Entenda a crise do Kotel e os seus impactos diplomáticos

Diferentemente da enorme repercussão na comunidade Judaica dos países falantes da língua inglesa, especialmente nos Estados Unidos, no que se refere à crise causada pela dissolução do acordo do Kotel e pela Lei da Conversão, no Brasil não houve tanta repercussão. Contudo, sites como Vida Prática Judaica e Conexão Israel publicaram textos sobre o tema. Leia esses textos, respectivamente, aqui e aqui, para aprender ainda mais sobre o tema.

Glossário:  Muro das Lamentações = Kotel = Western Wall / Minyan = quorum mínimo de dez homens para iniciar as orações na sinagoga, na comunidade ortodoxos este quorum mínimo tem que ser composto de dez homens e mulheres não são contadas, enquanto que nas comunidades não-ortodoxas Judaicas este quorum é igualitário e mulheres contam / Rabinato de Israel = Rabanut /  Coversion Bill = Lei da Conversão / Haredi = Judeus Ultra-Ortodoxos / Judeus Liberais = Judeus Conservadores e Judeus Reformistas / Existem três grandes Movimentos ou Vertentes Judaicas = o Movimento Reformista, o Movimento Conservador e o Movimento Ortodoxo / Quando eu me refiro à “conversões válidas” ou “conversões inválidas”, eu me refiro a validade perante à Halacha, mas perante às leis do Estado de Israel – especialmente a Lei do Retorno / Mechitza = muro que delimita o local reservado aos homens e o local reservado às mulheres dentro da sinagoga Ortodoxa /  Knesset = parlamento Israelense.


 

Existem duas polêmicas acontecendo nesse momento em Israel e que estão provocando muitas discussões nas comunidades Judaicas da diáspora, em especial, na comunidade Judaica dos Estados Unidos. Quais são essas polêmicas? A aparente implosão do acordo sobre a construção de uma área do Muro das Lamentações (Kotel) reservado aos Judeus que desejem rezar em um minyam (quorum) igualitário e a tentativa, por parte das lideranças políticas da comunidade ultra-ortodoxa, de aprovar uma lei que reserva ao Rabinato de Israel o monopólio das conversões ao Judaísmo feitas no país .

UFA! É MUITA POLÊMICA. VAMOS COM CALMA PARA ENTENDER MELHOR TUDO ISSO.

Primeiro, a lei em questão. Dentro do Estado de Israel existem vários meios pelos quais uma pessoa que assim deseje pode se converter ao Judaísmo (não vou discutir aqui sobre conversão na diáspora).

Uma pessoa pode se converter, dentro da Ortodoxia Judaica, pelos tribunais rabínicos da Rabanut, pelo tribunal rabínico de Bnei Brak (Haredi), por cortes privadas etc. Segundo decisões da Suprema Corte de Israel, o Estado de Israel deve reconhecer para efeitos de Lei do Retorno (principal lei que regulamenta a imigração para o Estado de Israel) as conversões Ortodoxas feitas, dentro do Estado de Israel, não apenas pela Rabanut, mas também por Bnei Brak.

Uma pessoa também pode se converter, fora da Ortodoxia Judaica, pelos tribunais rabínicos das Comunidades Judaicas Reformistas e Conservadoras do Estado de Israel. Essas últimas pessoas não terão direito à utilização da Lei do Retorno, mas podem ser registrados pelo Ministério do Interior do Estado de Israel como Judeus ou Judias, mas vão esbarrar no Rabinato Ortodoxo (Rabanut) se desejarem casar dentro do Estado, serem enterradas etc., pois a Rabanut não reconhece a validade (perante à Halacha) das conversões feitas por tribunais rabínicos Reformistas e Conservadoras nem dentro do Estado e nem fora do Estado de Israel.

Qual o objetivo dessa lei, conhecida Conversion Bill, que as lideranças políticas ultra-ortodoxas desejam passar? Esta lei daria o monopólio da conversão ao Judaísmo, dentro do Estado de Israel, para a Rabanut, ou seja, quaisquer outras conversões realizadas em Israel – mas fora desse framework instucional – não seriam válidas.

O surgimento dessa lei e a aprovação da mesma na primeira audiência de votação (são precisam três audiências de votação no Knesset para a aprovação desta lei) acontece no contexto da queda do acordo relacionado ao Muro das Lamentações.

Segundo, a região do Western Wall está sobre a administração da Rabanut (Rabinato de Israel).  Esta última administra esse, que é um dos lugares mais sagrados para o povo Judeu, como se o mesmo fosse uma sinagoga, ou seja, os Judeus que quiserem rezar no local tem que adotar o costume e as interpretações da Halacha (Lei Judaica) da comunidade Ortodoxa Judaica. Traduzindo: pessoas de todas as religiões podem rezar lá como quiserem, mas os Judeus que desejarem rezar lá tem que acatar a separação entre gêneros na qual um mechitza separa homens e mulheres e as mulheres não podem manusear o Sêfer Torah ou fazer uso de Tallit/Teffilin/Yamamulk. Na prática, isso significa que Judeus não-ortodoxos (Judeus Reformistas e Conservadores) não podem rezar no Kotel como estão acostumados a rezar dentro de suas sinagogas.

E daí? Os Judeus Reformistas e Conservadores não são a maioria dos Judeus em Israel (segundo os dados mais recentes do Pew Research, eles correspondem à cerca de 12% da população Israelense), contudo eles constituem a maioria dos Judeus da diáspora . Os movimentos reformista e conservador são os movimentos que representam a maior parte da comunidade Judaica dos Estados Unidos (correspondem a cerca de 90% da comunidade Judaica deste país).

As restrições oriundas do controle das lideranças religiosas ortodoxas ao Kotel e o monopólio da Rabanut sobre outros aspectos da vida Judaica em Israel incomodam os Judeus que fazem parte dos movimentos Reformista e Conservador. Deste incomodo, surgiu o envolvimento deles com um grupo denominado Women Of The Wall. Este grupo realiza orações (Tefilot) no Muro das Lamentações de uma forma que quebrava as regras pré-estabelecidas. Quase nunca os soldados Israelenses responsáveis pela segurança do local se envolviam, exceto quando aconteciam tumultos. Os tumultos aconteciam quando o grupo passou a ganhar destaque e a entrar em choque com os Judeus Ortodoxos e Ultra-ortodoxos que ali rezavam. Ocorrerão prisões de ativistas ligadas ao grupo Women Of The Wall por perturbação da ordem pública. Entre muitos tumultos, prisões, processos judiciais e apoio de várias organizações não-governamentais que atuam em Israel em prol do pluralismo religioso, a Justiça Israelense concedeu ao grupo Women Of The Wall o direito de rezar como quisessem no local, algo que não deixou as lideranças religiosas Ortodoxas pulando de felicidade. Então, o governo de Israel decidiu articular um acordo entre os evolvidos. Com base nesse acordo, os Judeus Reformistas e Conservadores teriam uma área do Kotel reservada para eles rezarem da forma como quisessem e os Judeus Ortodoxos ainda permaneceriam no controle da área principal. Em teoria, os problemas estavam resolvidas, mas as construções dessa área foram “congeladas” pelo Gabinete Israelense.

É relevante mencionar duas coisas: (1) esses tumultos e prisões eram muito úteis a causa dos ativistas envolvidos com o Women Of The Wall, pois a cada foto de mulheres Judias sendo presas por carregar o Sêfer Torah, mais audiência e popularidade a sua causava ganhava na comunidade Judaica dos Estados Unidos, e (2) o grupo Women Of The Wall, pelo menos no início, encontrava muitos simpatizantes na comunidade Judaica Ortodoxa Moderna dos EUA.

Por que tanto a lei relacionada à conversões quanto a implosão do acordo do Kotel causam tanta polêmica? Primeiro, porque ressalta as divisões políticas e religiosas do mundo Judaico, bem como ressalta quais grupos religiosos tem poder político dentro de um Estado que, teoricamente, deveria ser a casa cultural de todos os Judeus. Segundo, porque causa um impacto negativo na imagem de Israel para a maioria dos membros da comunidade Judaica dos Estados Unidos. Terceiro, passa uma ideia para as comunidades Judaicas do mundo inteiro de que existem grupos Judaicos que são melhores ou possuem mais autoridade do que outros.

TANTO A APARENTE IMPLOSÃO DO ACORDO QUANTO A LEI SOBRE CONVERSÃO AO JUDAÍSMO CAUSARAM UM FORTE IMPACTO NAS COMUNIDADES JUDAICAS DA DIÁSPORA.

Por que uma lei sobre conversão ao Judaísmo é relevante politicamente para Israel e para os Judeus do mundo inteiro ao ponto de causar tanto furor? Como o próprio prefácio da lei explica, “a lei estabelece que a conversão em Israel tem o poder de conferir direitos, entre eles; os direitos garantidos sobre a Lei do Retorno”. Traduzindo: uma pessoa que se converte ao Judaísmo tem  vários direitos garantidos pela lei Israelense, o mais relevante deles seriam os direitos relacionado a principal lei que regulamenta a imigração no país, a Lei do Retorno. Esta última garante o direito a qualquer um que seja considerado Judeu ou Judia, o direito de imigrar para Israel e receber benefícios financeiros para tanto. Traduzindo ainda mais: a conversão ao Judaísmo não implica numa mudança espiritual estritamente de caráter privado desse ou daquele indivíduo, mas também implica em benefícios legais fornecidos por um Estado.

De onde surgiu essa Conversion Bill que está sendo discutida pelo Knessset? A Suprema Corte de Israel, em um caso de 2016, decidiu que a Lei do Retorno é aplicável para todos aqueles que residem legalmente em Israel e que se converteram dentro de uma comunidade Judaica reconhecida Ortodoxa (esta decisão da Suprema Corte não foi contrária a aplicação da Lei do Retorno para convertidos pelos Movimentos Reformista e Conservador na diáspora, apenas respondeu ao processo específico que era a respeito de uma pessoa que havia feito conversão Ortodoxa fora da Rabanut). Segundo esta mesma Suprema Corte, o Estado de Israel não possui um mecanismo legal que permita que o mesmo diferencie entre as conversões ortodoxas feitas pela Rabanut e fora quando se trata de fornecer os direitos e benefícios referentes à Lei Retorno. Logo, na época, o Governo Israelense teria que acatar a decisão da Suprema Corte para o caso de 2016. Traduzindo: Conversion Bill permitiria legalizar o status quo no qual apenas as conversões Ortodoxas da Rabanut – feitas dentro do Estado de Israel – seriam reconhecidas pelo Estado como válidas.

O jornalista Israelense, Haviv Retting Gur, escreveu uma análise sobre esses dois assuntos no jornal Times Of Israel. No seu texto, “New government-backed conversion bill targets Orthodox, not the Reform!“, Gur escreve que a energia dos líderes da comunidade Judaica dos Estados Unidos tem sido focada não na lei sobre conversão, mas sobre o acordo no Muro das Lamentações. Por que isso acontece?

“A razão [para isso] é simples: [o Muro das Lamentações] é o verdadeiro símbolo mundial da conexão com a terra de Israel, e o surpreendente cancelamento do acordo é uma difícil e clara facada nas costas [da comunidade Judaica dos EUA]. Acordos são sagrados para os Americanos. Se compromissos podem ser cancelados quer queira, quer não, por que fazer os sacríficos necessários para alcançar [acordos] em primeiro lugar?”, escreve Gur.

E a lei quanto conversões?

“No papel, a lei [quanto conversão] faz muito pouco. Ela não diz nada sobre conversões feitas fora do Estado de Israel. Ela não tem nada haver com conversões feitas dentro do Estado de Israel por cidadãos que já são Israelenses, incluindo as centenas de milhares de membros familiares de Judeus que não são Judeus de acordo com a Halacha [Lei Judaica]. E não afeta cidadãos de outros países que não são Israelenses que desejam se converter dentro do framework do Rabinato de Israel. Quem mais? Apenas esses: pessoas que não são cidadãos Israelenses, mas que vivem em Israel por um longo período de tempo com o objetivo de obter conversões ao Judaísmo através d Tribunais Rabínicos privados. Esse grupo não é muito grande. De acordo com os dados oficiais [quanto ao assunto] – que são imperfeitos pelo simples fato de que essas conversões são realizadas fora do espaço das agências oficiais – estimam que o número de pessoas [nesse grupo] seja menor que dezenas ao ano”, escreve Gur.

É nessa parte da análise que eu acredito que o autor, Haviv Retting Gur, falha. Por que? Porque existem comunidades Judaicas da diáspora (por exemplo, no Brasil) que só aceitam convertidos (dentro de suas sinagogas e como Judeus de fato) que tenham feito o seu processo de conversão que seja reconhecido pelo Rabinato Oficial de Israel (Rabanut). E isso dificulta a conversão ao judaísmo para essas pessoas. Se uma pessoa vive fora de Israel e não tem como passar um longo período de tempo em Israel ou não quer se submeter as exigências do Rabinato Oficial de Israel (que está cada vez mais sobre uma influência maior de rabinos ultra-ortodoxos), esta pessoa pode optar pela conversão através de Tribunais Rabínicos privados de Israel. Contudo, se esta lei for aprovada, as pessoas que optaram e optam por Tribunais Rabínicos Privados não vão ser reconhecidas pelas comunidades da diáspora que aceitam apenas conversões aceitas pelo Rabinato Oficial de Israel. E eu acho que o número de pessoas que passam por Tribunais Rabínicos Israelenses é bem maior do que o número oficial sugere.

Na prática, a Lei sobre conversões ao Judaísmo vai esclarecer o status quo que já existe. Neste status quo, o Estado de Israel reconhece as conversões feitas por “comunidades reconhecidas” todos no que diz respeitos aos direitos e benefícios da Lei do Retorno (Reformistas, Conservadores e Ortodoxos), mas, dentro deste Estado, apenas as conversões feitas pelos Tribunais Rabínicos Oficiais (Rabanut) serão aceitas como válidas. O que são “comunidades reconhecidas”? Pergunte para a Agência Judaica. Quais os grupos que criticam e são afetados por este status quo? O Movimento Reformista, o Movimento Conservador e os Judeus ligados à Ortodoxia Moderna dos EUA (Dati Leummi em Israel).

OS IMPACTOS DA CONVERSION BILL E DA IMPLOSÃO DO ACORDO SOBRE A CRIAÇÃO DE UM ESPAÇO DE ORAÇÕES PLURALISTA NA ORTODOXIA MODERNA DA DIÁSPORA E OS DATI LEUMI DE ISRAEL.

Ao contrário do que muitos supõe, a comunidade Judaica Ortodoxa não é unida em torno das interpretações da Halacha (Lei Judaica) e dos costumes ultra-ortodoxos (haredim). Vários rabinos da comunidade Judaica Ortodoxa Moderna possuem críticas – ao que eles consideram ser – um modo de vida religioso excessivamente restritivo e rígido advogado por comunidades Haredim, bem como criticam algumas das  exigências feitas por rabinos ultra-ortodoxos à pessoas que desejam se converter. É relevante mencionar que muitos dos rabinos envolvidos com Tribunais Rabínicos privados de Israel (Giyur Kahalacha Organization) são ligados à comunidade Ortodoxas Modernas da diáspora e a comunidade Dati Leumi de Israel.

“Impor uma versão estreita de Judaísmo Ortodoxo como o padrão oficial para reza e conversão dentro de Israel fere a unidade do Povo Judeu e prejudica o apoio Americano à Israel. Nós [Grupo Rabínico Torat Chayim] encorajamos todos os Judeus Ortodoxos Modernos a apoiar publicamente a liberdade para múltiplos abordagens de [modo de vida] religiosos. A Torah demanda que nós abracemos a humildade ao lidar com os outros seres humanos. O Pikei Avot nos ensina: não demande ser o único juiz (do que está certo ou errado nos assuntos religiosos), pois apenas D’us – e não humanos representando D’us – tem a capacidade de ser o único juiz. Isso significa que nós devemos trazer não arrogância ou certeza, mas  humildade e a capacidade de se maravilhar para os nossos relacionamentos. Os nossos sábios nos ensinaram que somos mais fortes quando nós discordamos abertamente e de maneira respeitosa, [tudo isso] enquanto continuamos a nos engajar uns com os outros e continuamos a honrar a dignidade humana uns dos outros”, escreveu o Rabino Shmuly Yanklowitz em um artigo assinado por ele e outros, intiluado “Orthodox Rabbis Call for a Truly Pluralitic Israel” no The Jewish Daily Forward (um dos principais jornais Judaicos dos Estados Unidos).

QUAIS SÃO OS COMENTÁRIOS EM RELAÇÃO A ESSAS POLÊMICAS NOS ESTADOS UNIDOS?

A AIPAC (mais famosa organização Judaica de lobby pró-Israel dos Estados Unidos) havia enviado uma delegação para Israel com o objetivo de realizar um encontro com o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sobre a possível “crise de fé” na comunidade Judaica dos EUA em virtude da implosão do acordo sobre a criação de um espaço pluralista de orações no Muro das Lamentações e da possível aprovação das lei que consolida o monopólio das conversões, em Israel, na mão do Rabinato de Israel (Rabanut). Segundo a AIPAC, tais mudanças politico-religiosas poderiam diminuir o incentivo dos ativistas pró-Israel e prejudicar a segurança de Israel – já que parte do apoio do Capitólio é baseado na ideia de que Israel é uma democracia e garante direito a liberdade para todos os povos.

A Senadora Nita Lowey (Partido Democrata) dos Estados Unidos e representante de Nova York, cidade na qual residem muitos Judeus, pediu ao PM Netanyahu que honre o acordo do Muro das Lamentações realizado em Janeiro de 2016. “Como um membro do Congresso que tem contribuído para o avanço das relações entre EUA e Israel durante a minha carreira, eu peço que o Governo de Israel revise a decisão de suspender o plano pré-aprovado da construção de um pavilhão pluralista para orações no Western Wall (..). A maioria dos Judeus do mundo consideram Israel como a sua terra ancestral, e Israel deveria dar a oportunidade de rezar de forma igualitária no Western Wall para todos os Judeus, homens e mulheres”, disse a Senadora Nita Lowey ao Times of Israel.

O Senador Lee Zeldin (Partido Republicano) dos Estados Unidos e também representante de Nova York, pediu que as partes envolvidas cheguem à um acordo para terminar esta disputa que, segundo o senador, estava dividindo os Judeus do mundo inteiro.

O grupo Conference of Presidents of Major American Jewish Organizations (“Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas”, em português) também se pronunciou sobre o caso. “A falta de unidade pode levar a erosão de apoio [dos Estados à Israel] que foi identificado, pelo Conselho de Segurança Nacional de Israel, como sendo um elemento vital para a segurança de Israel.

O Embaixador dos Estados Unidos, em Israel, afirmou que existe muito espaço para a crítica, mas que os Judeus Americanos deveriam se unir para apoiar o milagre que é Israel.

Apesar do pequeno número de Judeus que se consideram membros dos movimentos Reformista e Conservador dentro do Estado de Israel, esses Movimentos tem muitos adeptos na comunidade Judaica dos Estados Unidos e isso torna eles economicamente relevantes.

“Alienar a diáspora Judaica – particularmente a mais rica das comunidades Judaicas da diáspora, ou seja, os Judeus Liberais Americanos que investem em israel – pode nos custar bilhões de Shekels”, afirma Michael Oren (Ministro Israelense e ex-embaixador de Israel nos Estados Unidos). Segundo Oren, a atual crise faz com que seja mais difícil para os filantropos conseguirem levantar dinheiro para Israel.

De acordo com o mais recentes relatório emitido pelo Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, os Judeus das comunidades da diáspora contribuem com cerca de NIS 58 Bilhões de Shekels para Israel (cerca de 6.35% do GDP do país). Os Judeus dos Estados Unidos contribuem com cerca de NIS 8 Bilhões de Shekels ao ano (eles correspondem a 90% das doações da diáspora para o Estado de Israel). Junte essas contribuições com investimentos financeiros (venture capital…), investimentos imobiliários, exportações e turismo, e você chega a um total de quase NIS 58 Bilhões de Shekels (cerca de US$14 Bilhões de dólares). Segundo Michael Oren, 1% de queda das contribuições da diáspora à Israel podem custar à economia Israelense 1.800 empregos Israelenses.

Além disso, a alienação da diáspora Judaica podem causar impactos na segurança de Israel. O Coronel de Reserva Israelense (que também atuou no Conselho de Segurança Nacional de Israel), Dr. Eran Lerman, escreveu sobre o assunto em um artigo para o Begin-Sadat Center for Strategic Studies. Segundo o Dr. Lerman, a controvérsia com relação ao Muro das Lamentações é…

“(…) uma ameaça à longo prazo para um dos pilares fundamentais da segurança nacional de Israel: nominalmente, a vontade e a habilidade das organizações Judaicas Americanas de apoiar Israel nas horas em que [este país] precisa – como eles tem feito várias e várias vezes desde 1948 (…). Além disso, alienar deliberadamente e descaradamente as denominações não-ortodoxas – força-los a se questionar se o seu comprometimento com Israel (e as necessidades deste país) fez com que eles fossem dignos de atenção entre o duro e problemático mundo político Israelense – é comprometer a perspectiva de mobilização da ajuda deles (quando, e não se) precisarmos em assuntos importantes para a nossa própria sobrevivência. Isso é, literalmente, cortar o galho onde estamos sentados.”

Apesar de muitos rumores com relação a possíveis suspensões de doações por parte de organizações Judaicas dos Estados ao Estado de Israel, os lideres de várias federações Judaicas nos EUA já afirmaram que as organizações que representam não tem intenção de suspender doações, apesar dos impactos negativos causados nas comunidades que representam pelas controvérsias.

QUAIS SÃO OS COMENTÁRIOS EM RELAÇÃO A ESSAS POLÊMICAS NO ESTADO DE ISRAEL?

O Presidente do Estado de Israel, Reuven Rivlin, escreveu uma carta aberta na qual abordou o assunto. “O Estado de Israel é para todo o Povo de Israel e vai continuar comprometido com essa ideia. Os Judeus da diáspora tem um importante e significativo papel na construção do Estado de Israel (…). Isso sempre tem sido assim e vai continuar sendo assim. A unidade do Povo Judeu devem sempre continuar a ser um importante aspiração para os governos de Israel”, afirmou Rivlin.

O Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu tem tentado acalmar as ondas da crise. Como? O PM Netanyahu emitiu três diretrizes. primeiro, todos os Judeus vão poder continuar a rezar no Muro das Lamentações – como já acontece. Segundo, o Ministro de Cooperação Regional, Tzachi Hanegbi (Likud), e o Secretário do Gabinete, Tzach Braverman, devem continuar a dialogar com os envolvidos para tentar buscar uma solução. Terceiro, o trabalho para o preparo da praça sul deve ser acelerado para que todas as vertentes possam rezar no Muro das Lamentações.

O parlamentar e Presidente do Comitê Financeiro do Knesset, Moshe Gafni (Partido United Torah Judaism), afirmou que Rádio do Exército que os Judeus Reformistas estão “deslegitimando o Judaísmo” e também afirmou que estava disposto a sentar com um Palestino, mas não com um Judeu Reformista.

Natan Sharansky, Presidente da Agência Judaica, afirmou que as comunidades Judaicas e indivíduos Judeus podem reconsiderar possíveis viagens à Israel e doações à Israel devido a decisão de suspender a construção de um local pluralista para orações Judaicas no Kotel (Muro das Lamentações). Segundo o jornal Israelense, Haaretz, a Agência Judaica instruiu os seus  representantes nas comunidade Judaicas da diáspora à levar as demonstrações de ressentimento e raiva da diáspora – com relação a implosão do acordo no Kotel e a lei de conversão – aos políticos Israelenses e figuras públicas de Israel.

O Presidente da Agência Judaica, Nathan Sharansky, deu uma entrevista para o Times of Israel sobre esses dois assuntos polêmicos. Desta entrevista, eu destaco:

“Existem muitos Israelenses, bons Israelenses – bons sionistas, judeus amáveis – que acreditam que a Reforma é um tipo de secto que destruiu o Judaísmo por dentro nos Estados Unidos, e que agora busca outros lugares para destruir, porque é assim que eles vivem – destruindo. E que agora [este secto] esta vindo para cá. Eu digo para eles, sabe, isso é exatamente o que os antissemitas falavam sobre os Judeus na Rússia. Quando eu disse para o governo, um ou dois anos atrás, que 85% daqueles que apoiam a AIPAC são Judeus Reformistas ou Conservadores, metade dos membros do governo ficaram chocados. Eles realmente pensavam que eles [Judeus Reformistas e Conservadores] apoiavam boicotes contra Israel, todas essas loucuras de J Street, Breaking the Silence (…).”

(…)

“A verdade é que, nas condições da diáspora, sobreviver e não se assimilar é um grande desafio. Desde o início, há 200 anos atrás, quando os Judeus começaram a viver entre os gentios – e alguns deles que queriam continuar vivendo ativamente entre os gentios mas, ao mesmo tempo, também queriam se sentir Judeus em casa – alguns buscaram diferentes formas de Judaísmo. Não é o local onde eu rezo, é o local onde eu falo com D’us. Mas é o local onde muitos Judeus, que querem continuar sendo Judeus, se juntam. Então, o Estado de Israel, se pretende continuar a dizer que é a casa para todos os Judeus, definitivamente tem que dizer a eles: nós queremos você. E nós também queremos as suas comunidades, nós queremos os seus rabinos, os seus netos. Então, muitos Judeus na diáspora dizem [para Israel], seja democrática como nós. Mas eles não entendem que nós estamos fazendo algo muito mais desafiador que eles: nós estamos tentando ser democráticos no Oriente Médio. Igualmente, muitos Judeus em Israel dizem [para a diáspora], não se assimile – seja como a gente. Nós somos religiosos ou seculares. Mas eles [Israelenses] não entendem que os Judeus da Diáspora estão fazendo algo muito mais difícil. Como não se assimilar nos Estados Unidos não é a mesma coisa que como não se assimilar em Israel. Eles estão usando essas ferramentas [de diferentes vertentes do Judaísmo]. Se nós pudéssemos inventar ferramentas hoje, num tempo em que existe o Estado de Israel, talvez nós inventássemos diferentes ferramentas. Mas essas são as ferramentas que existem.”

Ai como é bom quando aparece um indivíduo lucido como o Presidente da Agência Judaica, Nathan Sharansky, foi nessa parte da entrevista.

CONCLUSÃO

O Rabino Ortodoxo Nathan Cardozo escreveu, no Jerusalem Post (2014), um texto intitulado “The Kotel – Have We Gone Mad“. É um daqueles textos que os escritores fazem um apelo à sanidade e ao que há de melhor no ser humano, mas que sabem que estão sendo idealistas e que não vão ser ouvidos, mas mesmo assim escrevem. Nesse texto, o Rabino Cardozo escreveu:

“O Kotel é o único lugar no mundo no qual não existe relógio, nem cedo ou tarde. É aquele lugar que nunca foi abandonado pelos Judeus ao longo da nossa história, aquele local para onde nós rezamos por milênios, e é aquele lugar no qual nos choramos todos os anos. É o muro que nem os Babilônios, os Gregos ou os Persas foram capazes de destruir, é um lugar para o qual – durante os milênios – nos quebramos vários vidros nos casamentos de nossos filhos, e o lugar pelo qual os nossos soldados sacrificaram as suas vidas. É um muro ensopado pelas lágrimas congeladas de milhares de Judeus – mulheres, homens e crianças. E agora nós o estamos destruindo, o roubando de sua [essência] sagrada e eterna.”

O problema, Rabino Cardozo, é o que o ser humano – de modo geral – não vive só de apreciar a monumental beleza e a profundidade espiritual que aquele muro representa para um Povo Judeu e para a humanidade, o ser humano também vive de política. Os problemas que envolvem não apenas a Conversion Bill e a desintegração do acordo do Kotel não envolvem apenas religião, envolve também política. Um jogo político entre grupos cujas identidades foram formadas por filosofias, ideias, pensadores e momentos histórias que moldaram os últimos três séculos da história Judaica. E é por isso que o diálogo político entre esses grupos é tão difícil. Além disso, eles pouco se conhecem.

Essa polêmica atual é apenas mais um episódio dos últimos trezentos anos de debates entre tradição e modernidade. Desse debate, eu prefiro sentar não no palco onde todos gritam, mas da plateia fria, atenta, parada e no silêncio do escuro. Nenhum dos indivíduos mais exaltados esta inteiramente certo ou inteiramente errado.

As Women Of The Wall (e seus empolgados apoiadores nos movimentos Judaicos não-ortodoxos) podem exigir o fim do monopólio do Rabinato de Israel (Rabanut) sobre momentos do ciclo de vida Judaico tanto quanto eu posso exigir que, ao me jogar de um prédio, a força da gravidade não aja sobre mim. Ou seja, elas podem até querer isso e até apresentar bons argumentos sobre as vantagens disso, mas, na prática, o status quo não vai mudar porque não existem condições geopolíticas que permitam essas mudanças.

Ah! Status quo, esta é a palavra do momento tanto para o Rabinato de Israel e suas conversões quanto para o conflito entre Israelenses e Palestinos. O Rabinato de Israel e os Judeus ultra-ortodoxos podem até querer fechar os olhos para a maioria dos Judeus da diáspora e para os Judeus não-ortodoxos, mas o fato permanece, eles estão aí e vão continuar por aí por um bom tempo.

Enquanto estou sentada na plateia deste palco bagunçado, as palavras do diretor criativo, J. J. Gross me fazem rir.

“O Rabinato de Israel – apático, corrupto, louco pelo poder e controlado pelos Haredi – é extremamente inútil como fator de construção e unificação na nossa sociedade. Tendo dito isso, os moribundos Movimento Conservador e Reformista dos Estados Unidos já passaram do rigor mortis e os espasmos cadavéricos (…) [de crítica] as políticas Israelenses com um pouco de um arrogante amor condicional jogado [sobre Israel] não é um bom parâmetro” – J. J. Gross.

Sou cética tanto em relação à nobres intenções do Rabinato de Israel (Ortodoxo) quanto em relação as proclamadas virtudes das líderes dos Judeus Conservadores e Reformistas que vivem na pequena América.

Não acredito nem que a dissolução desse acordo vá ser o início do fim das relações entre as comunidades da diáspora e o Estado de Israel, não porque a dissolução não seja ruim ou porque o essas comunidades vão parar de se “sentir excluídas” do establishment religioso, mas porque o Estado de Israel é parte da realidade do universo Judaico atual. De fato a dissolução pode alienar aqueles jovens das comunidades não-ortodoxas que não estão assimilados ao mundo não Judaico e são ativos no seu mundo não-ortodoxo – e, esse, é o principal aspecto negativo da dissolução do acordo.

Os impactos diplomáticos na Crise do Kotel não estão na perda de Soft Power do Estado de Israel no mundo não Judaico, mas dentro do próprio universo Judaico – especialmente no caso da comunidade Judaica dos Estados Unidos.

Não sei se essa lei da conversão vai passar, já conversei com alguns Judeus Israelenses que acompanham o tema que afirmam que não vai passar e outros que afirmam que pode passar. Se passar, os principais afetados vão ser os Judeus Ortodoxos Modernos e não os Judeus não-ortodoxos – que já não fazem parte do establishment. E se não passar, as discussões vão continuar quanto ao tema porque os Judeus discutem sobre “o que é ser Judeu?” e “quem é Judeu?” de forma intensa pelos últimos trezentos anos – pois, foi nesse período que as respostas para essas perguntas passaram a ser complexas. Essa não é a última e nem a primeira lei do tipo.

Poxa Avigayil, você não acha que todos os países devem ser democracias liberais à lá Estados Unidos e que, por isso, tanto as mulheres deveriam ter o direito de rezar como quisessem e todas as conversões ao Judaísmo deveriam ser aceitas? Eu queria muito que todos os países fosse democracias liberais à lá EUA, contudo são necessárias condições geopolíticas para tanto. No caso de Israel, apesar de ser uma democracia, a religião está muito próxima do Estado e a história do local favoreceu e favorece a prosperidade da identidade Judaica ligada à Ortodoxia Judaica.

Enquanto os protagonistas e seus apoiadores entusiasmados se exaltam no palco, eu me levanto da cadeira e caminho até a porta. Acabou a minha pipoca.

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