[LIVRO] “A Unidade Espiritual Do Mundo”, editado por Israel Beloch.

Quem é Stefan Zweig?

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Stefan Zweig – Fonte: Casa Stefan Zweig. Link: <http://www.casastefanzweig.org/index.php?language=pt_br&gt;

Stefan Zweig foi um escritor, poeta, jornalistas, romancista, dramaturgo e biógrafo austríaco. Ele foi um judeu de classe média que viveu a Belle Époque e conheceu todo mundo que valia a pena conhecer em seu tempo, entre eles Freud e Herzl. A primeira e a segunda guerra mundial roubaram dele o mundo que o inspirava e se matou no Brasil em 1942. Zweig é uma trágica e apaixonante história do século XX.

Ele era um típico intelectual, um judeu liberal e cosmopolita de sua época, que viveu uma época incrível onde as inovações tecnológicas prometiam um futuro magnifico, onde nada seria impossível. Viveu uma época de liberdade e emancipação para os judeus onde os valores liberais pareciam estar abrindo todas as portas da sociedade, ou pelo menos quase todas as portas. Stefan tinha horror ao racismo e ao nacionalismo, sendo um verdadeiro amante da liberdade individual. Acho que ele teria gostado da União Européia.

Ele gostava muito do Brasil, afirmando que o mesmo era “o país do futuro”, tal expressão viria a se tornar um apelido para o nosso país. Em sua carta suicida ele declarou: “A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído (…). Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.” Ele certamente chorou a perda de sua Europa e de seu mundo que lhe parecia o ápice da civilização para os nazistas.

Suas habilidades como escritor, sua personalidade cosmopolita, amante da poesia e da alta cultura, seu sentimento anti-fascista e seu amor pela liberdade individual me inspiram e demonstram o que há de melhor no povo judeu.

Sobre o livro.

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Foto da capa do livro “Stefan Zweig, a Unidade Espiritual do Mundo”, editado por Israel Beloch – Foto de Nina Avigayil Lobato.

O livro tem como texto principal o discurso feito por Stefan Zweig na Conferência proferida no Rio de Janeiro em agosto de 1936 e foi editado por Israel Beloch. Esta obra possui, além do texto principal, textos de outros quatro autores; Alberto Dines, Celso Lafer, Jacques Le Rider e Klemens Renoldner, que buscam explicar para os leitores as obras, ideias e principais fatos da vida do escritor Zweig, que morreu no Brasil.

Cada capítulo do livro consiste em um texto escrito por cada autor e traduzido em cinco línguas diferentes, ou seja, se você tiver um amigo francês ou americano, e desejar presentear este amigo com o livro em questão, você vai poder sem muita dificuldade. A melhor parte do livro, além do próprio do texto do Stefan Zweig, “A unidade espiritual do mundo”, é a qualidade das imagens do livro. As imagens que mais chamam a atenção do leitor são as fotos do rascunho do texto original de Zweig, pois são são cópias das anotações originais do autor, com toda a bagunça, beleza, e intimidade, dos rascunhos de um texto de qualquer escritor. É lindo e magnético.

Do capítulo I, “O CANTO DO CISNE DO COLECIONADOR DE UTOPIAS”, escrito por Alberto Dines, destaco:

“Quando os escritores da Europa puderem usar indiferentemente, na mesma página, o francês e o alemão, com toda certeza, a unidade espiritual do mundo…” – comentou Macedo Soares, com a facilidade de Stefan Zweig em usar os dois idiomas.

Do capítulo II, “A UNIDADE ESPIRITUAL DO MUNDO DE STEFAN ZWEIG, UMA APRESENTAÇÃO”, escrito por Celso Lafer, destaco:

“Unidade espiritual do mundo” foi um texto pronunciado por Zweig numa conferência, em 1936. Nesta conferência, Zweig deixa claro que possui esperanças que os “povos novos”, com os brasileiros, “imbuídos de idealismo sem rancores e não hipnotizados por fronteiras, voltados para o futuro, e não para o passado com suas ideias obsoletas”, que poderão levar à pacificação do mundo. Desde que eu li “O mundo de ontem”, uma biografia do Zweig escrita por ele mesmo, eu entendi o profundo pacifismo e idealismo do autor. É algo que eu considero lindo a respeito dele e algo que torna a sua biografia um texto ainda mais marcante. Como internacionalista, acho Zweig um tolo, mas como escritora, eu acho seus textos suaves e emocionantes.

“A cultura é, por sua própria natureza universal. A política vive e cresce no conflito a sangue representado pela guerra; a cultura, ao contrário, vive e cresce no diálogo das partes, acima das partes (Stefan Zweig).”

Do capítulo III, “ZWEIG, MAIS ATUAL DO QUE NUNCA”, escrito por Jacques Le Rider, destaco:

“Stefan Zweig defende a unificação europeia, única chance de conjurar a ameaça da guerra e deter o confronto dos imperialismos. O seu idealismo, a sua recusa da realpolitik, a sua aspiração de pensar a Europa fora das categorias políticas do seu tempo, em nome de uma ética cosmopolita, conferem uma nova atualidade à sua profissão de fé supranacional. ” Uma das características deste escritor era a sua aversão à burocracia das fronteiras, ao nacionalismo, aos conflitos entre Estados e às loucuras da guerra. Ele virou uma espécie de personificação da importância da ética cosmopolita para muitos. Eu o admiro como escritor e como alguém que viveu um período marcante da história, e conseguiu traduzir esse período em palavras, contudo, eu sou apaixonada pelo mundo da realpolitik, acho que os desafios e a sinfonia deste mundo têm beleza e emoção. Talvez para muitos, as ideias de Zweig chamem a atenção e o façam parecer atual – afinal, a esperança por dias pacíficos é sempre atual -, mas não para mim, ainda vejo o Zweig como um homem de seu tempo.

“O espetáculo das tiranias triunfantes produz sobre Stefan Zweig um efeito desencorajador. Ele adquire a convicção de que todo projeto de unificação supranacional precisa ser um projeto antipolítico. (…) Stefan Zweig sonha com uma antipolítica do espírito que reatasse com a tradição humanista da República das Letras de Erasmo. Rejeita o papel de intelectual engajado porque enxerga nele uma subjugação do espírito à política”.

“A política nos embrutece. É de tal forma repugnante, absurda, que não nos salvamos a não ser cuspindo nele”, escreve Zweig. Respeito o quanto a política que o autor viu no tempo dele deve lhe ter causado uma enorme repugnância. Eu não acho que a política seja uma arte humana de todo repugnante, contudo concordo que ela embrutece. As vezes eu estudo tanto sobre política, guerras e história que eu me sinto distante do universo intelectual e criativo do “Coração de Tinta”, de Cornelia Frank.

Deixo aqui a minha crítica em relação à este capítulo. Existem autores que, a partir das ideias de Stefan Zweig, extrapolam para o papel as suas próprias interpretações políticas da realidade atual, sobre a qual Zweig nunca escreveu a respeito. “Como as elites políticas sempre se recusaram em confiar o poder a uma organização europeia ou mundial, as instituições supranacionais estão fadadas ao fracasso”, este é um dos exemplos de uma pobre análise de política internacional a partir do idealismo político de Judeus europeus como Zweig.

Do capítulo IV, “UM SONHO DOS DIAS DE INFÂNCIA”, escrito por Klemens Renoldner, destaco:

A condição de exilado de Stefan Zweig – e de tantos outros Judeus europeus como ele – produziram no autor um forte sentimento de nostalgia. O mundo de ontem sobre o qual ele escrevera não era tão belo, exceto na mente do próprio Zweig. “A nostalgia de um sonho da infância em Viena naturalmente constitui um contraste extremo com a experiência dos últimos anos de vida de Zweig, com a solidão e o seu profundo desespero. O sonho de renovação da humanidade, que outros exilados não abandonaram, tornara-se, para ele, mera ilusão”, escreve Renoldner sobre Zweig.

Do capítulo V, “A UNIDADE ESPIRITUAL DA EUROPA”, escrito por Stefan Zweig, destaco:

Antes deste capítulo existem inúmeras páginas que são cópias das anotações originais do autor, com toda a bagunça, beleza e intimidade dos rascunhos de um texto de qualquer escritor. É lindo e magnético.

“Um povo desconfiando do outro, uma nação com medo da outra, a humanidade inteira à sombra de uma possível guerra: quanta desilusão para nós, que sonhamos e continuamos a sonhar com a confraternização de todos os povos! Quanta tristeza para as nossas almas, que consideram o ódio o inimigo mais terrível da humanidade, e que se veem indefesas e impotentes diante dessa confusão dos nossos irmãos em todos os países! Ainda sim, creio que não podemos fraquejar e nos entregar ao pessimismo. Pois o pessimismo é um elemento destruidor. Enfraquece as energias porque não é criador. Não nos é permitido duvidar da força da razão só porque a época atual age contra as suas leis. Não nos é permitido trair o medo, ainda que temamos pelo destino desta geração. Pelo contrário, nós, donos da palavra, devemos redobrar os esforços para fortalecer a fé nesse momento do desânimo. (…) Senhoras e senhores, foi com certa intenção que me detive nesse instante mais obscuro para lembrar que no desenvolvimento da humanidade existem terríveis retrocessos e recaídas (…). A evolução de qualquer ideia não se dá passo a passo em uma ascensão regular. Avanços fortes costumam ser seguidos de violentos retrocessos; no entanto, por mais fortes que sejam, nunca os podemos considerar permanentes. Pois os processos decisivos de cura costumam se iniciar justo nas crises mais perigosas. (…) O livro ainda continua sendo um dos melhores mediadores das almas e das ideias. Graças ao livro, as fronteiras da língua podem ser superadas, as ideias aproximadas, os opostos suavizados através da discussão. E quando os livros e os homens que os escreverem compreenderem a imensa responsabilidade que foi colocada em suas mãos, ainda poderão ser os melhores mensageiros de um futuro entendimento”, escreve Zweig.

No seu texto, Zweig fala sobre a história da Europa (os avanços e os retrocessos), o seu amor e esperança pelo poder do livro, a crença que possuía na infância de que os avanços tecnológicos levariam ao avanço moral da humanidade (muito comum na segunda metade do século XIX até o início do século XX), um certo pessimismo em relação à greatest generation (de acordo com o autor, apesar da coragem e sacrifício da mesma, ela persegue velhas ideias), e sobre as duas certezas (a primeira, que a Europa havia perdido o direito à liderança espiritual e, a segunda, de que não se deve esperar que o progresso tecnológico ocasione progresso moral para a humanidade).

“Precisamos ensinar uma juventude a odiar o ódio, porque ele é infértil e destrói o prazer da existência, o sentido da vida, precisamos educar as pessoas de hoje e amanhã a pensar e sentir em dimensões mais amplas. Precisamos ensinar a elas que é mesquinhez e exclusão limitar a camaradagem ao próprio círculo, ao próprio país, em vez de sentir fraternidade também além dos oceanos, para com todos os povos do mundo”, conclui Zweig. Este é um texto idealista, esperançoso e judaico-europeu, ou seja, autenticamente Stefan Zweig.

Do capítulo VI, “QUATRO ANOS DEPOIS”, destaco:

Esse capítulo explica que Zweig modificou algumas partes do seu texto original “A unidade espiritual da Europa” para refletir os dramas dos sombrios anos de 1940.

Minha conclusão. Eu sou fascinada pelo escritor e figura histórica que foi Stefan Zweig. Este livro é uma boa introdução à obra e vida desse escritor Europeu que nos deixou de forma tão dramática e marcou a vida literária brasileira. Sem dúvida, a qualidade da edição deste livro é incrível e a qualidade da impressão das imagens é sensacional. Desejo chamar atenção novamente para o magnetismo das fotografias dos rascunhos do Zweig, porque, mesmo se você não entender a língua na qual ele escreveu, a beleza da criatividade exposta ali é um tesouro para todos aqueles que gostam de escrever ou que apreciam grandes escritores. Contudo, deixo o alerta, Zweig era um idealista político.

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