Jejum de Tishá b’Av: será que aprendemos mesmo?

Acabou.

 
Hoje foi um dia pesado, triste, angustiante, seco e revoltante. Eu fico aliviada por ele ter chegado ao fim. Neste dia sem sabores eu, assim como outros, lembrei da destruição do Templo espiritual em decorrência do ódio gratuito, da consequente destruição dos templos fisicamente e das dores do exílio (Tisha B’av).
Enquanto alguns sonham em reconstruir o templo, fazem planos arquitetônicos e políticos, misturando de forma intoxicante nacionalismo e religião, eu pensei muito sobre o ódio gratuito (sinat chinam). Ter raiva de alguém porque você brigou com a pessoa ou porque ela te fez mal é normal, mas ódio é diferente. Ódio é visceral, é silencioso, é algo que tira um pouco da sua humanidade, e te cega para a beleza de tudo o que foi criado por D’us. É tremendamente cansativo odiar.
Eu estava pensando sobre esse ódio gratuito. A desumanidade do ódio gratuito. O ódio contra o diferente, seja ele muçulmano, cristão, um Judeu reformista, um homossexual, um convertido ao Judaísmo ou simplesmente alguém com quem você discorda. A sujeira do ódio. Esta sujeira que tem a sua fonte na ignorância cultural, intelectual e espiritual.
O ódio e a ignorância são dois irmãos. Um alimenta o outro. Ambos penetram o coração humano e transformam o nosso pulsante sangue vermelho em uma lama fedorenta.
Os tijolos do segundo templo queimaram porque o ódio já havia consumido o templo espiritual que havia dentro de nós. Nós perdemos a nossa humanidade e nos tornamos animais raivosos – algo que hoje é comum nas redes sociais. Então, pelo menos segundo a tradição Judaica, nós perdemos qualquer contato com D’us. Restaram apenas tijolos vazios de significado e os Romanos destruíram esses tijolos.
Depois de todo o sofrimento na diáspora, aprendemos sobre o ódio gratuito, sobre os perigos desse ódio, sobre dor e sobre não causar dor em outros. Mas eu não consigo deixar de me perguntar, será que aprendemos mesmo? Será que aprendemos sobre o tipo de ódio que levou à destruição do segundo Templo? Porque, em um jantar social em Manhattan, ouvi um sofisticado rapaz se perguntar, “mas, falando sério, vocês acham que eles (os Etíopes que emigraram para Israel) são realmente Judeus?”.
Será que aprendemos mesmo? Porque eu li nos jornais que um homem religioso, que se vestia de preto, usava chapéu e havia estudado numa Yeshiva em Jerusalém, esfaqueou uma mulher na parada gay em Jerusalém. Será que aprendemos mesmo? Porque vi, em vídeos e jornais, rapazes que estudam em Yeshivot diariamente, gritando “vadias” para as mulheres do Women of the Kotel.
Será que aprendemos mesmo? Porque recentemente li uma certa lista feita pelo Rabinato de Israel que era um verdadeiro assassinato de reputações de Rabinos Ortodoxos que não se adequavam numa determinada posição política. Será que aprendemos mesmo? Porque vi um Rabino Ortodoxo, no Brasil, que se sacrificou para cumprir Torah e se dedicou a comunidade Judaica deste país, receber um herem (!) por cometer o “pecado” de apenas ensinar Torah para pessoas que desejavam seguir os mandamentos da mesma com rigor e amor, e terem o seu status reconhecido pelo Beis Din Ortodoxo estrangeiro depois de muito estudo.
Será que aprendemos mesmo? Porque, no Brasil, eu sempre tenho receio de dizer que fiz uma conversão ortodoxa porque não sei se àquele(a) que me ouve é um ser iluminado por D’us ou que vive na escuridão da própria ignorância.
Ufa!
Sim, nós, Judeus, temos vários dias do nosso calendário religioso dedicados à promoção de uma auto-reflexão tanto como indivíduos, como enquanto povo. Isso não é uma fraqueza, ao contrário, é coragem.
O ódio gratuito e a ignorância que gera este ódio são ruins, e é um problema que carregamos até hoje conosco. Por que? Porque somos humanos, a Torah não foi dada à anjos, ela foi dada à homens. É natural ficar triste hoje, mas acabou. O Judaísmo não pede que ninguém fique triste todo tempo – apesar dos escritores Judeus terem um certo dom natural para nos levar à conversas deliciosas com dois irmãos: a tristeza e o humor. Contudo, existe algo que o Judaísmo pede de você sempre: se revolte.
Se revolte com a imposição dos padrões de beleza e cumpra tznius.
Se revolte contra a necessidade de satisfação imediata e, antes de comer aquela suculenta batata frita, faça uma bracha.
Se revolte contra aqueles que dizem “eu respeito voce, mas…”, “devemos amar todos incondicionalmente” ou “nós todos devemos amar uns aos outros porque assim o Mashiach vai vir”, porque, essas pessoas ou estão tentando calar a voz do dissenso, ou estão tentando te enganar, meu, não compre isso, faça como o Rabino Yossef Karo ou o Micha Bin Gorion, e busque a verdade. No meu caso, a minha busca pela verdade me levou aos religiosos racionalistas Sefaraditas e Ashkenazim, bem como aos escritores Yiddish que não acreditavam em D’us e aos escritores ashkenazim como Zweig, que estavam sempre procurando algo mais.
Se revolte contra a ignorância e leia livros, procure os fatos, argumente e escreva.
Se revolte contra a desigualdade social e crie empregos, gere oportunidades para que outros possam alcançar dignidade e seus sonhos.
Se revolte contra a corrupção física e espiritual, e fique atento – muito atento – aos falsos profetas, àqueles que usam o rigor religioso para encobrir preconceitos e àqueles cuja lealdade esta unicamente nos prazeres passageiros do dinheiro.
Se revolte com D’us como Avraham fez (Parshat Vayera) e questione a autoridade – não importando se essa autoridade seja D’us ou apenas acredite ser D’us.
Como o incrivel estudioso e escritor Rabino Cardozo (Ortodoxo) – que é convertido, e filho de um Judeu com uma corajosa mulher não Judia – disse: o Judaismo é a arte da rebeldia.

Que você tenha tido um jejum tão útil quanto o meu.

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