Biblioteca Ets Haim: um tesouro que sobreviveu tanto à Inquisição quanto aos Nazistas.

A BIBLIOTECA

A biblioteca Ets Haim/Livraria Montezinos é a mais antiga livraria Judaica em funcionamento. Ela foi fundada em 1639 e faz parte do complexo histórico da comunidade Judaica Portuguesa de Amsterdã desde 1675. Em 1889, a biblioteca privada do então bibliotecário David Montezinos foi doada à Ets Haim e a biblioteca passou a ser conhecida como Ets Haim/Livraria Montezinos. Essa biblioteca carrega consigo a alma dos Judeus que fugiram da perseguição católica que ocorria na Espanha e em Portugal. Hoje, a coleção da Ets Haim esta na lista das Heranças Mundiais da UNESCO.

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Biblioteca Ets Haim, Amsterdã / Fonte: <http://etshaimmanuscripts.nl/about/&gt;

 

Nesta biblioteca você pode encontrar uma coleção de 30.000 volumes impressos e 500 manuscritos – a maioria são manuscritos escritos por pessoas que fugiram da inquisição que ocorreu na Peninsula Ibérica ou seus descendentes. Esses imigrantes Judeus eram pioneiros em filosofia, inovação e comércio. Quando eles fugiram da inquisição, eles trouxeram consigo, para a Holanda, seus conhecimentos em teologia, astronomia (na biblioteca existe um livro intitulado “Collection of Astronomical Treatises” do século XVII escrito em Hebraico) e medicina.

O principal foco temático desta biblioteca eram humanas, ou seja, todos os aspectos dos estudos Judaicos e da história cultura da comunidade Judaica da época. Uma coleção de livros que refletia a universalidade do espírito humano da época, da ciência e das habilidades.

OS JUDEUS SEFARDITAS DA PENÍNSULA IBÉRICA INSPIRARAM E AINDA PODEM INSPIRAR. ELES SE INTEGRAVAM SEM SE ASSIMILAR. ELES INSISTIAM NA COMBINAÇÃO DE ESTUDOS JUDAICOS E EXCELÊNCIA NAS ÁREAS DE LITERATURA, FILOSOFIA, RETÓRICA E CIÊNCIA. TUDO ISSO FICA CLARO QUANDO SE ANALISA O CURRÍCULO DA ETS HAIM.

“As pessoas que fundaram a Ets Haim e contribuíram para o seu crescimento estavam vivendo sobre perseguição por décadas. Você pode observar, nos livros, o entusiasmo dessas pessoas por poderem se reconectar abertamente às suas tradições Judaicas e retornar aos estudos. A Ets Haim é um testamento do renascimento cultural pelo qual essas pessoas passaram”, disse Ruth Peeters, catalogadora sênior na biblioteca, ao Times Of Israel.

“Mas se atendermos aos antecedentes culturais, se analisarmos o currículo da Ets Haim, temos a noção exacta de um tipo universal de educação estabelecido firmemente nas raízes do Renascimento e do Humanismo tendo, até ao final do século XIX, prosseguido com a mesma visão e o mesmo ideal. Uma das maiores contribuições que levaram das suas origens foi o saber como combinar a religião com os estudos seculares, o que se ficou a dever à experiência de uma vivência próxima com as culturas muçulmana e católica, prolongada por vários séculos na Península Ibérica. Os seus líderes espirituais foram médicos, conselheiros, banqueiros, distinguindo-se tanto em Lei judaica como em Filosofia ou Literatura. Até serem expulsos de Espanha, em 1492, ocupavam lugares de destaque nas ciências, na cultura, nas finanças e até mesmo na política, servindo frequentemente de elos de ligação entre os progressos alcançados pelos árabes e o mundo cristão (…). A Ets Haim integrou as tradições da escola latina e da escola talmúdica de ensino superior e conduziu o ensino de gramática, poesia e retórica, ao mesmo tempo que as matemáticas ou as belas-artes. Uma educação combinada que perdurou continuamente por mais de três séculos o que não se verificou em qualquer outra parte do mundo judaico (Maria Fernanda Matias).”

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Biblioteca Ets Haim, Amsterdã / Fonte: http://etshaimmanuscripts.nl/about/

O mais antigos dos documentos encontrados nessa biblioteca histórica é uma cópia do Mishneh Torah (códigos de leis Judaicas escrito pelo Rabino Moshe ben Maimon, popularmente conhecido como Maimonides) que data de 1282. Esse preciso livros carrega em suas páginas um testamento da história pela qual passou, pois teve passagens inteiras retiradas pelo seu último portador – um Judeu que se converteu ao Cristianismo e se tornou um censor da Inquisição.

“Em sociedade que experimentava um grande florescimento econômico e cultural no “Século do Ouro” holandês, de 1650 a 1750, tornou-se importante para a comunidade que participava da vida de Amsterdam apresentar-se como culta. Os sefardos distinguiram-se assim pela sua dedicação à filosofia e à polêmica religiosa, ao teatro e à poesia, contribuindo para a vida cultural em geral de Amsterdam (Prof. Dr. A.A.Bispo e Dr. H. Hülskath).”

A cultura de debates desta comunidade Judaica que encontrou o seu lar em Amsterdã após fugir da Inquisição era impressionante. Pode-se citar, como elementos que contribuíram para a atmosfera de debates: a exposição dos Judeus à diferentes religiões, a exposição dos Judeus à diferentes ideias graças ao fato da cidade de Amsterdã ser um centro de comércio internacional da época e a relativa liberdade oferecida pelo Estado na época. Essa comunidade Judaica produziu apikoros famosos, tais como Baruch Espinoza e Uriel da Costa. Não é possível saber com certeza, mas talvez esses dois homens tenham usado a biblioteca Ets Haim como local de pesquisa.

É interessante mencionar que, em 1626, Menasseh ben Israel introduziu, na Holanda, a primeira imprensa de caracteres móveis hebraicos. Esta imprensa fez de Amsterdã o maior centro de produção e venda de livros em hebraico da época. Menasseh era mais do que um impressor, ele era um brilhante escritor, professor e rabino da sua época. Ele manteve contato com vários intelectuais judeus e não-judeus de seu tempo. Em 1655, ele e Jacob Sasportas viajaram para analisar – com Cromwell – a futura autorização de reentrada de judeus na Inglaterra e, embora a missão não tenha sido um sucesso imediato, os judeus começaram pouco depois a afluir ao país sem problemas.

“A Ets Haim-Livraria-Montezinos impressiona. Não pela grandiosidade das instalações (dois pisos ligados por uma escada em carvalho) mas pelo peso da história que ali se respira. O seu valor incalculável reside na quantidade de obras raras, ou únicas, que abrangem todos os aspectos da gesta judaica, alargadas ainda a uma imensa documentação sobre a cultura asquenazi, na sua maior parte em idixe. Aliás, diga-se que cerca de 75% das obras ali existentes está escrita em hebraico e que quase 45% foi publicada antes de 1800 (Maria Fernanda Matias).”

DO TURBULENTO SÉCULO XX ATÉ HOJE.

Quando os Nazistas invadiram a Holanda, em 1940, eles assassinaram 75% dos Judeus locais, mas deixaram a Sinagoga Portuguesa adjacente à biblioteca intacta e roubaram a coleção de livros que existia na biblioteca Est Haim. Os Nazistas enviaram esses livros para a Alemanha. Após a guerra, a coleção de livros foi descoberta e retornou para Amsterdã. Contudo, os livros demoraram à voltar para casa, pois os curadores da biblioteca determinaram que ela precisaria passar por renovações antes de receber a coleção. Em 1979, a coleção de livros foram enviados para Israel e, após muitas renovações, o prédio da biblioteca Est Haim recebeu seus livros novamente nos anos 2000.

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Sinagoga Portuguesa Adjacente à biblioteca, em Amsterdã / Fonte: <http://etshaimmanuscripts.nl/about/&gt;

Em 2014, a Biblioteca Nacional de Israel se tornou parceira da biblioteca Est Haim para digitalizar todos os catálogo da mesma. Isso tornou todo o material presente nessa incrível biblioteca disponível para pessoas do mundo inteiro.

“Como muitos sobreviventes do Holocausto fizeram durante as suas vidas, os livros da Ets Haim demonstraram uma incrível capacidade de enganar a morte (…). Mas, nós precisamos fazer a nossa parte para garantir que esta extraordinária biblioteca Judaica seja preservada para os próximos séculos”, disse Aviad Stollman, Chefe das Coleções da Biblioteca Nacional de Israel, ao Times Of Israel.

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Biblioteca Ets Haim, Amsterdã / Fonte: <http://etshaimmanuscripts.nl/&gt;

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