[LIVRO] “Paris é uma festa”, escrito por Hemingway.

Quem é Ernest Hemingway?

 

Hemingway I
Ernest Hemingway’s 1923 passport photo.
Ernest Hemingway Photograph Collection/John F. Kennedy Presidential Library – Fonte: Encyclopedia Britannica

 

Hemingway (1899-1961) é um dos pilares da literatura contemporânea mundial. Nascido em 1899, começou a escrever aos 18 anos para um jornal. Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, alistou-se como voluntário, tornando-se motorista de ambulância para o Exército da Itália. Após ser ferido, recebeu uma condecoração do governo italiano. Ao voltar para os Estados Unidos, trabalhou como repórter para jornais americanos e canadenses, e então voltou para a Europa, cobrindo eventos como a Revolução Grega. Durante os anos de 1920, tornou-se membro de um grupo de expatriados americanos em Paris – este grupo ficou conhecido como “a geração perdida”. Hemingway descreveu esta geração em seu primeiro livro, “O sol também se levanta” (1926). Ele ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1954. Hemingway era fascinado por esportes, guerras e viagens pelo mundo. Ele parecia acreditar que para uma pessoa sobreviver neste mundo, era necessário que ela tivesse: honra, coragem, resistência, e dignidade (esses eram os princípios básico do “Hemingway code”).

 

Sobre o livro.

 

“Se, para ele, Pound era cândido e compreensivo anjo – não importa como se comportou mais tarde, sob o fascismo -, se Fritzgerald era o belo e perturbado homem de talento que a vida, fácil pelo sucesso rápido e amarga pela infelicidade quase constante, foi impiedosamente secando, Hemingway não poupa os que o aborreceram no Paraíso daquela juventude cheia de esperanças e encantamento. Paris é uma festa mostra-nos o escritor no momento em que está, por assim dizer, fechando o círculo de sua atividade intelectual. Foi em Paris, nessa festa móvel que se carrega no coração, que ele abriu as asas. E foi depois de ter escrito estas evocações parisienses, repletas de terra candura, quando recapturou, durante algum tempo, a felicidade perdida, o gosto da descoberta e da invenção, que Hemingway se despediu de nós (Énio Silveira, 2013)”.

“Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena e retribui tudo aquilo que você lhe dê. Mas, neste livro, quis retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muito pobres e muito felizes (Hemingway, “Paris é uma festa”).

 

Hemingway II
Da direita para a esquerda, Ernest Hemingway e Silvia Beach, a dona da livraria Shakespeare & Company, um dos points frequentados pelos escritores em Paris, nos anos 1920. Foto de 1928 – Fonte: Roteiros Literários.

 

O livro “Paris é uma festa” constitui-se de um conjunto de vinhetas, escritas por Ernest Hemingway, sobre a sua primeira vida em Paris. Nele você encontra personagens que faziam parte da “geração perdida”, além de poder ler, sobre a Europa do pós-Primeira Guerra Mundial e sobre a dura vida de um escritor. Este é um livro leve e divertido, ao mesmo tempo em que é profundamente honesto.

 

Da crônica “Miss Stein Pontifica”, destaco:

“Se começasse a escrever rebuscadamente, ou como se estivesse defendendo ou apresentando alguma coisa, percebia logo que podia cortar esses floreados ou ornamentos, jogá-los fora, e começar com a primeira proposição afirmativa verdadeira e simples que estivesse escrito. Foi lá naquele quarto que decidi escrever um conto a respeito de cada coisa que conhecesse realmente bem. Era o que me esforçava para fazer, sempre, e esse método constituía uma boa e severa disciplina.

Foi naquele quarto, também, que aprendi a não pensar mais sobre o que estivesse escrevendo, desde o momento em que parasse até começar de novo, no dia seguinte. Desse modo, esperava eu, o subconsciente ficaria trabalhando no assunto e, ao mesmo tempo, eu daria ouvidos às outras pessoas e perceberia o mundo em torno de mim; a fim de não me obcecar com o meu próprio trabalho e tornar-me impotente para executa-lo. Descer as escadas quando tinha trabalhado bem – o que requeria um tanto de sorte quanto de disciplina – era uma sensação maravilhosa e só então me julgava livre para andar a esmo em Paris (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”).”

 

Da crônica “Shakespeare and Company”, destaco:

“Nessa rua fria, varrida pelo vento, a Shakespeare and Company era um lugar acolhedor e alegre, como um grande fogão aceso no inverno, mesas e estantes de livros, novidades na vitrine e nas paredes, fotografias de famosos escritores vivos e mortos. Todas as fotografias pareciam instantâneas, e até mesmo os escritores mortes tinham um ar muito vivo (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”) ”.

 

Da crônica “Uma falsa primavera”, destaco:

“Quando a primavera chegava, mesmo que se tratasse de uma falsa primavera, nossos problemas desapareciam, exceto o de saber onde se poderia ser mais feliz. A única coisa capaz de nos estragar um dia eram as pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

Da crônica “A fome como uma disciplina”, destaco:

“Era um conto muito simples, intitulado Fora da Temporada, e eu omitira seu final lógico, que seria o suicídio do velho, por enforcamento. Fizera isso com base na minha nova teoria de que sempre se pode omitir qualquer coisa de um conto, desde que se saiba o que se omitiu e a parte omitida reforce a narrativa, fazendo com que os leitores sintam alguma coisa além daquilo que entenderam (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

Da crônica “Com pascin no dôme”, destaco:

“As pessoas de quem eu gostava, mas que não conheciam, iam aos grandes cafés porque se podiam perder neles; ninguém as notava e, assim, podiam estar sós e ao mesmo tempo acompanhadas. Além disso, os grandes cafés eram baratos então, tinham boa cerveja e apéritifs a preços razoáveis, claramente marcados nos pires que os acompanhavam.

(…)

De qualquer maneira, éramos ainda muito pobres e eu vivia obrigado a enganar minha mulher, inventado que recebera convites para almoçar fora. Passava duas horas andando pelos jardins do Luxemburg e, depois, voltava para contar-lhe maravilhas dos tais almoços. A economia era pequena, mas quando se tem vinte e cinco anos e a compleição de um peso-pesado, a falta de uma refeição sólida nos dá uma fome tremenda. Em contrapartida, nosso sentido de percepção se aguça, e eu descobri que muitos dos meus personagens tinham apetite formidável, uma grande paixão pelas corridas e viviam procurando oportunidade para tomar uma bebida (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

Da crônica “Erza Pound e o seu Bel Espirit”, destaco:

“Muitas senhoras americanas e francesas, com dinheiro sobrando, mantinham salões literários como esse, e eu cheguei logo à conclusão de que eram lugares excelentes para eu me manter afastado deles (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

Da crônica “Scott Fritzgerald”, destaco:

“Seu talento era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta. Houve uma época em que ele tinha tanta consciência disso quanto a borboleta, não ligando para o fato de que seu talento poderia apagar-se ou desaparecer de todo. Mais tarde começou a preocupar-se com as asas feridas e sua estrutura. Aprendeu a refletir, mas há não conseguia voar porque o amor ao voo o abandonara. Restava-lhe apenas as lembranças dos dias em que voar fora um ato natural [sobre Fritzgerald] (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

(…)

“Como eu vinha de há algum tempo tentando despojar minha literatura, libertando-a de toda e qualquer concessão, procurando antes construir do que descrever, o trabalho literário me fascinava. Mas era uma tarefa difícil e penosa e eu não sabia quando me sentiria encorajado a tentar uma obra tão longa como um romance. Às vezes, escrever um único parágrafo tomava-se uma manhã inteira (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

Da crônica “Paris continua dentro de nós”, destaco:

“A pior lembrança que guardo daquele inverno catastrófico é a de um homem sendo desenterrado. Estava de cócoras e fizera com os braços uma proteção à frente da cabeça, como nos haviam ensinado, para que houvesse ar respirável quando a neve nos cobrisse. Fora uma avalanche tremenda e levou bastante tempo para que se conseguisse retirar todos os que haviam sido soterrados. O tal homem foi o último a ser encontrado. Havia morrido há pouco, e seu pescoço fora lanhado de tal maneira que os tendões e os ossos estavam à mostra. Devia ter feito movimentos frenéticos com ele, sob a pressão que o esmagava. Por certo havia blocos de neve mais sólidos, misturados com a neve recente e leve que deslizara, e eles o havia cortado como navalha. Não pudemos descobrir se o homem apressara a morte deliberadamente ou se perdera o controle. Só seu que o padre da localidade não quis que fosse enterrado com o ritual da igreja, mesmo porque ninguém pôde provar que a vítima fosse católica (HEMINGWAY, “Paris é uma festa”)”.

 

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Foto do livro “Paris é uma festa”, escrito por Hemingway – Foto de Nina Avigayil Lobato.

 

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