[LIVRO] “Civilização: Ocidente x Oriente”, escrito por Niall Ferguson.

Quem é Niall Ferguson?

Niall Ferguson
Niall Ferguson – Fonte: Bob Katz Enterprises (Link: <http://bobkatzenterprises.com/speakers/niall-ferguson/&gt;. )

 

Niall Ferguson é membro da Hoover Institution na Universidade de Stanford, do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard, fundador e administrador da firma Greenmantle LLC, e ex-Professor de História da Universidade de Harvard.  Ele é autor de 14 livros, entre eles uma biografia de Henry Kissinger. Para mais informações, entre no site oficial do autor e veja palestras, leia ensaios e avaliações de seus livros.

Sobre o livro.

O livro “Civilização – Ocidente x Oriente”, escrito por Niall Ferguson, se propõe a responder a seguinte pergunta: qual é a explicação para a supremacia do ocidente sobre às demais civilizações no passado? Depois de conseguirmos essa explicação, podemos fazer um prognóstico sobre o futuro? Será que estamos vivendo o fim do mundo ocidental? Todas essas perguntas são fascinantes para qualquer aficcionado por história ou para alunos de Relações Internacionais.

“Escrevi este livro porque tinha a forte impressão de que hoje em dia as pessoas prestam insuficiente atenção aos mortos. Ao observar meus três filhos crescendo, eu tenho a inquietante sensação de que ele estavam aprendendo menos história do que eu havia aprendido na idade deles, não só porque tinham professores ruins, mas também porque tinham livros de história ruins e sistemas de avaliação ainda piores. (…) Eles aprendiam “módulos” isolados, não narrativas, e muito menos cronologia. Foram preparados para analisar excertos de documentos, mas não para adquirir a habilidade essencial de ler muito e depressa. Foram encorajados a sentir empatias por centuriões romanos imaginados ou por vítimas do Holocausto, e não a escrever ensaios sobre o por que e como tais situações ocorreram”, escreve Ferguson sobre a razão de escrever este livro.

É possível que você que se interessa sobre o estudo de história e sobre essa tal de “civilização ocidental” já tenha ouvido críticas sobre o domínio da mesma sobre as demais ou que não existem civilizações melhores do que outras. O escrito Niall Ferguson, neste livro, aborda de uma forma honesta os sucessos e os fracassos da civilização ocidental, tendo como um foco especial os elementos que tornaram a civilização ocidental tão bem sucedida. Aqui não se vê uma narrativa de dominadores-imperialistas-maléficos sobre dominados-explorados-inocentes, mas uma análise séria sobre a história do ocidente.

“Nenhum escritor sério afirmaria que o domínio da civilização ocidental era imaculado. Mas há aqueles que insistem que não havia absolutamente nada de bom nele. Essa posição é absurda. Assim como todas as grandes civilizações, a do Ocidente tinha duas faces: era capaz de nobreza e também capaz de torpeza. (…) As outras civilizações invadidas pelo Ocidente, ou transformadas por este de forma mais pacífica, tanto por meio de empréstimos quanto de imposições, também tinham seus defeitos, dos quais o mais óbvio é que foram incapazes de fornecer a seus habitantes qualquer melhoria prolongada na qualidade material da vida deles (Niall Ferguson).”

Logo na INTRODUÇÃO é possível ler uma explicação fascinante para a pergunta: todas as civilizações são iguais? Alegar que todas as civilizações têm a mesma importância e são iguais, não sendo possível uma reivindicar superioridade sobre as demais, soou para mim como um forte relativismo na primeira vez que eu ouvi isso.

“Há aqueles que contestam tal afirmação, alegando que todas as civilizações são iguais em certo sentido, e que o Ocidente não pode revindicar superioridade sobre o leste da Eurásia, por exemplo. Mas tal relativismo é comprovadamente absurdo. Nenhuma civilização anterior foi capaz de exercer a dominação que o ocidente exerce sobre o restante do mundo (o ocidente possui maior taxa de urbanização, maior expectativa de vida, outros países buscam adotar as instituições e maneiras de operar do ocidente, etc.)… não é “eurocentrismo” ou (anti) “ocidentalismo” dizer que a ascensão da civilização ocidental é o fenômeno histórico mais importante da segunda metade do segundo milênio depois de Cristo. É uma afirmação do óbvio. O desafio é explicar como isso aconteceu. O que houve na civilização da Europa Ocidental depois do século XV que lhe permitiu sobrepujar os Impérios visivelmente superiores do Oriente? Sem dúvida, foi algo mais que a beleza da Capela Sistina (FERGUSON, 2016)”.

Ainda na INTRODUÇÃO, Ferguson escreve que o que diferenciou o Ocidente das demais civilizações foram as instituições.

“É claro que as instituições são, em certo sentido, produto da cultura. Mas, uma vez que formalizam um conjunto de normas, costumam ser aquilo que mantém uma cultura no rumo certo, determinando até que ponto esta conduz ao bom comportamento e não ao mau. Para ilustrar esse argumento, o século XX fez uma série de experimentos, impondo instituições muito diferentes a dois conjuntos de alemães (ocidentais e orientais), dois conjuntos de coreanos (do Norte e do Sul) e dois conjuntos de chineses (dentro e fora da República Popular). Os resultados foram muito impressionantes, e a lição, claríssima. Se tomamos o mesmo povo, com mais ou menos a mesma cultura e impusermos instituições comunistas a um grupo e capitalistas a outro, quase imediatamente haverá uma divergência no modo como se comportam (FERGUSON, 2016)”.

Segundo Ferguson, existem seis sistemas de instituições identificáveis que são molas propulsoras do poder global. São essas seis instituições; 1) a competição, 2) a ciência, 3) os direitos de propriedade, 4) a medicina, 5) a sociedade de consumo e 6) a ética do trabalho. Cada capítulo do livro busca analisar cada uma dessas seis instituições através de momentos históricos. “Não se engane: este não é mais uma versão presunçosa do “triunfo do Ocidente”. Pretendo mostrar que não foi só a superioridade ocidental que levou à conquista e a à colonização de grande parte do restante do mundo; foi também a fraqueza fortuita de seus rivais”, alerta o autor.

“I. A competição: uma descentralização da vida política e econômica, que criou as condições para o surgimento dos Estado-nação e do capitalismo. II. A ciência: uma forma de estudar, entender, e, finalmente, transformar o mundo natural, que deu ao Ocidente (entre outras coisas) uma importante vantagem militar sobre o restante. III. Os direitos de propriedade: o controle da lei como um meio de proteger os proprietários privados e solucionar pacificamente as disputas entre eles, que assentou a base para a forma mais estável de governo representativo. IV. A medicina: um ramo da ciência que possibilitou uma importante melhoria da saúde e na expectativa de vida, inicialmente nas sociedades ocidentais, mas também em suas colônias. V. A sociedade de consumo: um modo de vida material em que a produção e a compra de roupas e outros bens de consumo desempenham um papel econômico central, e sem o qual a Revolução Industrial teria sido insustentável. VI. A ética do trabalho: um sistema moral e um modo de atividade derivados do cristianismo protestante (entre outras fontes), que fornece coesão à sociedade dinâmica e potencialmente instável criada pelos itens I e V (FERGUSON, 2016)”.

 

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Foto da capa do livro de Niall Ferguson, “Civilização: Ocidente x Oriente”, em P&B – Fonte: Nina Avigayil Lobato.

 

No capítulo I. COMPETIÇÃO, Ferguson faz um paralelo entre a China e a Europa para responder à pergunta: por que a China afundou enquanto a Europa progrediu? A China afundou quando o decreto haijin entrou em vigor e baniu todas as viagens oceânicas, enquanto que para os Europeus o mesmo não aconteceu.

“Para os Europeus, navegar em torno da África não era só uma questão de exigir homenagem simbólica para algum monarca poderoso em sua terra natal. Era uma questão de sair à frente dos concorrentes, tanto em termos econômicos quanto políticos. Se Vasco da Gama conseguisse, Lisboa superaria Veneza. A exploração marítima, em suma, foi a corrida espacial da Europa quatrocentista. Ou, melhor dizendo, sua corrida por especiarias (FERGUSON, 2016)”.

Por que os países da Europa se jogaram na corrida por especiarias?

“Podemos encontrar a resposta observando os mapas da Europa medieval, que mostram literalmente centenas de Estados concorrentes, dos reinos da costa ocidental à muitas cidades-estados situadas entre o Báltico e o Adriático, de Lubeck a Veneza. Havia aproximadamente mil cidades na Europa do século XIV; e ainda cerca de 500 unidades mais ou menos independentes 200 anos mais tarde. Por quê? A resposta mais simples é a geografia. A China tinha três grandes rios (…), todos fluindo do Oeste para o Leste. A Europa tinha muitos rios fluindo em várias direções e uma série de cadeias montanhosas como Alpes e os Pirineus, sem falas das densas florestas e regiões pantanosas da Alemanha e da Polônia. Talvez a China simplesmente estivesse mais exposta à investidas dos mongóis; a Europa não podia ser facilmente invadida por um bando de homens a cavalo – e, portanto, tinha menos necessidade de se unir (…). É verdade que, conforme vimos, os conflitos podiam ser devastadores na Europa – basta pensar no caos gerado pela Guerra dos Trinta Anos na Alemanha, em meados do século XVII (…). Mas essas lutas constantes tiveram três vantagens não intencionais. Primeiro, encorajaram a inovação em tecnologia militar (…). A segunda vantagem da situação de guerra quase incessante da Europa é que os Estados rivais se tornavam cada vez melhores no que dizia respeito a levantar a verba necessária para financiar as campanhas (…). Outra inovação fiscal que transformou o mundo foi a ideia holandesa de conceder direitos de monopólio comercial a empresas e capital aberto em troca de uma participação em seus lucros, e uma compreensão de que as empresas atuariam como fornecedoras de serviços navais contra as potências inimigas (…) Acima de tudo, décadas de conflito interno garantiram que nenhum monarca europeu jamais se tornasse forte o suficiente para ser capaz de proibir a exploração ultramarina (…). Em suma, a fragmentação política que caracterizou a Europa impossibilitou a criação de qualquer coisa que lembrasse remotamente o império chinês. Também incentivou os europeus a procurar oportunidades – econômicas, geopolíticas e religiosas – em terras distantes. Você poderia dizer que se tratou de dividir e governar – exceto que, paradoxalmente, foi dividido a si mesmos que os europeus conseguiram governar o mundo. Na Europa, o pequeno era belo porque significava competição – a competição não só entre Estados, mas também no interior destes (FERGUSON, 2016)”.

Durante o mesmo período no qual tudo isso acontecida na Europa, a China estava voltada para dentro de si mesma, hermética e hierarquizada. Além disso, havia pouca competição entre as elites que constituíam o Estado, o que ocasionava pouca competição e inovação.

No capítulo II. CIÊNCIA, Ferguson faz um paralelo entre o desenvolvimento histórico do ocidente e da civilização islâmica no âmbito do desenvolvimento científico.

“Desde que o Islã se expandiu para além dos desertos árabes no século VII, houve repetidos choques entre o Ocidente e o Oriente. Os seguidores de Maomé travaram guerras santas contra os seguidores de Jesus Cristo, e os cristãos retribuíram a cortesia com cruzadas à Terra Sagradas – nove ao todo entre 1095 e 1272 – e com a reconquista da Espanha e de Portugal. Durante a maior parte dos últimos 300 séculos, apesar de um ou outro contratempo ocasional, o Ocidente venceu sistematicamente o choque de civilizações. Um dos principais motivos foi a superioridade da ciência ocidental. Essa vantagem, no entanto, nem sempre existiu. (…) O Ocidente deve muito ao mundo mulçumano medieval, não só porque este preservou a sabedoria clássica, mas também porque produziu novos conhecimentos em cartografia, medicina e filosofia, bem como matemática e óptica. O pensador inglês Roger Bacon reconheceu: “A filosofia veio dos mulçumanos” (FERGUSON, 2016)”.

Então o que aconteceu? Em um paralelo histórico de tirar o fôlego de qualquer leitor atento aos acontecimentos da história recente, Ferguson nos leva à uma reflexão sobre o que levou o mundo muçulmano a ficar atrás do Ocidente no âmbito da ciência e sobre como uma revolução científica ajudou a civilização ocidental a dominar o mundo tanto em termos militares quanto acadêmicos. Segundo o autor do livro, é necessário recuar em mais de três séculos para conseguir refletir sobre esses temas.

“(…) o fim do século XVII, foi uma época de mudanças aceleradas na Europa em dois campos cruciais: a filosofia natural (como a ciência era então conhecida) e a teoria política. Nos anos que se seguiram a 1683, houve profundas mudanças no modo como o pensamento ocidental concebia a natureza e o governo. Em 1687, Isaac Newton publicou seus Principia. Três anos mais tarde, seu amigo John Locke publicou seu Segundo tratado sobre o governo. Se houve algo que diferenciou o Ocidente do Oriente foi o nível em que tais conhecimentos novos e profundos foram sistematicamente buscados e aplicados em cada uma dessas civilizações (…). No século XV, conforme vimos, a competição política e econômica havia dado ao Ocidente uma vantagem crucial sobre a China. No século XVIII, sua vantagem sobre o Ocidente era tanto uma questão de capacidade intelectual quanto de capacidade militar (FERGUSON, 2016)”.

O que Revolução Científica tem a ver com tudo isso?

“Pode-se dizer que a Revolução Científica começou com avanços quase simultâneos no estudo do movimento dos planetas e da circulação sanguínea. Mas o microscópio de Hooke levou a ciência a um novo patamar ao revelar o que, até então, era invisível ao olho humano. A Micrografia foi um manifesto em favor do novo empirismo, um mundo distante da feitiçaria de Fausto. No entanto, a nova ciência era mais que mera observação precisa. Começando com Galileu, consistiu na experimentação sistemática e na identificação de relações matemáticas. As possibilidades da matemática foram ampliadas, por sua vez, quando Isaac Newton e Gotfried Leibniz introduziram, respectivamente, o cálculo infinitesimal e o diferencial. Por fim, a Revolução Científica foi também uma revolução filosófica, visto que René Descartes e Baruch de Espinosa derrubaram teorias tradicionais sobre a percepção e a razão. Sem exagero, pode-se afirmar que essa sucessão de inovação intelectual deu origem à anatomia, à biologia, à química, à geologia, à geometria, à matemática, à mecânica e à física moderna (…) Aqueles que condenam o “eurocentrismo” como se este fosse um preconceito detestável têm um problema: a Revolução Científica foi, de acordo com toda e qualquer medida científica, totalmente eurocêntrica  (FERGUSON, 2016)”.

A Revolução Científica iria fornecer o solo fértil do qual brotaria o iluminismo que mudou a Europa e teve um forte impacto na comunidade judaica Ashkenazi que lá vivia. Além disso, pode-se dizer que foi a liberdade de pensamento, tanto religiosa quanto política, que contribuíram para o desenvolvimento científico do período – uma proporção incrivelmente alta de avanços científicos relevantes para o mundo (38%) ocorreu entre o início da Reforma e o início da Revolução Francesa. Enquanto tudo isso estava rolando no Ocidente, o progresso científico otomano era inexistente.

“A melhor explicação para essa divergência era a soberania irrestrita da religião no mundo muçulmano. No fim do século XI, clérigos islâmicos influentes começaram a afirmar que o estudo da filosofia grega era incompatível com os ensinamentos do Corão (…). Nas palavras de Abu Hamid al-Ghazali, autor de A incoerência dos filósofos, “É raro que alguém passe a se ocupar desta ciência [estrangeira] sem renunciar à religião e, com ela, o domínio da crença”. Sob influência do clero, o estudo da filosofia antiga foi tolhido, livros foram queimados, e os chamados livres-pensadores foram perseguidos; cada vez mais, em uma época em que as universidades europeias estavam ampliando o escopo de seus estudos. Também houve resistência à imprensa no mundo mulçumano (FERGUSON, 2016)”.

Neste capítulo Ferguson não apenas nos leva para um passeio pela história do Império Otomano, como também nos leva para um passeio pela história da Prússia de Frederico, o Grande. O tema de como religiões influenciam no desenvolvimento das civilizações vai ser analisado com mais detalhes no capítulo V do livro.

No Capítulo III. PROPRIEDADE, Ferguson faz um dos mais fascinantes paralelos históricos que o livro tem à oferecer para um leitor brasileiro, pois neste capítulo ele compara como se desenvolveu a ideia de como as pessoas deveriam ser governadas (santidade da liberdade individual e a segurança dos direitos de propriedade privada, garantidos por um governo constitucional e representativo) nos Estados Unidos e na América do Sul.

“(…) foi uma ideia o que levou à diferença crucial entre a América britânica e a ibérica – uma ideia sobre o modo como as pessoas deveriam ser governadas. Algumas pessoas cometem o erro de chamar essa ideia de “democracia” e imaginar que todo o país pode adotá-la simplesmente convocando eleições. Na realidade, a democracia foi o cimo de um edifício cuja base era o Estado de direito – para ser preciso, a santidade da liberdade individual e a segurança dos direitos de propriedade privada, garantidos por um governo constitucional e representativo (FERGUSON, 2016)”.

O autor começa a sua narrativa com a história de dois navios que chegaram as Américas. Um era destinado ao Equador e nele haviam 200 espanhóis, o objetivo deles era conquistar o Império Inca e assegurar para si uma parcela dos metais preciosos abundantes na região. O outro navio era destinado a costa da atual Carolina do Sul, entre os tripulantes estavam pessoas que emigravam em regime de servidão e tinham como objetivo encontrar uma vida melhor.

“Os dois navios simbolizaram essa narrativa das duas Américas. Em um, conquistadores; no outro, servos por contrato. Um grupo sonhava com a pilhagem imediata – das montanhas do ouro maia à sua disposição. Os outros sabiam que teriam anos de trabalho duro pela frente, mas também que seriam recompensados com um dos bens mais atraentes do mundo – terras norte-americanas de qualidade -, além da participação no processo de criação das leis. Propriedade mais representação: este era o sonho norte-americano (FERGUSON, 2016)”.

O que aconteceu com os espanhóis?

“Os espanhóis pareciam estar assentando as bases para uma civilização completamente nova e espetacular, a ser governada por uma minúscula elite próspera de homens nascidos na Espanha e situados em algumas poucas cidades ilustres (…). [Universidades foram criadas, os conhecimentos de cartografia e metalurgia floresceram e centenas de igrejas foram construídas], embora a Igreja fosse influente, o poder supremo estava nas mãos da Coroa Espanhola. E, o que é crucial, a Coroa era dona de todas as terras. A história da propriedade na América do Norte seria completamente diferente (FERGUSON, 2016 – as chaves foram editadas por Nina Avigayil Lobato)”.

O que aconteceu com os imigrantes ingleses que se destinavam à América do Norte?

“(…) eles carregavam um conjunto de ideias que tiveram profundas implicações para o futuro norte-americano. A primeira era a noção de direitos de propriedade que vinha se formando nos tribunais de direito comum (common law) – e nos Tribunais de Equidade – desde o século XII. A segunda ideia era a de um protestantismo militante (embora seja importante não esquecer que quarkers, católicos e judeus também desempenharam seu papel no povoamento da costa oriental). A terceira ideia era que a legitimidade da tributação dependia de aprovação do Parlamento; a Coroa era “abastecida” em troca de concordar com a reparação de injustiças por meio de legislação. Estas haviam sido as questões centrais da Guerra Civil Inglesa (FERGUSON, 2016).”

Como a briga entre Hobbes e Locke influenciou a colonização Americana?

“Embora tenha surgido uma única edição norte-americana dos Dois tratados antes de 1776 – e uma edição imperfeita, por sinal -, as ideias de Locke teriam uma grande influência sobre o desenvolvimento da sociedade e da política na América do Norte. Já a política latino-americana após a independência acabaria oscilando entre o anárquico estado de natureza de Hobbes e uma caricatura grosseira de seu soberano autoritário (FERGUSON, 2016).”

Neste capítulo, Ferguson continua a explorar o desenvolvimento do direito à propriedade em ambas as regiões (EUA e américa-latina), além de explicar o papel de Simon Bolívar na América do Sul e o papel da escravidão no desenvolvimento histórico de ambas as regiões.

“(…) Ao contrário, a América do Norte estava melhor que a do Sul pura e simplesmente porque o modelo britânico de direitos de propriedade privada e democracia amplamente distribuídos funcionava melhor que o modelo espanhol de riqueza concentrada e autoritarismo. Longe de ser indispensável para o sucesso, a escravidão e a segregação eram obstáculos ao progresso norte-americano, e seu legado ainda é dolorosamente visível nos problemas sociais – gravidez adolescente, baixo desempenho escolar, abuso de drogas e prisão desproporcional – que hoje atormentam tantas comunidades afro-americanas (FERGUSON, 2016).”

No capítulo IV. MEDICINA, Ferguson aborda a exploração do continente Africano pelos Impérios, os avanços da medicina que ocorreram na época, a pseudociência da eugenia, o genocídio que aconteceu na Namíbia e as sementes da Primeira Guerra Mundial.

Por que os Impérios queriam dominar a África?

“De meados do século XIX a meados do século XX, o Ocidente dominou o restante do mundo. Essa foi a era não só dos impérios como do imperialismo, uma teoria de expansão ultramarina que justificou a dominação formal e informal dos povos não ocidentais apresentando razões altruístas e egoístas. Império significava “espaço habitável” para o excesso populacional. Significava mercados de exportações garantidos, que uma potência rival não podia restringir com taxas alfandegárias. Significava retornos mais altos sobre os investimentos do que os que estavam disponíveis em casa. O império também podia ter uma função política, transformando os conflitos sociais da era industrial em um espírito belicioso de orgulho patriótico, ou gerando compensações para acalmar os ânimos de grupos de interesse poderosos. Mas também significou a disseminação da civilização, um termo usado cada vez com mais frequência para descrever todo o sistema de instituições marcadamente ocidentais (…): a economia de mercado, a Revolução Científica, a ligação entre propriedade privada e governo representativo. Também significou a disseminação do cristianismo, pois, no processo de construção do Império, os missionários foram quase tão importantes quanto os mercadores e os militares (FERGUSON, 2016).”

Sobre os avanços da medicina que ocorreram na época?

“(…) A Partilha da África se tornou sinônimo da divisão cruel de um continente inteiro por europeus opressores (…). Mas a luta pela África também foi uma luta por conhecimento científico, e esta foi tanto colaborativa quanto competitiva, com benefícios inegáveis para os nativos e também para os Europeus. O bacteriologista, muitas vezes arriscando a própria vida para encontrar a cura para afecções letais, foi outro tipo de herói imperial, tão corajoso, à sua maneira, quanto o soldado explorador (FERGUSON, 2016)”.

“As ferrovias também ajudaram a impor o domínio europeu ao interior africano. Mas espalharam duas outras coisas: não só o comércio de amendoim e borracha, como também o conhecimento médico ocidental, pois, sem melhorias na saúde pública, as ferrovias terminavam espalhando doenças, aumentando assim o perigo de epidemias. Isso seriam os Médicos sem Fronteiras ao estilo novecentista. Os benefícios foram muitas vezes negligenciados por aqueles como Gandhi, que afirmavam que os impérios europeus não tinham nenhuma característica redentora (FERGUSON, 2016)”.

“[remédios à base de ervas e uma pitada de profecia] esse tipo de medicina vem sendo praticado pelos africanos há centenas, talvez milhares de anos. É um dos motivos pelos quais a expectativa de vida na África permanece tão inferior à do Ocidente. As ervas e os feitiços são notadamente ineficazes contra a maioria das doenças tropicais (FERGUSON, 2016)”.

Sobre a colonização Alemã no sudoeste da África. Nas colônias alemãs do Sudoeste Africano, os negros eram proibidos de cavalgar, eram obrigados a bater continência para os brancos, não podiam caminhar nas trilhas de pedestres, não tinham direito de ter bicicletas ou frequentar bibliotecas. Nos tribunais de direito rudimentar da colônia, a palavra de um alemão valia o mesmo que a palavra de sete africanos. Os colonizadores eram multados por crimes como assassinato e estupro, para os quais africanos eram sumariamente enforcados. Os alemães não aboliram a escravidão dentro de suas colônias no século XX (ao contrário dos britânicos e franceses que fizeram esforços nesse sentido).

“Cada potência europeia tentou dominar a África à sua própria maneira. Os franceses (…) promoveram as ferrovias e os centros de saúde. Os britânicos fizeram mais do que simplesmente escavar em busca de ouro e caçar pelos vales; eles também construíram escolas missionárias. Os belgas transformaram o Congo em um vasto Estado escravo. Os portugueses fizeram o mínimo possível. Os alemães foram os últimos a chegar à festa. Para eles, colonizar a África era um experimento gigantesco para testar, entre outras coisas, uma teoria racial.  As primeiras potências colonizadoras, é claro, haviam sido motivadas por um senso de superioridade inata. De acordo com a teoria do “darwinismo social”, os africanos eram biologicamente inferiores, um obstáculo incoveniente ao desenvolvimento da África por parte dos “arianos” brancos, mais avançados. Mas nenhuma transformou essa teoria em prática social de maneira mais cruel que os alemães no Sudoeste Africano, na atual Namíbia (FERGUSON, 2016)”.

“O racismo não era uma ideologia reacionária e retrógada; aqueles que não tinham formação científica a abraçavam com tanto entusiasmo quanto as pessoas hoje em dia aceitam a teoria do aquecimento global causado pelo homem. Foi só na segunda metade do século XX que a eugenia e o conceito associado de “higiene racial” finalmente caíram em descrédito, com a percepção de que as diferenças genéticas entre as etnias são relativamente pequenas, e as variações no interior delas, muito grandes (FERGUSON, 2016)”.

Sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial.

“A guerra que começou em 1914 não foi uma guerra entre alguns poucos Estados europeus. Foi uma guerra entre impérios mundiais. Foi uma guerra no interior da civilização ocidental. E foi o primeiro sinal de que o ocidente carregava as sementes de sua própria destruição. Nessa guerra, mais do que qualquer conflito anterior, o Ocidente lançou seus incríveis aplicativos contra si próprio. A economia industrial favoreceu os meios de destruição mecanizada. E a medicina moderna também desempenhou seu papel nos negócios sanguinários da guerra (FERGUSON, 2016)”.

“Em muitos aspectos, (…) o Império Nazista foi a última encarnação abominável de um conceito que, em 1945, era obsoleto. Durante séculos, parecera plausível que o caminho para a riqueza fosse a exploração de povos estrangeiros e suas terras. Muito antes de a palavra Lebensraum [espaço vital] ter sido cunhada, conforme vimos, os impérios europeus haviam competido por novos lugares para colonizar, novos povos para tributar – e, antes deles, os impérios asiáticos, americanos e africanos. Mas, no decurso do século XX, pouco a pouco se tornou claro que uma economia industrial poderia funcionar perfeitamente bem sem colônias. De fato, as colônias talvez fossem fardo desnecessários (FERGUSON, 2016)”.

“(…) As guerras mundiais foram um terrível castigo que se seguiu a arrogância da mission civilisatrice, quando todos os impérios europeus aplicaram uns contra os outros os métodos que haviam explorado pela primeira vez (embora com graus variáveis de crueldade) contra os africanos. A ciência médica, que parecera um salvador do universo na guerra contra as doenças, acabou sendo pervertida pelo preconceito racial e pela pseudociência da eugenia, transformando até mesmo alguns médicos em assassinos. Em 1945, a “civilização ocidental” parecia uma contradição de termos, tal como Ganhdi havia afirmado, A rápida dissolução dos impérios europeus nos anos pós-guerra pareceu uma sentença bastante justa, independentemente de a maioria das colônias estar ou não preparada para o autogoverno (FERGUSON, 2016)”.

No capítulo V. CONSUMO, Ferguson explica o nascimento da sociedade de consumo e como a mesma foi importante para a civilização ocidental, a Revolução Industrial, as falhas da União Soviética na sua tentativa de competir com os Estados Unidos, e as falhas na teoria marxista.

“Os dois grandes saltos do Ocidente – a evolução industrial e a sociedade de consumo – estiveram, em grande medida, associados com roupas: primeiro tornando-as mais eficientes, e então usando-as de maneira mais reveladora. A disseminação do modo de vestir ocidental foi inseparável da disseminação do modo de vida ocidental, assim como a reação contra o modo de vestir ocidental no mundo islâmico é uma revivificação do islamismo no mundo (…) (FERGUSON, 2016)”.

Sobre a Revolução Industrial.

“Aquela grande transformação econômica que os historiadores há muito chamou Revolução Industrial – o salto quantitativo no padrão material de vida para uma parcela cada vez maior da humanidade – teve suas origens na manufatura têxtil. Foi, em parte, um milagre da produção em massa ocasionado por uma onda de inovação tecnológica, que teve sua origem na Revolução Científica (…). Mas a Revolução Industrial não teria começado na Grã-Bretanha e se espalhado para o restante do mundo sem o desenvolvimento simultâneo de uma sociedade de consumo dinâmica, caracterizada por uma demanda quase infinitamente elástica por roupas baratas. A mágica da industrialização, embora os críticos da época geralmente ignorassem esse aspecto, foi que o trabalhador era, ao mesmo tempo, consumidor. O “escravo assalariado” também fazia compras; o mais pobre dos proletários tinha mais de uma camisa, e aspirava ter mais de duas (FERGUSON, 2016)”.

A competição entre Estados Unidos e URSS, durante a guerra fria, demonstrou as falhas inerentes ao sistema soviético.

“O problema para a União Soviética era simples: os Estados Unidos ofereciam uma versão muito mais atraente da vida civil do que os soviéticos. E isso não só devido a vantagem inerente no que concerne à disponibilidade de recursos. Também porque o planejamento econômico centralizado, embora indispensável para o sucesso da corrida armamentista nuclear, era totalmente inadequado para satisfazer os desejos do consumidor. O planejador é mais capaz de conceber e entregar a arma decisiva para um único cliente, o Estado. Mas jamais pode esperar satisfazer os desejos de milhões de consumidores individuais, cujos gostos estão, de todo modo, em fluxo constante (FERGUSON, 2016)”.

No capítulo VI. TRABALHO, Ferguson explora a relação entre religião e desenvolvimento econômico-social. Através de uma releitura do clássico “A ética protestante do capitalismo” de Weber, o autor Niall Ferguson o “mundo cristão” da Europa, sobre religião, sobre o islamismo radical e sobre o possível declínio da civilização ocidental

“Quando Weber voltou a seus estudos em Heidelberg, escreveu a segunda e última parte de seu ensaio “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, que contém um dos mais influentes de todos os argumentos sobre a civilização ocidental: que seu dinamismo econômico foi uma consequência não intencional da Reforma Protestante. Enquanto outras religiões associaram a sacralidade com a renúncia aos bens materiais – monges em mosteiros, ermitões em cavernas -, as seitas protestantes viam os negócios e a prosperidade como manifestações de um novo tipo de divindade trabalhadora (FERGUSON, 2016)”.

Contudo, Ferguson propõe uma explicação alternativa para o dinamismo econômico da civilização ocidental – na opinião do autor, Weber estava certo, mas pelos motivos errados.

“Devido à importância central que a leitura individual da Bíblia ocupa no pensamento de Lutero, o protestantismo encorajou a alfabetização, sem falar da imprensa, e essas duas coisas sem dúvida impulsionaram o desenvolvimento econômico (a acumulação de “capital humano”), bem como o estudo científico (FERGUSON, 2016)”.

“De maneira geral, a crença religiosa (em oposição à observância formal) de todo tipo parece estar associada ao crescimento econômico, em particular onde os conceitos de céu e inferno fornecem incentivos para o bom comportamento neste mundo. Isso tende a significar não só trabalho duro e confiança mútua como também parcimônia, honestidade e franqueza com estranhos, todas elas características economicamente benéficas (FERGUSON, 2016)”.

Em uma parte deste capítulo, Ferguson explica a “livre concorrência da religião” que eu acho fascinante da cultura Americana e que contribuiu para a diversidade da comunidade Judaica Americana, mas que eu acho extremamente difícil de explicar para os Judeus brasileiros.

“Enquanto a Reforma foi nacionalizada na Europa, com a criação de igrejas estatais como a Igreja da Inglaterra ou a Kirk da Escócia, nos Estados Unidos sempre houve uma separação estrita entre religião e Estado, permitindo uma competição aberta entre várias seitas protestantes. E essa talvez seja a melhor explicação para a estranha morte da religião na Europa e seu vigor permanente nos Estados Unidos. Na religião, assim como nos negócios, os monopólios estatais são ineficientes – mesmo que, em alguns casos, a existência de uma religião estatal aumente a participação religiosa (onde há um subsídio generoso do governo e mínimo controle das nomeações eclesiástica). Em geral, a competição entre seitas em um mercado religioso livre encoraja as inovações concebidas para tornar mais gratificante a experiência do culto e da filiação à igreja. E isso o que mantém viva a religião nos Estados Unidos.  (Essa ideia não é totalmente nova. Adam Smith apresentou um argumento similar em A riqueza das nações, contrastando países com igrejas oficiais com aqueles que permitiam a competição) (FERGUSON, 2016)”.

Então, as perguntas que todos se fazem na internet (e que nós, alunos de Relações Internacionais tanto estudamos): o islã é uma ameaça a civilização ocidental? A imigração em massa é um solvente da civilização? É possível assimilar imigrantes que vem de lugares que não possuem valores ocidentais?

“Na realidade, os principais valores da civilização ocidental são diretamente ameaçados pelo tipo de islamismo mantido por terroristas como Muktar Said Ibrahim, derivado, como é, dos ensinamentos wahhabistas Sayyid Jamal al-Din, do século XIX, e dos líderes Hassan al-Banna e Sayyid Qutb, da Irmandade Muçulmana. A separação entre Igreja e Estado, o método científico, o Estado de direito e a própria ideia de uma sociedade livre – incluindo princípios relativamente recentes como igualdade dos sexos e a legalidade dos atos homossexuais -, todas essas coisas são abertamente repudiadas pelos islamitas (FERGUSON, 2016)”.

“A imigração em massa não é necessariamente o solvente de uma civilização, se os imigrantes abraçarem, e forem encorajados a abraçar, os valores da civilização para a qual estão se mudando. Mas, nos casos em que as comunidades de imigrantes não são bem assimiladas e então se tornam presas de ideólogos radicais, as consequências podem ser profundamente desestabilizadoras. O ponto crucial não é tanto os números absolutos quanto a intensidade com que algumas comunidades muçulmanas foram permeadas por organizações islâmicas como a árabe Irmandade Muçulmana… Seu caso indica que oportunidades econômicas, educativas e de lazer não são capazes de evitar que o filho de um imigrante muçulmano seja convertido em um fanático terrorista se as pessoas erradas se aproximarem dele. Nesse aspecto, um papel crucial está sendo desempenhado nas universidades e em outras partes por “centros” islâmicos, alguns dos quais são pouco mais que agência de recrutamento para a jihad (FERGUSON, 2016)”.

Então, vivemos o fim da civilização ocidental?

“A ideia de que estamos condenados – de que o declínio e a queda são inevitáveis, de que as coisas só podem ficar piores – está profundamente ligada à nossa própria consciência de mortalidade (…). Mas o que nos esforçamos por decidir é como exatamente esse processo de declínio e que queda se dá no âmbito das complexas estruturas sociais e políticas. As civilizações desmoronam com um golpe, no campo de batalha do Armagedon, ou com um lamento longo e demorado? (FERGUSON, 2016)”.

Na CONCLUSÃO, Ferguson aproveita para explorar as possibilidades de um conflito futuro entre China e Estados Unidos, bem como para fazer uma análise crítica do famoso ensaio de Samuel Huntington e para nos alertar que a noção de nascimento, crescimento e morte, no processo de desenvolvimento histórico de uma civilização é um erro, pois a história pode ser arrítmica – as vezes estacionária, mas também capaz de aceleração violenta.

O livro “Civilização: Ocidente x Oriente”, escrito por Niall Ferguson, é uma leitura obrigatória para toda aluno do curso da área de Humanas. Além de ser fácil de ler, este é um livro enriquecedor. Além disso é extremamente importante aprender sobre os valores ocidentais. “Talvez a ameaça definitiva do Ocidente venha não do islamismo radical nem de outra força externa, e sim de nossa falta de compreensão e de fé com relação a nossa própria herança cultural (Niall Ferguson)”. Eu não preciso nem escrever porque um aluno de Relações Internacionais deveria ler esse livro, mas… Relações Internacionais não passa de história aplicada!

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