O Poder Difuso de Richard Haass

O texto abaixo foi escrito com base no artigo “The Age of Apolarity”, escrito por Richard Haass e publicado na revista Foreign Affairs. Além desta texto, foi utilizada com base uma série de palestras e entrevistas feitas pelo próprio Richard Haass em universidades e instituições estrangeiras – essas palestras se encontram disponíveis no Youtube, bem como textos sobre o tema (os links estão dispostos pelo corpo do texto). O texto de minha autoria, “O Poder Difuso de Richard Haass”, reflete as ideias do autor poder, ordem e o papel dos EUA na era da não-polaridade.


 

O que é a era da não-polaridade? Este é “um mundo dominado não por um ou dois ou até muitos Estados, mas sobretudo por dúzias de atores que possuem e exercem vários tipos de poder. Isto representa uma mudança tectônica em relação ao passado (HAASS, 2008)”. Como resultado da não-polaridade, a capacidade das superpotências de traduzir poder em influência por parte passa a ser menor e o mundo torna-se mais inseguro.

Richard Haass foi atuou como diplomata para os Estados Unidos e atualmente é presidente do Council on Foreign Relations, ele já ganhou vários prêmios e escreveu vários livros, entre eles; o livro “A World in Disarray”. Antes de ser tudo isso, um dia Haass já foi aluno e teve como uma de suas inspirações no estudo das Relações Internacionais, o famoso Henry Kissinger. Segundo Richard Haass, existem cinco livros que todo aluno ou indivíduo interessado em Relações Internacionais deveria ler, são eles: “The Thirty Years War: Europe’s Tragedy” por Peter Wilson, “Power and the Pursuit of Peace” por F. H. Hinsley, “The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics” por Hedley Bull, “A World Restored” e “World Order” por Henry Kissinger.

 

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Entrevista de Richard Haass com Henry Kissinger na 92YPLUS sobre o Estado Moderno – Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=GJkrONvRz5I&gt;

 

Para se entender o conceito de poder difuso como proposto por Richard Haass na era da não-polaridade, é necessário, primeiramente, entender o que é ordem internacional, em seguida é necessário entender o problema enfrentado pela ordem internacional atualmente, e como isso se relaciona com uma realidade na qual o poder está difuso.

O que é ordem internacional?

“Ordem mundial descreve o conceito sustentado por uma região ou civilização a respeito da natureza dos arranjos considerados justos e da distribuição de poder considerada aplicável ao mundo inteiro. Uma ordem internacional é a aplicação prática desses conceitos a uma parte substancial do globo – grande o bastante para afetar a balança global de poder. Ordens regionais envolvem os mesmos princípios aplicados a uma área geográfica definida (KISSINGER, “Ordem Internacional”).”

Em uma palestra para a CRASSH Cambridge, Richard Haass chama atenção para o fato de que esta “ordem” possui dois pontos de referência, o conceito de “legitimidade” e “balança de poder” (esta última seria uma espécie de teia física para a “ordem”).

“Qualquer um desses sistemas de ordem tem como base dois componentes: um conjunto de regras comumente aceitas, que definem os limites do que é permissível, e uma balança de poder que impõe limites caso as regras sejam violadas, impedindo assim que uma unidade política subjugue todas as outras. Consenso sobre legitimidade dos arranjos não significa – hoje, como no passado – que não existam competições e conflitos, mas ajuda a garantir que esses ocorrerão com ajustes dentro da ordem existente, não como desafios fundamentais a essa ordem. Um equilíbrio entre forças não é por si só uma garantia de paz, porém, se estruturado evocando com sabedoria, pode limitar o alcance e a frequência de desafios fundamentais e diminuir suas chances de sucesso quando ocorrerem (KISSINGER, “Ordem Mundial”).

A ideia de ordem internacional para Richard Haass é um tanto quanto pós-westfaliana, o que por si só reflete as mudanças pelas quais o mundo vem passando.

“Ordem internacional, além de tudo o que já foi dito, contrasta com desordem. A desordem se origina dos atores que rejeitam as regras e os acordos pré-existentes, bem como os mecanismos pré-existentes para mudanças. Desordem é uma função daqueles que desejam mudanças que os atores que abraçam os elementos da sociedade internacional não querem, e reflete a habilidade daqueles que estão insatisfeitos com os arranjos existentes de mudar tais arranjos pela força. (…) Ordem não é algo que apenas acontece – não é o jeito natural das coisas -, aqueles que desejam ordem devem cria-la e agir de tal forma a defende-la contra aqueles que não a querem. Ordem é tanto design quanto implementação (HAASS, 2015) ”.

Segundo Haass, a ordem internacional hoje não é algo sustentado apenas por atores estatais, ao contrário, hoje vivemos a democratização da ordem e o forte envolvimento de atores não-estatais. Por que? Porque o poder hoje é difuso. Mesmo se alguns atores chegarem ao consenso sobre um tema, o fato de outros atores (Estados ou não) não concordarem, a ordem não vai prevalecer ou ser duradoura. O mundo do Concerto da Europa no qual alguns chefes de Estado e diplomatas se reuniam, e decidiam qual seria e como funcionaria a ordem internacional não existe mais. “A ordem hoje deve conter não apenas o comportamento dos Estados, mas também deve levar em conta as forças da globalização (movimentos que são, ao mesmo tempo, vastos e rápidos) ”, explica Haass em uma palestra para a Universidade de Cambridge.

Além disso, em decorrência da globalização, hoje mais do que no passado, os eventos que acontecem dentro das fronteiras de um Estado afetam diretamente a segurança de outros, portanto, se observa o crescimento dos debates sobre a expansão do conceito de segurança internacional e até que ponto se deve intervir um conflito entre atores dentro de um Estado que afete a segurança internacional. A raiz desse debate pode estar no fato de que hoje parece ter acontecido uma expansão da definição de ordem dentro do sistema internacional. Isto é um problema? Sim, pois é mais difícil implementar ordem sobre o sistema internacional quando a mesma tem um conceito tão vasto, ou seja, se a mesma passa a incluir um número maior de participantes, adota objetivos mais vastos e se não existe um mecanismo estabelecido ou aceito por muitos para operar esta ordem. Nessa noção expandida de ordem, o poder é difuso. É necessário discutir ordem internacional tanto quanto ordens regionais.

Pode-se afirmar que entre os principais desafios do mundo hoje, temos: terrorismo transnacional, proliferação de armas nucleares, mudanças climáticas, governança cibernética, conflitos violentos entre Estados, crises econômicas globais, desenvolvimento, e conflitos violentos dentro de Estados. Portanto, segundo Richard Haass, é possível pensar que vivemos em um mundo pós-westfaliano no qual o que acontece dentro de um país pode facilmente afetar outros (um exemplo disso seria a crise dos refugiados ocasionada pela guerra civil da Síria). É necessário definir regras para cada Estado (regras, cobranças e punições) de forma tal que o que acontece dentro de um Estado seja levado em consideração para a segurança dos demais.

Quais os desafios que os Estados Unidos enfrentam na era da não-polaridade? Pode-se citar cinco desafios enfrentados pelos Americanos nesse estranho mundo novo;

  • Hoje, tudo o que é local pode rapidamente virar global;
  • Apesar dos EUA não ter nenhum grande competidor ou uma superpotência que proponha uma alternativa à ordem internacional liberal, existe o desafio de trabalhar junto com a China e buscar integrar a mesma à ordem internacional para evitar cair na armadilha de Thucydides;
  • É necessário reformar as instituições multilaterais;
  • É necessário pensar em como estabilizar a Ásia – não com o mesmo modelo utilizado pela Europa, mas com um sistema de administração que promova a segurança e estabilidade na região – pois, atualmente, o cenário da Ásia lembra muito a Europa pré-Primeira Guerra Mundial.
  • É necessário ter em mente duas coisas sobre o Oriente Médio antes de se analisar esta região, a primeira; as coisas podem ficar piores antes de ficarem ainda piores, e, a segunda; o inimigo do seu inimigo ainda pode ser seu inimigo. Sabendo disso, Haass destaca dois pontos ao discutir a região: (1) esta região do mundo vive um clash within civilization que lembra a Europa na época da guerra dos trinta anos. Se é que é possível um país ou países de foram imporem ordem, até que ponto isso seria possível? (2) Um dos conflitos mais marcante da região é o conflito entre Israel e Palestinos, nesse contexto, é importante não ter grandes ambições quanto à um acordo de paz entre as partes e é necessário evitar um cenário de grave acirramento do mesmo (especialmente no que tange ao Monte do Templo).

O que os Estados Unidos deve fazer para evitar a desordem nesse sistema global não-polar? Segundo Haass, os EUA devem:

  • Reduzir o consumo de energia e a vulnerabilidade à manipulação dos produtores de petróleo;

  • Fortalecer as defesas nacionais contra o terrorismo doméstico através do melhor preparo daqueles que ofertam os primeiros socorros, e construir uma rede uma infraestrutura mais flexível e duradoura como um meio para se recuperar mais rapidamente de um ataque;
  • Deslegitimar e envergonhar àqueles que se envolvem com terrorismo, o que vai limitar a capacidade deles de recrutar novas pessoas para essas atividades;
  • Promover o multilateralismo para lidar com problemas internacionais, mesmo quando isso vai significar a cooperação apenas entre um pequeno grupo de nações com interesses e valores em comuns;
  • Promover o fluxo internacional de comércio e investimentos de tal forma a encorajar os Estados a obedecer um sistema de regras. Tal sistema de regras prejudicaria a prosperidade daquele que decidisse violar as mesmas, etc.

Como ficam os Estados Unidos na era da não-polaridade? Nesta realidade, os Estados Unidos vivem um declínio parcial, observam o aumento da capacidade de influência de atores não-estatais, e enfrentam dificuldade de traduzir poder em influência – o que dificulta respostas coletivas e atrapalha o funcionamento das instituições multilaterais internacionais. Haass destaca que, neste contexto, os Estados Unidos devem continuar buscando a resolução pacífica de disputas, especialmente em decorrência do fato de que ações unilaterais se tornaram mais difíceis nessa realidade, mas que os Estados devem a capacidade militar necessária para realizar operações de gestão de crises – sozinho ou em cooperação com outros países. Na era da não-polaridade, os EUA são os primeiros entre muitos. Contudo, primacy isn’t hegemony. Mais do que nunca o mundo precisa hoje de indivíduos com grande destreza diplomática, mas não importam os quão talentosos sejam os diplomatas, eles ainda sim vão esbarrar nas forças histórias. O mundo da não-polaridade não é business as usual, portanto não pode ser política externa as usual.

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Fonte: Council of Foreign Relations – Fonte: <https://www.cfr.org/book/world-disarray&gt;

 

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