[LIVRO] “Pequeno Tratado da Intolerância”, escrito por Charb.

Quem é Charb?

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Foto de Charb / Fonte: BBC News <http://www.bbc.com/news/world-europe-32325884&gt;

Stéphane Charbonnier ou “Charb” era um jornalista e caricaturista satírico. Ele teve os seus trabalhos publicados no jornal francês “Les Nouvelles du Val-d’Oise”, numa revista para o cinema Utopia, no “L’Écho des savanes”, no “Télérama”, no “L’Humanité”, na organização anti-racismo “MRAP” e na publicação que o fez famoso, o “Charlie Hebdo“. Charb foi assassinado, em janeiro de 2015, por extremistas islâmicos, na redação de sua revista em Paris.

Charb era ateísta, pacifista e, de acordo com os seus colegas de trabalho, Charb namorava com Jeannette Bougrab, uma advogada de Direitos Humanos e ex-ministra da Juventude e Vida em Comunidade da França. Em uma entrevista em 2012, um ano após o primeiro ataque contra a revista Charlie Hebdo, Charlie afirmou que não tinha medo de represálias, “eu não tenho filhos, esposa, carro e nem dividas. Pode até soar pomposo, mas eu prefiro morrer em pé do que viver de joelhos”.

O fenômeno do extremismo religioso, em especial o extremismo islâmico, sempre perturbou Charb, pois este caricaturista entendia esse extremismo violento como uma forma de limitar a liberdade de expressão ou totalitarismo religioso. Ele escreveu vários textos (The Fatwa of the Ayatollah Charb) e publicou várias charges (algumas com desenhos do profeta Maomé, algo que, de acordo com alguns muçulmanos, seria proibido por motivos religiosos) criticando, através do humor, a violência que desejava limitar a sua liberdade. Dois dias antes de sua morte, Charb trabalhava em um ensaio intitulado “Open Letter: On Blasphemy, Islamophobia, and the True Enemies of Free Expression“, que foi publicado em 2016 – com um adendo de Adam Gopnik.

“O nosso objetivo é rir. Nós queremos rir dos extremistas – todos os extremistas. Eles podem ser muçulmanos, Judeus, católicos. Todos podem ser religiosos, mas atos e pensamentos extremistas nós não podemos aceitar”, disse Laurent Léger, jornalista do Charlie Hebdo.

Sobre o livro.

O livro “Pequeno Tratado da Intolerância”, escrito por Charb, é composto de textos curtos e ilustrações do próprio Charb. Nesses textos divertidos – que não poupam nada e nem ninguém de críticas ferozes – o autor profere “sentenças de morte” à coisas ou tipos de pessoas que ele detesta. De fato, essa descrição faz com que o livro pareça mais sério do que ele realmente é. Na verdade, o “Tratado da Intolerância” é um livro no qual o autor crítica tudo aquilo que o aborrece na sociedade. Coisas simples como o uniforme do guarda de trânsito ou pessoas que leêm jornais gratuitos, que provavelmente não aborreceriam nem à você e nem à mim, se tornam personagens sensacionais das críticas de Charb.

Ao mesmo tempo, não existem apenas críticas, o autor apresenta várias várias reflexões sobre o cotidiano.

“Não preciso de sua bênção para rir daquilo que me dá vontade de rir, mas também não tenho necessariamente vontade de rir de tudo. Gosto de rir do que eu quero, quando eu quero. Não somente você me concede uma liberdade que posso ter sozinho, mas, ainda por cima, coloca restrições”, explica Charb em um texto no qual analisa o ditado popular “pode-se rir de tudo, mas não de qualquer um”.

“Não se pode ler os pensamentos de um careca, mas pode-se ler o de um careca de peruca. Leem-se suas angústias, suas fraquezas, suas frustrações, sua vergonha injustificada e se desespero prolongado. O careca de peruca não tem nenhum pudor. É repugnante”, escreve Charb no texto “Morte as carecas de peruca”.

“O papel do jornalismo não é parafrasear a realidade óbvia, mas explicar o que ela eventualmente esconde”, escreve Charb no texto “Morte aos jornalistas esportivos”.

“Você imagina a humanidade se levantando um dia e gritando em uníssono: “queremos óculos retangulares?”. Não. No entanto, seja por vontade própria, ou na base da força, todo mundo está usando óculos retangulares. (…) Dos vários óculos retangulares, tem um modelo em especial que arrasa: a armação de plástico preto com bordas grossas. De início essa atrocidade distinguia o publicitário criativo ou o jornalista de moda. Sou meio artista e vivo em Paris num gueto que lança tendências para o resto do mundo. A única vantagem dessas armações é que elas nos fazem esquecer a cara do babaca de quem as usa. Elas monopolizam toda a atenção. São a moldura dentro da qual o quadro desaparece. Aliás, podem ser vistas de longe. Num evento qualquer, por exemplo, assinalam perfeitamente o pedante e o mundano que devemos evitar. Mas o problema é que esses óculos contaminaram todos os meios sociais”, escreve Charb no texto “Morte aos óculos descolados”. Eu ri muito ao ler esse texto, pois na minha cidade estão todos usando óculos descolados, inclusive eu estava louca para comprar um.

 

Eu acho que um dos textos que mais chama atenção nesse livro, até mesmo em virtude da trágica história do autor, é “Morte ao medo islamita!”, pois ele crítica aqueles que tem medo de extremistas religiosos muçulmanos. Leia um trecho desse texto que eu transcrevi abaixo:
“Tem-se a impressão, hoje em dia na França, de que basta tirar uma pedra do lugar para se encontrar um ninho de salafistas. alguns até se fantasiam de salafistas só pelo prazer de descobrir a sua própria existência no olhar apavorante do burguês francês. (…) Na intimidade de seus quartos, no entanto, ouviam Claude François cantar, como todo mundo… Peneirados os falsos crentes, restará apenas um punhado de malucos de verdade. Os malucos de verdade podem até ser perigosos, mas do total de malucos de verdade devem-se subtrair os incapazes, os zero à esquerda em qualquer assunto, os gargantas, os infantiloides e os pernetas. Se os camundongos que sobrarem tomarem de assalto a gigantesca República e se esta fugir gritando “mamãe”, teremos perdido. O Estado laico tem um traseiro grande o bastante para se sentar em cima desses vermes e esmagá-los. É o medo que dá importância a esses lamentáveis fascistoides. E o ridículo, ao contrário do que se diz, acaba de vez com eles. Você há de concordar, é preciso bater forte na cara de todos os que têm medo da sombra da barba de um salafista, para que acordem desse pesadelo. Amém. (Charb, em “Pequeno Tratado da Intolerância”).

 

Acho que esse livro representa bem a diferença entre radicais intolerantes assassinos e comediantes que puxam os limites do humor, os primeiros matam pessoas e, os do segundo grupo, escrevem livros criticando de forma mordaz àqueles ou aquelas coisas que eles odeiam.

Um comentário sobre “[LIVRO] “Pequeno Tratado da Intolerância”, escrito por Charb.

  1. Excelente artigo, só discordo do “extremismo religioso”. O Islã não é religião, é uma ideologia radical bélica de manipulação social e política, com inúmeras provas de extremismo desde o nascedouro. E linkando ao jornalista do Charlie Hebdo, hoje sabemos por exemplo, que o alvo do ataque era uma ex-muçulmana que escrevia para o jornal. Ex-muçulmanos são radicalmente perseguidos, sob risco de morte, a começar da própria família que os excluem. Assim ensina o tal “alá” que de um Deus misericordioso e tolerante, não tem nada.
    A história da jornalista é contada nesse site: http://exmuculmanos.com/grandes-mulheres-zinab-el-rhazoui/
    Felicidades e continue compartilhando conhecimento!

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