[TRADUÇÃO] Como é ser um moderno solitário homem de fé?

Segue, abaixo, a tradução de um artigo originalmente publicado pela revista Americana, The Jewish Daily Forward, pelo Rabino Dr. Shmuly Yanklowitz. O título do artigo original era “What It’s Like To Be A Modern Lonely Man Of Faith”

 

Quem é o Rabino Dr. Shumly Yanklowitz?

 
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Rabino Dr. Shumly Yanklowitz.

O Rabino Dr. Shumly Yanklowitz foi estudante da Universidade do Texas, fez Mestrado em Liderança e Psicologia pela Universidade de Harvard e fez Doutorado em Desenvolvimento Moral e Espistemiologia pela Universidade de Columbia. Ele também é presidente e reitor do Valley Beit Midrash, é fundador e presidente do Uri L’Tzedek, e fundador e CEO do Instituto Shamayim V’Aretz.

Este Rabino foi ordenado Rabino pela Yeshiva Chovevei Torah e é autor de vários livros e artigos publicados numa variedade de revistas e jornais. Entre suas obras de destaque, temos: “The Soul of Jewish Social Justice” e “Spiritual Courage”. A revista Jewish Newsweek classificou o Rabino Dr. Yanklowitz como um dos 50 Rabinos mais influentes da América e, a revista The Jewish Daily Forward, o classificou como um dos 50 Judeus mais influentes.


 

Como é ser um moderno solitário homem de fé?

 
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Fonte: The Jewish Daily Forward / Link: <http://forward.com/scribe/374690/what-its-like-to-be-a-modern-lonely-man-of-faith/&gt;

“E encontrou-o um homem, e eis que estava perdido no campo, e perguntou-lhe o homem dizendo: o que buscas? (Genesis 37:15)”

Eu olho para fora do meu siddur (livro de orações): são esses os meus irmãos? Eu olho ao redor em um protesto por justiça e paz: são esses os meus irmãos? Dou um passo em um território espiritual desconhecido: onde estão os meus irmãos?

Esse sentimento existencial faz com que eu me sinta um tanto vulnerável. É até um pouco embaraçoso compartilhar isso, mas eu tenho que admitir, nesse período da minha vida, eu me sinto religiosamente solitário. Eu me encontro entre aqueles com quem eu compartilho um conjunto de valores éticos modernos em comum, mas com quem eu não compartilho valores de cunho religioso. Eu me encontro entre aqueles com quem eu compartilho práticas e compromissos religiosos em comum, mas com quem eu não compartilho um conjunto de valores éticos modernos.

Muitas vezes eu me encontro entre aqueles com quem eu compartilho os meus compromissos teológicos, mas nãos os meus compromissos sociais, e vice-versa. É estranho – até mesmo irônico – que, embora eu tenha como objetivo profissional a construção e o fortalecimento das comunidades Judaicas -, eu ainda não tenha encontrado uma comunidade para chamar de minha.

Eu sou lembrado da dramática carta de demissão escrita pelo Rabino David Weiss Halivni, quando o mesmo deixou o JTS (Jewish Theological Seminary) em 1983.

“É a minha tragédia pessoal que eu não consiga rezar com aqueles com quem eu consigo conversar, e que que não consiga conversar com aqueles com quem eu consigo rezar”, escreveu o Rabino Weiss em sua carta.

Eu simplesmente não consigo conceber um mundo, ou um momento, desprovido do divino. Eu não consigo entender um momento que não esteja relacionado à transcendental voz da Torah. No entento, eu não consigo imaginar esta Torah como outra coisa que não seja um veículo de interconectividade humana, pluralismo epistêmico, progresso social, e engajamento social.

Antes eu costumava encontrar refúgio nos grandes pensadores Ortodoxos modernos – aos quais eu sou muito grato. Agora, eu considero as suas abordagens limitadas às épocas nas quais foram escritas. O Rabino Hirsch nos ofereceu TORAH IM DERECH ERETZ, sugerindo que nós simplesmente poderíamos ser cidadãos Judeus e cidadãos de uma cultura moderna. O Rabino Kook sugeriu que nós simplesmente poderíamos santificar o mundo material. O Professor Yeshayahu Leibowitz – no polo oposto do Rabino Kook – argumentou pela compartimentalização; situação na qual a vida religiosa não tem absolutamente nada haver com a realidade moderna, apesar disso, deveríamos participar das duas de forma apaixonada – ainda que separadamente. O Rabino Soloveitchik argumentou que havia compartimentalização (similar ao Professor Leibowitz) mas que, no estágio seguinte da dialética, havia harmonia (similar ao Rabino Kook). O Rabino Shagar corretamente aponta que, na pós-modernidade, “nenhum deles ainda permanece relevante. De fato, Ortodoxia e modernidade não são duas entidades que vão ser reconciliadas. Ao contrário, a Ortodoxia pode ser percebida como um reflexo da modernidade, onde a primeira esta irremediavelmente embrulhada na última (Faith Shattered and Restored, 43)”.

Eu não estou sozinho nesta experiência fenomenológica. Eu sou lembrado, por exemplo, da vida de um dos maiores Rabinos do século XX, o Rabino Yechiel Yaakov Weinberg (conhecido como Sredei Aish). Após a Segunda Guerra Mundial e da sua libertação de um Campo de Prisioneiros de Guerra da Alemanha, o Rabino Weinberg se mudou para Montreux, na Suiça, ao invés de se mudar para Israel. Em uma carta, ele explicou a sua decisão:

“Eu tenho medo de ir para Eretz Yisrael. Existem diferentes mundos lá, esses mundos rejeitam e odeiam uns aos outros. Eu sou parte de dois mundos, e qual dos dois eu devo escolher quando eu for para lá. No fim, eu vou ter que continuar na solidão. Portanto, é melhor para mim que eu fique só, em um deserto vazio, do que em uma barulhenta e estridente atmosfera (Rabino Yaakov Weinberg, “Between The Yeshiva World and Modern Orthodoxy, 170, N16).”

A decisão dele (que, certamente, foi um produto das experiências de significativo horror durante o Shoah e dos desafios de adaptação à vida civil após a guerra) foi a de evitar escolher uma comunidade real. A escolha dele foi a de se recolher no isolamento em decorrência de um sentimento de alienação em relação aos caprichos do mundo; ele sofreu muita dor de cabeça para ainda engolir mais conflitos. No meu caso, pelo menos nesse momento da minha vida, eu prefiro manter um pé em cada campo e abraçar o desconforto de que abandonar tudo.

Ainda sim, eu encontro algum consolo nos ensinamentos do Rabino Soloveitchik. Este último argumentou que existe um mérito na solidão religiosa:

“Por que foi necessário criar o homem solitário?… A originalidade e a criatividade do homem de a sua raiz na experiência de solidão dele, não em sua consciência social. O homem social é superficial: ele copia, ele imita. O homem solitário é profundo: ele cria, ele é original (Rabino Soloveitchik, “The Community, in Tradition”, Vol 2, N2, 7-25).”

Então, apesar de ser difícil admitir, talvez existam alguns benefícios espirituais e intelectuais em ser um “homem solitário”. No tempo fora de uma dada comunidade, existe a oportunidade de um crescimento espiritual interior. Toda nova experiência longe de uma função comunitária só fortalece a determinação de alcançar [os objetivos] de outras maneiras.

No entanto, não se deve tornar a solidão espiritual algo auto-indulgente ou auto-engrandecida. Eu sou lembrado que D’us instruiu, logo no início da Torah, que não é bom para uma pessoa estar só (Gênesis 2:18). Contudo, são nesses momentos nos quais eu sinto os maiores obstáculos da minha solidão religiosa, que eu reconheço que o meu condutor direto à D’us está mais forte. Este sentimento é tanto um conforto quanto uma vocação. Um compromisso de que, apesar das dificuldades de encontrar uma comunidade religiosa que funcione melhor para mim, ainda existem faíscas de elevação encontradas nos locais mais inesperados.

Talvez o Rabino Shagar tenha acertado quando escreveu: “sob a luz do multiculturalismo que caracteriza a condição pós-moderna, eu não sinto mais a necessidade de me justificar para o outro, ou, inversamente, reconhecê-lo em mim – isso é verdade tanto para o outro Judeu quanto para o outro não-Judeu (“Faith Shattered and Restores”, 44).” Eu suspeito que eu não estou sozinho no meu compromisso com o engajamento apesar desses obstáculos espirituais. Algumas vezes, nós podemos sentar com outros no nosso engajamento religioso e nos sentir profundamente sozinhos, e chamar essa experiência em si de religiosa.


 

Meu comentário sobre o texto.

Um dos capítulos do livro “The Soul of Jewish Social Justice” era a respeito da sensação que muitos Judeus de que, na comunidade Judaica Ortodoxa, não existia muito espaço para preocupações com causas não-Judaicas e que, na comunidade Judaica Reformista/Conservadores, existia espaço para o engajamento em tais causas, mas não se dava a mesma importância ou se vivia o Judaísmo da mesma forma que a comunidade Ortodoxa. Tal sensação provoca a seguinte pergunta na mente daqueles Judeus que ainda não encontraram o seu caminho no diverso mundo Judaico: será impossível ter um alto grau de envolvimento com o mundo não-Judaico moderno que nos cerca e, ainda sim, viver como um Judeu Ortodoxo observante?

Naturalmente, esse tipo de pergunta é bem mais comum no meio ortodoxo Ashkenazi. Eu me lembro de estar sentada no salão da Midrasha, em Israel, e me fazer essa pergunta. Contudo, à meu ver, este tipo de pergunta surge de um entendimento superficial das duas comunidades, ou é um dilema que tem origem no fato do indivíduo viver em um universo Judaico marcado pela divisão Judeus Ultra-ortodoxo/Judeus liberais, ou seja, sem mundos religiosos entre esses dois extremos. Hoje, esse dilema já não me causa tanta aflição, pois encontrei comunidades religiosas (Sefarditas e Ortodoxas Modernas Ashkenazi) nas quais eu posso me engajar na cultura moderna e viver um modo de vida religioso que eu considero o mais fiel às tradições Judaicas.

Eu gostei muito do texto do Rabino Dr. Yanklowitz pela clareza com que ele aborda este dilema, pelas fontes que ele cita e pela coragem sobre um tema tão sensível abertamente. Contudo, eu sinto inveja dele por ter conseguido colocar em palavras algo que, para mim, sempre foi como uma sensação de difícil formulação verbal. Por isso, eu gostei de traduzir esse material para o português. É como se você tivesse a sensação de usar a mesma caneta que o autor usou para escrever o texto original.

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