Quando o poder faz um tributo à razão.

O mais significativo tributo que o poder já pagou à razão. Essas foram as palavras utilizadas pelo Juiz Robert Jackson para definir os Tribunais de Nuremberg (foram treze ao todo). Esses julgamentos foram um dos marcos das nova ordem mundial. Ao invés de vingança, banhos de sangue e linchamentos, ocorreu um julgamento. E, sim, esse julgamento foi organizado pelos vencedores. Os países vencedores cederam ao tribunal os seus prisioneiros e aceitaram acatar as decisões tomadas pela corte quanto a inocência ou culpabilidade dos réus, ou seja, o poder fez um tributo à razão.

E foi um momento na história do século XX – em meio a tantas injustiças e sangue – no qual houve decência, liberdade e o império da lei. Claro, você pode me questionar, será? Será que um tribunal de vencedores julgando vencidos representa todas essas qualidades? Eu deixo o Robert Jackson, principal procurador do tribunal na ápoca, responder. “Infelizmente a natureza desses crimes é tal que tanto a acusação quanto o julgamento devem ser feitos por nações vencedores sobre inimigos vencidos. O alcance mundial das agressões feitas por esses homens deixou o mundo com apenas alguns poucos neutros. Então, ou os vitoriosos devem julgar os vencidos ou nós devemos deixar que os derrotados julguem eles mesmos. Depois da primeira guerra mundial, nós aprendemos a futilidade da última opção. O alto nível dos cargos ocupados pelos réus, a notoriedade dos seus atos, e a adaptação de suas condutas para provocar retaliação faz com que seja difícil distinguir entre a demanda por uma justa e adequada retribuição, e o irracional clamor por vingança que nasce da angústia da guerra. É a nossa tarefa, na medida do que é humanamente possível, traçar uma linha entre os dois. Nós nunca devemos nos esquecer que a forma com julgamos os réus hoje é a forma como a história vai nos julgar amanhã. Passar para esses réus um cálice envenenado é colocar o conteúdo de tal cálice nos nossos próprios lábios. Nós devemos invocar um distanciamento e uma integridade intelectual tamanha para a realização da nossa tarefa que esse tribunal irá se recomendar para a história como um que foi capaz de cumprir as aspirações da humanidade de fazer justiça”, declarou Robert Jackson no início do julgamento de Nuremberg.

Você pode pensar que na verdade os julgamentos de Nuremberg foram um espetáculo altamente tendencioso. Um teatro através do qual os vencedores, em especial os Estados Unidos, criminalizaram os atos feitos pelos nazistas sem precedentes jurídicos para tal. Um teatro que contribuiu para o estabelecimento dos valores Americanos como a base correta sobre a qual a nova ordem mundial deveria ser estabelecida. Valores estes que são uma construção social originada nos Estados Unidos e que não necessariamente devem ser compartilhados por todos no mundo. E que esta ordem mundial, que viria a ter como potência hegemônica os EUA, foi criada para impor e legitimar os valores e interesses Americanos sobre o mundo. Contudo, eu peço para que você deixe de lado quaisquer sentimentos de antipatia para com os Americanos que você possa ter e tente ver os julgamentos de Nuremberg como a última batalha entre os valores presente no nazismo e os valores presentes nos Estados Unidos e Inglaterra.

Enquanto os nazistas acreditavam que o indivíduo, a propriedade privada e as leis não passavam de uma engrenagem do Estado que existiam unicamente para servir aos propósitos do Estado, os Julgamentos de Nuremberg demonstraram através de evidências (documentos, filmes e números) que as ideias existentes no nazismo não serviriam para construir um caminho de prosperidade para a humanidade, ao contrário, o único caminho que aquelas ideias conseguiam construir terminava em Auschwitz, Dachau e Treblinka. As deliberações feitas entre os advogados, procuradores, réus e juízes demonstraram que indivíduos existem e que não são apenas engrenagens que servem ao Estado, que a propriedade privada dos indivíduos é um direito inalienável, e ainda plantou as sementes para uma ordem mundial marcada pela noção de um império da lei entre os Estados. Se você acha que isso tudo foi fácil, saiba que até hoje existem aqueles que simplesmente consideram errada a ideia de que existem certos valores tais como propriedade privada, liberdade, individualismo… e que tais valores são a base sobre a qual se constrói o progresso humano.

Hoje eu não sei o que me causa mais preocupação: o fato de que existem aqueles que negam que o Holocausto existiu ou o fato de que ainda existem aqueles que negam que alguns seres humanos são humanos e, portanto, dotados de certos direitos inalienáveis.

Não sei você, mas eu ainda me surpreendo quando vejo como é fácil encantar as pessoas com chavões vazios que evocam emoções e deixam pouco espaço para a razão. Eu ainda me choco com a facilidade com que as pessoas desejam que o império da lei seja descartado. Eu ainda me preocupo quando ouço aqueles que negam que o outro é humano.

Acima de tudo eu acho que eu tenho medo do medo, ou melhor, do aqueles que são movidos pelo medo são capazes de fazer. Eu tento, na medida do que é humanamente possível, me permitir fazer um tributo à razão e aos valores que homens como o Robert Jackson um dia defenderam porque eu sei que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Então, eu peço à você que permaneça vigilante, nesse Shabbat e em outros momentos, para as belas palavras que aparentam correção mas escondem uma certa perversidade, pois tudo o que há de mais sagrado para o homem pode ser perdido.

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