[LIVRO] “Guia Politicamente Incorreto Dos Anos 80 Pelo Rock”, escrito por Lobão.

Quem é Lobão?

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Foto do Lobão / Fonte: Rolling Stone Brasil, Link <http://rollingstone.uol.com.br/noticia/virada-cultural-2013-tenho-o-melhor-show-do-brasil-diz-lobao-sobre-apresentacao-no-palco-sao-joao/>

Lobão (1957 – …) é um cantor e compositor brasileiro. Ele é considerado um dos maiores nomes do cenário do pop-rock brasileiro dos anos 1980 e 1990. Em 2010, ele lançou o seu primeiro livro, sua autobiografia, “Lobão: 50 anos a mil” (ele assinou esta autobiografia juntamente com o jornalista Claudio Tognolli). Em 2017, ele lançou o “Guia Politicamente Incorreto Dos Anos 80 Pelo Rock”.

Sobre o livro.

O “Guia Politicamente Incorreto Dos Anos 80 Pelo Rock”, é um livro sobre o período dourado do rock nacional (o livro cobre o período de 1976 até 1991). Para os apaixonados por este estilo musical e por um estilo de livro parecido com o “Chronicles” do Bob Dylan, Lobão fornece um texto delicioso.

“Com toda a certeza, foi a década que mais causou decepções, perdas trágicas, desentendimentos, prisões, brigas e discordâncias estéticas irreconciliáveis. Tudo isso misturado com enorme esperança de fazer música própria, de pertencer a uma rapaziada que pudesse mudar o panorama presunçoso e medíocre desse arraial do cu do mundo que é o coronelato da música brasileira (cujos protagonistas imperam até os dias de hoje), além da possibilidade grande de vivenciar aventuras inacreditáveis (Lobão, 2017).”

Durante a sua narrativa, Lobão apresenta vários personagens que marcaram o Rock nacional, suas bandas, as dificuldades enfrentadas pela turma e mostra as letras compostas por esses personagens. Apesar de não entender muito sobre música, achei esse último aspecto do livro fascinante, pois as letras me permitiram conhecer um pouco do que se passava na mente dos jovens daquela época. Aconselho o leito a ter acesso ao youtube ou uma loja online de música, pois, assim, é possível ouvir as músicas referentes à cada capítulo, o que faz com que o leitor aproveite ainda mais o livro.

Uma das características marcantes da narrativa feita pelo Lobão é o papel que os principais nomes da MPB ganham. Chico Buarque e outros são apresentados como o establishment que se opõe à essa galera do rock que estava surgindo. As críticas possuem um tom de deboche bem humorado que tornam a leitura do livro ainda mais interessante – independente do leitor concordar ou não com o teor dessa crítica. É importante mencionar que Lobão faz uma diferença entre suas críticas ao estilo, à produção e a política em torno dos grandes nomes da música popular brasileira, e a qualidade das músicas deles, por exemplo, em alguns momentos ele crítica durante Chico Buarque e em outros elogia uma ou outra música dele.

“Chico Buarque, dando um grau a mais na monotonia de então [1976], lançava Meus caros amigos deixando claro que, enquanto houvesse ditadura, ele não teria problema de falta de assunto. Vivíamos a aurora do crepúsculo do anseio de todo futuro compositor popular brasileiro almejar ser um revolucionário de festivais. Sim! Antes do Rock invadir a cultura brasileira, o jovem compositor iniciante almejava galgar os degraus da glória nos palcos dos festivais da canção, onde poderia exibir assim sua verve inconformada por não seguirmos os passos da revolução cubana (Lobão, 2017).”

“Chico, além de sua notória autoridade em perscrutar e cantar a alma do pobre fictício e do malandro alegórico na área da música de crítica-social, também se especializaria em psicografar os dilemas e dramas femininos da mulher brasileira balzaquiana carente de classe média-alta e em breve faria dupla com Gilberto Gil… (Lobão, 2017).”

No início de cada capítulo, Lobão escreve sobre o que estava acontecendo no Brasil e no mundo naquele período para, depois, focar no universo dos jovens envolvidos com o mundo do rock nacional. Ele também destaca curiosidades sobre a mentalidade da época e os medos que os jovens envolvidos com cena do rock possuíam.

“O Capão Redondo, dessa maneira, entrava no mapa do movimento.

O que estava acontecendo ali era algo que a cartilha do embrião do politicamente correto proibirá veementemente: junte tudo o que você acha que é melhor para você, não se demore em nada que o entedie, aprenda com as experiências que a vida lhe dá. Saia da casa dos seus pais, esqueça professores, teorias, escolas, teses, teorizações estéreis e parta para a prática dos seus sonhos ou dos seus pesadelos. Ou seja, a antítese do militante de esquerda dos dias de hoje que aos 30 anos ainda vive na casa dos pais, ataca tudo o que o professor diz, teoriza sobre tudo, como o punheteiro de pau mole que é, e só pensa em invadir as escolas no intuito de exigir favorecimentos, a fazer manha como um bebe desmamado.

Como viria a dizer uma década mais tarde Nassim Nicholas Taleb, “só o autodidata é livre”, e o movimento punk brasileiro pinçou, cantou e selecionou, com a argúcia e a necessidade de autodidata, uma batelada de informações vindas de todas as direções, confeccionando uma colcha informacional de farrapos e produzindo uma cultura significativamente mais livre, mais genuína e mais poderosa do que seus embolorados predecessores da Bossa Nova, da Tropicália ou da música de protesto.

(…)

“O punk só conseguiu conquistar um habitat para florescer em virtude da crise econômica. Todo o rock feito no Brasil a seguir deve muito a sua existência aos primeiros punks e ao inferno da falta de grana vivida pelo brasileiro em geral. Foi a pobreza que uniu a juventude brasileira: jovens ricos e pobres, brancos e pretos, todos juntos nesse momento. Um momento belo e fortíssimo.”

(Lobão, 2017)

Como foi viver o auge do rock nacional? O que levou este gênero ao declínio?

“Estávamos plenos, investidos de nossos ingênuos e perigosos personagens, devidamente introjetados, e somente poucos de nós conseguiram se desvencilhar dos seus papéis e de suas personas, que com o passar do tempo seriam atropelados pelo destino ou simplesmente transformados em caricaturas fósseis.”

(…)

“Foi um momento de muita alegria e de uma certeza absoluta que nossa geração formaria um movimento coeso e ímpar na música brasileira. Foi um instante único em que eu me senti pertencendo a uma determinada turma, e esse sentimento jamais viria a se repetir comigo.”

(…)

“Some-se a isso a aproximação definitiva de elementos como RPM, Ritchie, Titãs e Paralamas do Sucesso com a Tropicália (só eu na minha santa paranoia conseguia me irritar e me horrorizar com aquilo, ficando cada vez mais isolado e com uma fama de maluco cada vez maior) mais a banalização absoluta do gênero através da interferência das gravadoras nas produções (que insistiam em nos tratar como subproduto), com desmedidas contratações de bandas responsáveis posteriormente pela consubstancialização da pouco prestigiosa alconha de Trash 80’s. O rock brasileiro estava ferido de morte.”

(…)

“(…) O rock como meio de expressão cosmopolita contemporâneo só se estabelece em lugares onde haja um influxo maior de ânsia por transformação. O Brasil é e sempre foi um cemitério de vontade em se transformar e crescer.”

(Lobão, 2017)

“O Guia Politicamente Incorreto Dos Anos 80 Pelo Rock” não é um livro que possui apenas elogios ao rock e à geração que fez o rock nacional dos anos de 1980, ao contrário, em vários momentos lemos as auto-críticas de Lobão, duras críticas às gravadoras e à qualidade da gravação da música da época, e críticas à dificuldade enfrentada por compositores ao tentarem fazer músicas “inteligentes”. Também é possível ler sobre as rivalidades entre os cantores e compositores da época.

“A filosofia dos executivos das gravadoras era sempre gastar muita grana quando o assunto era ganhar muita grana, mas na direção do vulgar, do tosco e do pausterizado. Esse fator dificultaria (para não dizer, impossibilitaria) muito ao rock brasileiro desenvolver um som próprio. Seríamos condenados a produzir discos sem personalidade, em sua maioria custeados por um orçamento paupérrimo, e com a imposição de um sotaque eternamente empestado de citações comprometedoras ou desnecessárias, ou bregas mesmo (Lobão, 2017).”

(…)

“Por essas e por muitas outras aberrações que se sucederiam sistematicamente pelos anos seguintes, percebo Os Paralamas do Sucesso como a maior fraude que os anos 80 já produziram (Lobão, 2017).”

(…)

“A rapaziada da MPB detinha a exclusividade absoluta de poder fazer música “inteligente” e nós, bem, nós éramos para esses burocratas de gravadora apenas uma brincadeira inconsequente, mas, acima de tudo, uma brincadeira extremamente lucrativa. Éramos os arrimos de toda aquela gigantesca e obsoleta estrutura parasita que entraria em imediato colapso, caso dependesse desses “inteligentes”, pois eles só faziam consumir rios de dinheiro, produzindo desinteressante e enfadonha gosma “inteligente” para nós, burros de carga descartáveis termos de nos contentar com produções lixo de baixíssimo custo, constantemente direcionados e impelidos a fazer canções… “burras”.

(Lobão, 2017)

Nos últimos capítulos do livro, Lobão demonstra uma profunda admiração pelo seu amigo Cazuza e pelo Renato Russo, destacando o valor de suas letras e o talento desses dois cantores e compositores que ainda hoje merecem ser lembrados como alguns dos maiores nomes da música brasileira.

“Noutra canção dos idos de 1979, Renato erige um texto monumental de mais de 159 versos, sem refrão, desafiando todas as leis e dogmas da indústria fonográfica, apavorando de vez o status quo dos poderosos que comandavam aquele esquema. Pode-se afirmar sem o menor receio de errar que “Faroeste Caboclo” é uma das obras-primas do cancioneiro popular brasileiro e por isso mesmo, havemos de lê-la (e de novo, para os policiais de plantão, a concordância às vezes é mesmo suis generis) (Lobão, 2017)”.

(…)

“Que destino trágico tomava para si toda uma geração que começou tão inconsequente, tão cheia de sonhos, que improvável e heroicamente atingiria os píncaros do estrelado contra tantas forças, tendo de lutar contra tantas adversidades, tendo de lidar com as tenebrosas precariedades que a pátria nos concedia, explorados por bandidinhos e bandidões (Lobão, 2017).”

Eu gostei muito desse livro. Nessas páginas estão impressas – de forma honesta e divertida – as lembranças, as análises, as críticas, os sonhos e o talento de alguém que viveu – junto com outros jovens – um momento marcante da história da música. Lobão não apenas é um grande compositor, como também é alguém que conheceu pessoas extremamente talentosas que escreveram músicas impressionantes. Acho que deve ser emocionante ter vivido momentos incríveis e conhecido pessoas interessantes como as que ele conheceu, e depois olhar para o passado e contar isso para uma geração que, dos anos de 1980, conhece apenas as músicas e as narrativas dos livros de história do colégio.

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