Toulouse-Lautrec: entre os bordéis, o tédio e as convenções.

Durante a minha recente viagem à São Paulo, eu fiz o meu tradicional passeio no Museu de Artes de São Paulo. Encontrei uma exposição denominada “Toulouse-Lautrec, Em Vermelho [IN RED]”. Eu fiquei fascinada com os cartazes desse pintor, seus interesses nada convencionais e o modo como ele olhava para as mulheres do seu mundo. Além disso, eu também visitei a exposição do acervo permanente do Museu, acervo este que guarda uma das minhas obras favoritas. Primeiramente, gostaria de contar um pouco sobre a história da vida e da obra do pinto Henri Toulouse-Lautrec (com direito a fotos das minhas pinturas favoritas) e, em um segundo momento, gostaria de mostrar para você a minha obra favorita do acervo permanente do MASP.

 

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Imagem do salão no qual se encontra a exposição permanente do MASP /  Foto de Nina Avigayil Lobato, 2017.

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MASP – Exposição “Toulouse-Lautec: Em Vermelho [IN RED] / Foto de Nina Avigayil Lobato, 2017.

Quem foi o pintor Toulouse-Lautrec?

A arte de Henri Toulouse-Lautrec tem origem no seu extraordinário talento para o desenho. O seu talento tinha forte influência familiar, seu pai era o conde Alphonse Charles de Toulouse-Lautrec-Manfa (1838-1913) e seu era o conde Odon de Toulouse-Lautrec-Manfa, ambos eram bons desenhistas e encorajavam o desenvolvimento dos talentos de Henri.

“Desde cedo, [o rapaz] desenhou com uma presteza e uma energia que contrastavam com a fragilidade de seu corpo, manifestando disposição para improvisar com o lápis e o pincel a partir da imediata observação da realidade. Ele buscava sobretudo representar os aspectos das figuras, evidenciando as reações instantâneas, vitais e involuntárias dos homens e dos animais . (…) O jovem artista desenvolveu um traço semelhante ao dos grandes caricaturistas, marcado pelo humor e capaz de traduzir o caráter de um personagem apenas ao destacar de forma simplificada seus atributos fisionômicos e sua pose espontânea (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

 

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Henri Toulouse-Lautrec

 

“A partir de 1882, as experiências em Paris com Léon Bonnat (1833-1922) e Fernand Cormon (1845-1924) disciplinaram o método de trabalho de Lautrec e aguçaram a sua inteligência compositiva. Bonnat, personagem de grande destaque no meio acadêmico, definiu como “atroz” a maneira de desenhar do aluno e tentou aprimorar o seu “insuficiente” esmero formal. Mas o severo mestre fechou o seu ateliê particular poucos meses depois, e [os jovens aprendizes de Bonnat decidiram para a] escola de Cormon, bem-sucedido pintor de temas históricos, e mais disposto a valorizar as inclinações naturais dos alunos. Contudo, pouco tempo depois, Lautrec já demonstrava seu caráter inconformado em relação ao sistema de ensino e ao meio artístico oficial. (…) Ele havia se destacado também como um inovador na pintura religiosa, ao retratar as histórias da vida de Santa Genoveva no Pantão (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

“No ateliê de Cormon, Lautrec conheceu Vicent van Gogh (1853-1890), que retratou em 1887 numa maravilhosa pintura de giz colorido, hoje no Van Gogh Museum de Amsterdã.  (…) A homenagem documenta a amizade e as afinidades entre as poéticas e as afinidades entre as poéticas e as personalidades dos dois artistas. Ambos, inconformados com as convenções sociais e artísticas, estudaram a cor dos impressionistas e a gráfica oriental; eles ultrapassaram a concepção puramente óptica da pintura em nome de um prepotente desejo de representar a realidade humana e social, unindo a vida com a arte. O retrato de Van Gogh é uma das primeiras grandes figuras de “rejeitados” e boêmios que formariam a galeria dos anti-heróis modernos do pintor de Albi (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

Pintores, escritores e intelectuais boêmios e inconformados. Lautrec teria sido mais um clichê, se não fosse realmente um excelente artista. Ao contrário de vários outros da sua época, ele não deixou o grande centro urbano de Paris para se refugir no campo.

Por que?

“A observação direta da realidade metropolitana e o desenho a partir do vivo sempre haviam sido a base principal da sua inspiração. Seu desencanto aristocrático e irônico alimentava-se da verdade das relações humanas, mais evidente onde os limites impostos pelos papéis sociais se atenuam. (…) [Lautrec] encontraria a beleza na multidão sem história, dos locais noturnos, que só vive à noite, perseguindo os seus desejos ocultos numa espécie de confusão de apatia, na qual se misturam a indiferença e a cobiça. Os personagens de Toulouse-Lautrec têm algo de vampiresco. São puras imagens que necessitam do olhar de seus semelhantes para existir e não sobrevivem à luz do dia (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

 

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Quadro “Femme au boa noir” (“Mulher com echarpe preta”, em português). Do que se trata?  “Esta personagem da noite, com seu rosto branco de pós de arroz e grandes olhos amendoados e penetrantes, fita o espectador de maneira confiante. Ela esboça um sorriso irânico e desafiador, e não permite que a olhem como um objeto. No século XIX, as mulheres que usavam maquiagem não eram bem-vistas, muito menos aquelas que desejam levar uma vida independente. Infelizmente, o nome e a identidade dessa mulher se perderam, algo que acontece com frequência em retratos femininos de Toulouse-Lautrec, ao contrário dos retratos que ele fez de seus amigos homens (MASP).” / Comentário pessoal: essa foi uma das pinturas que mais me fascinou / Foto de Nina Avigayil Lobato.

 

“Contudo, ser apenas um cronista de seu tempo não era suficiente, Lautrec queria representar com a pintura a nova beleza artificial surgida das condições de vida produzidas pela técnica na grande metrópole. Um belo que é, sobretudo, efêmero, convulsivo e transitório. Trata-se de uma impressão fugida vislumbrada por um instante no meio da multidão, um gesto ou um olhar percebido num café sob a luz artificial das lâmpadas elétricas (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

As modelos preferidas de Lautrec eram personagens da noite e do submundo da sociedade respeitável. Ele desenhava prostitutas, personagens do mundo do espetáculo, aventureiros, boêmios e etc. Apesar dos quadros dele parecerem muito com rascunhos e obras inacabadas, essa não era a realidade. Lautrec carregava consigo um bloco de desenhos para registrar o que via e achava interessante, contudo esses registros só se transformavam em quadros após um longo e cuidadoso estudo.

“As práticas de Lautrec eram o oposto do voyeurismo e do prazer escopofílico. Ele não era reservado e nem discreto em relação à sua preferência por bordéis, que discutia abertamente com os seus amigos homens, chegando até mesmo a convencer alguns deles a acompanhá-los em períodos de residência no bordel. (…) A obra de Lautrec não retrata as profissionais dos bordéis através de um discurso de desejo heterossexual. As mulheres não são bonitas, jovens ou sedutoras. Muitas vezes, já são bem mais velhas, visivelmente desiludidas e destituídas de toda a pretensão ou dissimulação como resultado de suas experiências degradantes no mercado de exploração sexual (ISKIN, Ruth, 2017).”

“Lautrec era discreto e altamente seletivo ao mostrar as suas obras polêmicas. Na exposição de 1896 na galeria de Manzi-Joyant, apresentou algumas de suas obras sobre o bordel em uma sala separada e trancada, cuja chave ele mesmo guardava, e onde deixava entrar apenas os seus amigos homens mais íntimos, recusando-se a mostrar ou vender suas obras para marchands. No entanto, embora os seus amigos íntimos fossem o público privilegiados de suas obras, vale considerar que as mulheres com quem Lautrec mantinha amizade no bordel, que posavam para ele lá e em seu ateliê, era na verdade as primeiras expectadoras de suas obras. (…) A forma pela qual os espectadores reagiam à obra de Lautrec dependia de sua classe social [para alguns ele carecia de refinamento, enquanto que, para outros, ele era considerado orginal] (ISKIN, Ruth, 2017).”

“Em suas melhores obras, Lautrec foi um mestre em exprimir complexos conteúdos humanos com poucos traços essenciais. Para tanto, como em todos os grandes artistas, a sua técnica era intrinsecamente ligada às suas intenções expressivas (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

 

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Quadro “A condessa Adèle de Toulouse-Lautrec” / Do que se trata? “Por volta de seus 17 anos, Toulouse-Lautrec fez este retrato de sua mãe. A condessa Adèle está sentada num banco de jardim, com uma pose respeitosa e contida, como convinha à tradição de retratos das altas classes sociais. Sua roupa, de estampa florida e com babados, sugere uma  relação de proximidade com o jardim. Talvez seja uma metáfora daquilo que se esperava de uma mulher do século XIX: que se vestisse com delicadeza e sem artifícios, e que fosse bela e discreta, obediente ao marido e dedicada à família. Na pintura ocidental, a presença do jardim não é simplesmente decorativa, mas carregada de significados: em muitos retratos da virgem Maria, há um pequeno “jardim fechado”, símbolo da pureza (MASP).” / Comentário pessoal: esse retrato me fascinou / Foto de Nina Avigayil Lobato.

 

“Como é sabido, em 1899, Lautrec foi internado na clínica psiquiátrica Saint James (…). Na imprensa circularam artigos sobre sua suposta loucura. (…) Para ter alta do hospício, a pedido da mãe, o pintor foi confiado aos cuidados de um tutor, (…) Paul Viaud, amigo da família e parente longínquo, que devia evitar que Lautrec voltasse a beber. Contudo, ninguém da família e nenhum dos seus amigos parecia se iludir com a eficácia da medida no longo prazo. (…) Nas telas realizadas nos últimos meses de vida, a técnica de Lautrec parece passar por uma mudança, possivelmente devido ao rápido declínio da saúde do artista. Em lugar dos personagens da noite e da boêmia, aparecem os amigos “sensatos” e a modista Louise Blauet, ocupada em seu trabalho no ateliê. (…) Para concluir, pode-se dizer que Lautrec conseguiu inventar uma nova pintura histórica, feita não mais de heróis, mas de prostitutas, boêmios e artistas marginalizados, os excluídos pela sociedade da Belle Époque, seduzida pelo sucesso material. Entre eles está o próprio pintor. Rejeitado pelo pai, que ele admirava, por causa de sua “deformidade”, encontrou na arte um meio de participar de um mundo que não era seu, mas que ele escolheu para si. Assim, inspirou-se nos novos comportamentos sociais [marcadamente no lesbianismo e na vida das prostitutas] que surgiam na grande metrópole moderna e, (…) percebeu a sua estranha e efêmera beleza (MIGLIACCIO, Luciano, 2017).”

 

Qual é a minha obra favorita no acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo?

 

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Estátua da deusa Higeia – Grécia – Período helenístico, século a.C. – Acervo do MASP/ Do que se trata? “A Estátua da deusa Higeia (século 4 a.C) é parte da coleção de arqueologia do MASP. Esta peça, contudo, já era parte do acervo desde 1950. A coleção contempla diferentes culturas do mediterrâneo e obras do período entre a Antiguidade egípcia e a civilização helenística e romana. Segundo a mitologia greco-romana, Higeia era uma das filhas de Asclépio, deusa da cura e da medicina. Seu nome tem a mesma raiz das palavras gregas correspondentes a “higiene” e “saúde”. Os romanos traduziram o seu nome para Salus, resgatando o culto à deusa e dedicando-lhe vários templos. Higeia é associada, sobretudo, à prevenção de doenças. Por isso, seus símbolos (a serpente e a taça) foram apropriados pelas ciências farmacêuticas. A deusa foi representada vestida com uma túnica, o corpo envolvido por uma serpente que bebe diretamente de sua taça. Em muitas culturas da região do Mediterrâneo, a serpente simbolizava a sabedoria e vida eterna. Na obra do MASP, feita em mármore, Higeia carrega o deus Eros, ou Cupido, no braço esquerdo, segurando na mão uma tigela; a serpente envolve o seu braço direito. A deusa não possuía atributos bem definidos na mitologia e foi representada em alguns casos, como este, em companhia de Eros à semelhança de Vênus/Afrodite (MASP).”  / Foto por Nina Avigayil Lobato.
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Estatua da Deusa Higeia – Grécia – Período helenístico, século 4 a.C. – Acervo do MASP/ Foto por Nina Avigayil Lobato.

 

Eu sou fascinada pela Estatua da deusa Higeia, porque ela é do século 4 a.C. (calendário gregoriano), ou seja, essa estatua que aparece na foto acima tem mais de dois mil anos. Ela já estava aí vendo as ações humanas há séculos, ela viu impérios caírem e impérios surgirem, reis serem coroados e reis perderem as sua cabeças, ela viu guerras e viu paz, e, hoje, eu posso olhar para ela bem de perto. Quando olho para essa pedra esculpida na forma de uma deusa que eu não inspira em mim nenhuma devoção religiosa e que já foi esquecida pela maioria das pessoas – mas que eu sei que significou algo para povos do passado -, eu vejo todas as marcas que a história deixou nessa pedra belamente esculpidas e ouso imaginar tudo o que aconteceu na história humana nos últimos dois mil anos. É como se a montanha da história simplesmente aparecesse na minha frente.

Sinto-me pequena.

Eu percebo que tudo o que eu sou, todos os meus sonhos, todas as palavras que já escrevi, todos os meus planos, são apenas uma segundo na história. E que eu estou caminhando sobre a terra, os meus filhos vão caminhar sobre a terra, os meus netos também, e os meus descendentes ainda vão poder olhar para essa escultura onde quer que ela esteja e presenciar um pedacinho da história profunda – da qual somos todos produtos e da qual não podemos escapar.

 

É por isso que eu gosto de museus…

Eu faço uma lista de museus que eu gostaria de visitar sempre que eu viajo para outro Estado ou País. Infelizmente, existem alguns museus que eu só conseguiria conhecer todas as obras expostas se eu passasse uma semana visitando cada pedacinho destes maravilhosos prédios que guardam parte da alma coletiva humana.

 

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MASP – Exposição Toulouse-Lautrec: Em Vermelho [IN RED] – 2017 / Foto de Nina Avigayil Lobato.
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MASP – Exposição Toulouse-Lautrec: Em Vermelho [IN RED] – 2017 / Foto de Nina Avigayil Lobato.
 

Eu gosto de caminhar pelos grandes vãos dos museus e olhar não apenas os detalhes de cada obra, mas as pessoas que caminham pelos mesmos corredores que eu. O que elas veem? O que me fascina? Quem era este pintor? Qual a história de cada obra? Como esta ou aquela obra fazem com que eu me sinta? Essas são as perguntas que passam pela minha mente. Cada museu é único e merece a atenção do viajante que espera carregar uma bagagem extra de emoções na mochila.

 

 


 

Utilizei como fonte o livro “Toulouse-Lautrec Em Vermelho [IN RED]”, disponível para compra na loja do MASP e que possui artigos de vários autores, entre eles, os que usei nas citações (Luciano Migliaccio e Ruth E. Iskin).

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