[LIVRO] “Identidades Judaicas no Brasil Contemporâneo”, organizado por Bila Sorj.

 

O livro “Identidades Judaicas no Brasil Contemporâneo”, organizado por Bila Sorj, reúne seis artigos sobre a identidade Judaica brasileira que abordam diferentes assuntos vinculados à comunidade Judaica do Brasil. Apesar de estar inserida nesta comunidade, eu confesso que tenho mais familiaridade nas produções culturais e com os dilemas da comunidade Judaica dos EUA, por isso esse livro foi interessante para mim. Eu consegui ter algumas das minhas perguntas que sobre a comunidade Judaica Brasileira respondidas.

O primeiro artigo, “Sociabilidade Brasileira e Identidade Judaica”, escrito por Bernardo Sorj, respondeu à seguinte pergunta: por que não existem escritores Judeus como o Philip Roth no Brasil? Ou seja, por que não existe uma cultura Judaica brasileira como existe uma cultura Judaica Americana?

“O Brasil, para o imigrante Judeus vindo de regiões onde foi permanentemente discriminado e perseguido, teve muitas características de terra prometida. Ele se integrou na cultura nacional, passando a compor, na sua maioria, as classes médias, que se identificam e valorizam o fato de serem brasileiras. A sua rápida absorção na sociedade teve, como contrapartida, a constante erosão das fronteiras diferenciadoras e das tradições próprias. Uma sociedade que valoriza a sociabilidade gregária em torno de valores de convivência, que valoriza o lúdico no lugar do discursivo, ou o artístico no lugar da reflexão conceitual, é particularmente não condutiva para a constituição, na modernidade, de identidades étnicas diferenciadas.

A identidade Judaica moderna, que se constituiu em cima de um esforço auto-reflexivo e como resposta ao anti-semitismo, não encontrou no Brasil condições propícias para o seu desenvolvimento. (…) Numa sociedade em que a “privacidade” não é um valor consolidado, não há espaço para o desenvolvimento de uma consciência individual diferenciada – e angustiada -, e nem para a procura de raízes individuais. (…) O Judaísmo brasileiro, do ponto de vista da criação e cristalização de expressões culturais próprias, instituições e reflexão intelectual, é de uma pobreza atroz. O Judaísmo brasileiro, apesar de seu número limitado, teria um potencial de produzir formas revolucionárias de recuperação da mitologia e tradições judaicas dentro de um espírito de diálogo, confraternização e falta de antissemitismo. Este potencial, porém, dificilmente se realizará. Para isto convergem várias forças limitadoras e a sociedade brasileira como força integradora.

(…) A frágil comunidade Judaica brasileira fica totalmente exposta à colonização pelas tendências ideológicas e institucionais provenientes de Israel e dos Estados Unidos.

A confirmação desta hipótese pode ser verificada, inversamente  pelo fato de a comunidade do Rio Grande do Sul, embora muito menor que a do Rio de Janeiro e a de São Paulo (…) apresentar o único caso de uma fundação cultural com um certo dinamismo (é a terra de origem do único romancista com uma obra literária com temas Judaicos, Moacir Scliar). Isto porque o Rio Grande do Sul tem uma composição étnica predominantemente europeia, com forte tradição localista, que cultua as tradições do passado “gaúcho”, valorizando a reflexividade étnica e é onde o antissemitismo parece ser mais presente.”

No artigo “Judeus na Amazônia”, escrito por Eva Alterman Blay, é possível ler sobre a história de formação e as características das comunidades Judaicas que vivem na região Amazônica, incluindo sobre àqueles Judeus que vivem na cidade de Belém do Pará. O artigo “Conversões e Casamentos “Mistos”: a Produção de “Novos Judeus” no Brasil”, escrito por Bila Sorj, foi particularmente fascinante.

É comum se ler artigos e pesquisas demográficas sobre como conversões e casamentos mistos afetam a comunidade Judaica dos Estados Unidos, mas quase não leio nada sobre isso no contexto da comunidade Judaica Brasileira. Eu considero isso muito ruim, pois não temos dados ou análises para entender melhor como esses “novos Judeus” modificam a realidade das nossas comunidades, ou seja, sem essas informações (sem um “Pew Research da vida”), é fácil criar suposições extremamente negativas sobre convertidos e casamentos mistos, ou mesmo suposições erradas sobre a melhor forma de lidar com os desafios provocados pela assimilação. É importante ressaltar que Bila Sorj escreveu esse artigo com base nos dados da ARI (Associação Religiosa Israelita), que é uma comunidade que pertence ao movimento reformista Judaico do Rio de Janeiro, ou seja, apesar dos dados serem fascinantes, eles não mostram a realidade maior da comunidade Judaica brasileira, especialmente o universo que existe dentro das sinagogas do movimento Ortodoxo Judaico.

Seguem abaixo alguns dos dados trazidos, no artigo, por Bila Sorj sobre convertidos e casamentos mistos:

“Embora não haja séries históricas que permitam observar a evolução de casamentos “mistos” de Judeus no Brasil, é correto supor que este cresceu na geração dos filhos e netos de imigrantes. Estima-se que atualmente 20% dos Judeus casam-se com parceiros convertidos e os restantes 80% se distribuem igualmente entre casamentos com não-judeus e casamentos endogâmica [segundo a autora, esta estimativa foi obtida através de entrevistas com lideranças Judaicas].

A porcentagem de casamentos “mistos” com conversão sobre o total de casamentos celebrados pela ARI é bastante regular, em torno de 21% durante os últimos trinta anos. Entre 82 e 90, a menor e maior porcentagem foram de 13% a 32% respectivamente.

A composição sexual dos convertidos é fortemente marcada. As mulheres perfazem 79% dos casos de tal forma que podemos afirmar que a ampliação do contingente Judaico é concomitante a sua feminização. Levando-se em conta o fato de que a descendência Judaica é transmitida matrilinearmente, que o processo de conversão é mais fácil para o sexo feminino, pois não envolve a circuncisão, e também a tendência patriarcal da sociedade brasileira, é mais provável que mulheres se submetam ao ritual de conversão acompanhando assim a religião dos maridos.

(…)

Os efeitos da exogamia dos casamentos podem ser observados na idade mais tardia em que estes se consumam quando comparada à idade dos casamentos homogâmicos: a média de idade dos casamentos entre judeus é de 28 anos para os homens e 25 para as mulheres, enquanto que para os casamentos entre Judeus e convertidos é de 30 anos para os homens e 27 anos para as mulheres. A idade avançada entre esses últimos nos leva a pensar em duas possibilidades: ou os casamentos mistos são uma consequência da prévia desvalorização dos indivíduos nos mercados matrimoniais de referência, com reflexo na idade, ou, ao contrário, a natureza mista do casal é que retarda a idade do casamento. Esta última parece mais provável.

(…)

A autora continua analisando o perfil socio-econômico dos convertidos da ARI e as mais comuns justificativas pelas quais as pessoas escolhem se submeter ao processo de conversão. É realmente interessante, contudo eu gostaria de ver uma análise semelhante a partir dos dados adquiridos em comunidades ortodoxas.

Os últimos três artigos que compõem o livro são: “”Normalizando” o Povo Judeu: A Experiência da Jewish Colonization Assiociation no Brasil” (escrito por Bila Sorj), “Diáspora Minimalista: A Crise do Judaísmo Moderno no Contexto Brasileiro” (escrito por Monica Grin) e “Intelectuais na Comunidade Judaica Brasileira” (escrito por Roberto Grin).

Sobre o artigo escrito por Monica Grin, destaco:

“A homogeneização sociocultural dos Judeus promovida pelo processo de crescente assimilação à sociedade brasileira e aos seus valores, as dificuldades de organização da esquerda Judaica, em contexto adverso à organização de grupos de esquerda em geral, a sionificação dos interesses políticos da comunidade Judaica, a perda crescente da cultura íidiche em cenário societário adverso a diferenciações de natureza étnica, tal como o brasileiro contribuíram claramente para a crise do Judaísmo moderno no Brasil.”

 Sobre o artigo escrito por Roberto Grin, destaco:

“(…) Quando entrevistamos membros da comunidade, mesmo distantes da vida intelectual, sempre aparece uma visão do  “povo Judeu como um povo de sábios e intelectuais”, de extrema funcionalidade, se pensarmos na necessidade de lidar com o eterno problema do antissemitismo. É claro que essa auto-identificação não tem correspondência direta com as “condições de vida objetivas” da etnia no Brasil, mas ela pressiona os seus membros, abrindo espaços simbólicos importantes nas estratégias de reprodução social do grupo. (…) O resultado agregado da existência dessa possibilidade é a formação de grupos significativos de intelectuais leigos Judeus, os quais, por sua vez, acabaram por se tornar um trunfo tão mais importante quanto pouco conhecido da comunidade Judaica do Brasil.”

Se você tiver interessando em conhecer um pouco mais sobre o universo da comunidade Judaica do Brasil, esse livro é uma opção acessível e inteligente, pois é fácil de ler, apresenta dados interessantes e não custa caro (eu comprei ele na Editora e Livraria Sêfer, em São Paulo, por R$30,00 reais). Apesar de ser um texto acadêmico, eu achei esse livro muito interessante, tanto pela variedade de assuntos que aborda dentro do tema “identidade Judaica contemporânea”, quanto pelo fato de que esse livro apresenta alguns trechos (como os que eu destaquei) que são “food for thought“.

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Livro: “Identidades Judaicas no Brasil Contemporâneo”, organizado por Bila Sorj / Foto de Nina Avigayil Lobato.

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