000 livros sobre guerras (sua paixão por livros e pela busca pelo conhecimento é uma influência da sua família e da tradição dos fuzileiros americanos), bem como se envolveu em debates sobre as ambições regionais do Irã, bem como sobre a administração do conflito entre Israelenses e Palestinos.

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COMO ELE PERCEBE O IRÃ?

Quando se analisa o Irã como um Estado-nação, deve-se considerar as suas capacidades (ameaça cibernética, ameaça de mísseis balísticos, terrorismo e outros) e não apenas aquelas que se referem à armas de destruição em massa (é relevante mencionar que o General Mattis já afirmou que o Irã não é um Estado-nação, mas sim uma espécie de causa revolucionária). O acordo nuclear com o Irã (Vienna Agreement) intencionalmente escolheu se limitar à ameaça vinda da capacidade militar baseada no desenvolvimento de armas de destruição em massa. O General Mattis é um forte crítico do acordo (sempre alertando que se deve evitar expectativas muito positivas com relação a conversas com o Irã e que o acordo fez com que muitos tirassem a sua atenção das outras ameaças que emanam do Irã), apesar de não achar que foi um erro fazer o mesmo.

Além disso, ele era critico da política externa da administração Obama. Ele fez uma palestra, no ano de 2016, no Center for Strategic and International Studies (CSIS), na qual Mattis falou que o regime do Irã é a mais duradoura ameaça para a paz e estabilidade no Oriente Médio.

O QUE O GENERAL MATTIS COMENTA SOBRE ISRAEL E IRÃ?

Por que Israel é tão importante? Porque valores são importantes nesse mundo. Um desses valores é liberdade. Não se defende liberdade esperando que a luta pela mesma chegue nas fronteiras dos Estados Unidos, como foi o caso em Pearl Harbor. Deve-se apoiar Israel porque esta é uma nação com a qual os EUA compartilha valores liberais. Não se pode comprar aliados como Israel, Jordânia e outros. Não espere aliados perfeitos, porque se não você vai ficar só.

COMO O GENERAL MATTIS PERCEBE O MUNDO?

Dignidade humana, liberdade e tolerância para com a diversidade – convencer o resto do mundo de que esse é o jeito certo de agir é o papel dos Estados Unidos. É falsa a ideia de que os Estados Unidos pode se retrair e tudo isso vai continuar funcionado porque é o estado natural das coisas.  Contudo, não precisa ser guerra ou retração, existem ações no meio do caminho. “A geração que voltou para casa depois da segunda guerra mundial aprendeu que, quando os Estados Unidos perde interesse na comunidade internacional, o resultado é terrível. A lição aprendida depois dessa terrível guerra teve como resultado a ONU, Bretton Woods, FMI, Banco Mundial (…). Contudo, esse sistema não é auto-sustentável, ele depende de cuidados” (Mattis, 2015). Defender a liberdade através da construção de alianças, mas isso não tira o peso da liderança.

Ele sempre ressalta a importância da economia para sustentar a capacidade militar de um país e a influência dele no mundo, bem como a importância de inteligência vinda de canais diplomáticos.

“States care about relative wealth, because economic might is the foundation of military might.” – Mearsheimer

O QUE ELE PENSA SOBRE A NATUREZA DA GUERRA?

As ideias que surgiram a partir do iluminismo e tomaram forma na Declaração de Independência dos Estados Unidos são ideias que valem a pena defender. Para se lutar guerras é necessário saber muito sobre história, apesar de que não importa quantos livros você leia, apenas o engajamento com o inimigo vai lidar o conhecimento sobre com quem você esta lutando. Não existe nada novo sobre o sol, ou seja, cada situação é única, mas o conhecimento de história vai lhe mostrar os caminhos que já foram explorados para lidar com um dado problema. A natureza da guerra não muda, apenas o seu caráter. Ele não pede desculpas pela política externa americana, mas ele tenta entender aqueles que criticam os Estados Unidos.

“You can always count on Americans to do the right thing – after they’ve tried everything else.” – Winston Churchill
O General Mattis afirma em uma palestra (feita na Hoover Institution) que os Estados Unidos tem possuía diferenças irreconciliáveis com o Taliban. Quando duas visões de mundo, irreconciliáveis se encontram, generalmente termina em disputa. Ainda nessa mesma palestra, ele é questionado sobre o Daesh e afirma que uma guerra entre os EUA e este grupo terrorista seria uma guerra de aniquilação e não de atrito. Ele também lembra o expectador que as guerras são fundamentalmente imprevisíveis e que seria horrível ter uma grande guerra no oriente médio, mas que, se isso acontecer, os Estados Unidos estariam preparados militarmente.

“Is political Islan in our best interest? That is how we should think about it. We have to put some thought in what we defend and, most important, on what we will not tolerate in the world.” – General Mattis

Quando entrevistado por Harry Kreisler para o especial “Conversations with History” da Universidade da Califórnia, o General James Mattis faz alguns comentários sobre a história dos conflitos nos quais os Estados Unidos estava envolvido. Para ele, aqueles que acham que a guerra não resolve nada, deveriam entender que um guerra acabou com a escravidão nos Estados Unidos, bem como acabou com uma politica de Estado que tinha como objetivo exterminar judeus e outras minorias, mas que, ainda sim, é uma forma brutal de resolver um problema. No caso de guerras entre povos se faz necessário criação de coalizões baseada na cooperação com os nossos aliados e estar disposto a se aliar com aliados não tradicionais (mesmo quando não concordamos com tudo o que eles fazem dentro dos seus países). FDR era progressista, mas se aliou ao Stalin para vencer Hitler. Os EUA tem o poder de intimidação e inspiração. É necessário saber usar os dois.

“For all the intellectuals running around today saying that the nature of war has fundamentally changed, I must respectfully say, ‘not really.’ Alexander the Great would not be in the least perplexed by the enemy we face right now.” – General Mattis

MINHA CONCLUSÃO

O General James “Cachorro Louco” Mattis me pareceu ser um neorealista nas suas análises de Relações Internacionais, contudo, em vários momentos, ele se mostra pragmático ao adotar perspectivas de autores neoliberais para analisar a geopolítica do oriente medio onde existem muitos atores não estatais. Sem dúvida, uma dos personagens mais inteligentes e com mais bom senso da administração Trump.


ADENDO

Destaco três artigos muito bons que o “Cachorro Louco” (é impossível não gostar desse apelido) escreveu ou que foi co-autor. São eles: “A News American Grand Strategy“,   “Warriors & Citizens: American Views of our Military” e  “Using Military Force Against ISIS“.

Um comentário sobre “Quem é o General James “Cachorro Louco” Mattis?

  1. […] Segundo o General James “Mad Dog” Mattis, atual Secretário de Defesa do Presidente Donald Trump, para se lutar guerras é necessário saber muito sobre história, apesar de que não importa quantos livros você leia, apenas o engajamento com o inimigo vai lhe dar o conhecimento sobre com quem você está lutando. Ainda segundo o General, não existe nada de novo sobre o sol, ou seja, cada situação é única, mas o conhecimento de história vai lhe mostrar os caminhos que já foram explorados para lidar com um dado problema, pois a natureza da guerra não muda, apenas o seu carácter. Essas ideias parecem inconsistentes em mundo no qual as guerras assimétricas tão brutais chegam aos nossos noticiários, contudo, este é o mesmo mundo no qual a armadilha de Tucídides nos obriga a olhar para a região da Ásia com atenção redobrada. […]

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