[LIVRO] “Uma Juventude na Alemanha”, escrito por Ernst Toller.

Quem é Ernst Toller (1893-1939)?

 

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Ernst Toller em 1939, nos Estados Unidos – Fonte: United States Holocaust Memorial.

 

Ele é um dos expoentes do impressionismo alemão e autor de várias peças que fizeram sucesso na sua época, entre elas, “Die Wandlung” e “Masse Mensch”. Ele nasceu em uma família burguesa judia na parte oriental do Império Alemão (um território que hoje é parte da Polônia, mas que no passado tinha enclaves populacionais de língua alemã). Toller lutou na Primeira Guerra Mundial e, em 1919, ele participou de uma revolução socialista que tentou estabelecer o Comitê Central da revolução Soviética da República da Bavária. Esta revolução socialista foi suprimida e ele foi sentenciado a dez anos de prisão. Com ascensão do Nazismo, ele emigrou para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos (semelhante ao escrito alemão Thomas Mann). Devido a imensa popularidade de sua obra na época, o regime nazista e Joseph Goebbels declararam Toller um inimigo do Terceiro Reich. Além da dificuldade de se adaptar a vida no exterior, Ernst Toller teve que lidar com a notícia de que seus irmãos haviam sido enviados para campos de concentração. Toller se matou em 1939. Os textos de Ernst Toller têm uma forte influência da época em que o autor viveu.

 

Sobre o livro.

“Uma Juventude na Alemanha” é uma biografia de Toller, escrita por ele mesmo, sobre os seus anos de juventude na Alemanha entre 1918 e 1919. Segundo o autor, saber o que aconteceu nesse período é essencial para entender a derrocada da Alemanha em 1939.

 

“Biografias raramente alcançam a complexidade de uma existência individual. Muitos traços do “homem inteiro” permanecem nas sombras e o único dever de todos os momentos, segundo uma frase de Karoline de Guderodes, é a de determinar o indivíduo e torna-lo inteligível, em especial em um livro como este, que retrata um homem publicamente ativo.”

“Não é apenas a minha juventude que está aqui registrada, mas a juventude de uma geração e, além disso, parte da história de uma época. Essa juventude trilhou muitos caminhos, seguiu falsos ídolos e falsos líderes, mas nunca deixou de buscar o esclarecimento e de seguir os preceitos do espírito (Toller)”.

 

Ernest Toller, na introdução de seu livro, faz um alerta interessante para os que, como eu, leem e estudam sobre política, sobre os legados dos anos que ele descreve no livro. Ele se questiona se aprendemos algo com eles ou se tudo foi em vão.

“Os republicanos, que entregaram a República a seus inimigos.

Os revolucionários, que, perdidos em teses e palavras de ordem, esqueceram a vontade das pessoas e suas decisões.

Os funcionários dos sindicatos, que, sobre suas caixas cheias, não viram a força crescente do adversário, que viria a varrê-los, assim como a suas caixas.

Os burocratas, que sufocaram a coragem espontânea, a ousadia e a fé.

Os doutrinários, que preferiram ocupar-se com conflitos sobre sutilezas e indicar objetivos claros e nobres ao povo.

Os escritores, que produziram uma imagem fantástica do trabalhador em luta e esmoreceram quando encontraram o trabalhador real, com suas fraquezas e suas forças, sua pequenez e sua grandeza.

Os adeptos da Realpolitik, que estiveram surdos para a magia da palavra, cegos para o poder da ideia e mudos diante da força do espírito.

Os fetichistas da economia, que chamaram as forças morais do povo e os grandes motivadores do homem – a ânsia pela liberdade, justiça e beleza – de maus costumes burgueses.

Não, eles não aprenderam nada nesses quinze anos, esqueceram tudo e não aprenderam nada. Obstinadamente eles fracassaram, repetidamente foram derrotados, açoitados e torturados (Toller)”.

 

A biografia de Toller é um relato pessoal, escrito por alguém que viveu no mundo Europeu no período da Primeira Guerra Mundial e, como tal, deve ser analisando dentro de um contexto, sempre levando em consideração o background do autor. É um ótimo livro para que os interessados em história percebam não apenas os fatos políticos de um grande momento histórico, mas como era a vida, quais eram as aspirações e quais foram as experiências vividas pelas pessoas comuns que viveram os grandes momentos históricos. Um exemplo prático disso se dá quando o autor descreve o nacionalismo exacerbado e a rivalidade entre Franceses e Alemães, não importa o quanto você leia sobre equilíbrio de poder na Europa, não é possível ter uma visão completa do período sem os relatos de pessoas como Ernst Toller. Um livro como “Uma Juventude na Alemanha” oferece ao leitor experiente a oportunidade de perceber os eventos históricos nas suas várias camadas e, para o leitor aventureiro, um relato emocionante sobre um dos períodos mais conturbados da história mundial.

 

“É, vivemos entorpecidos emocionalmente. As palavras “Alemanha”, “pátria” e “guerra” ganham uma força mágica quando as pronunciamos. Elas não evaporam, pairam no ar, dançam em torno de si mesmas, inflamam a si mesmas e a nós (…)”

“Uma noite, ouvimos gritos, gritos como o de uma pessoa sofrendo dores terríveis, e então tudo fica quieto. “Alguém está prestes a morrer”, pensamos. Depois de uma hora, voltam os gritos. E agora eles não param mais. Não essa noite. Nem na próxima noite. É um grito que choraminga nu e inarticulado, não sabemos se ele parte da garganta de um alemão ou de um francês. O grito tem, vida própria, ele acusa a terra e o céu. Apertamos as mãos contra nossos ouvidos para não ouvir o choramingar, mas não adianta. O grito fica revolvendo como um pião em nossas cabeças, ele estica os minutos em horas, as horas em anos. Entre sons vamos secando e envelhecendo.”

“Acabamos descobrindo quem grita. É um dos nossos, ele está pendurado na barreira de arame, ninguém pode resgatá-lo. Dois tentaram e foram baleados. O filho de alguma mãe resiste desesperadamente à sua morte. Maldição, ele faz um escarceu tão grande, vamos ficar loucos se ele continuar gritando por muito tempo.”

“A morte cala-lhe a boca no terceiro dia (Ernest Toller).”

 

Na parte final da narrativa de Toller, ele faz uma breve descrição das notícias que tinham ouvido sobre Adolf Hitler, até então um arruaceiro que liderou um golpe mal sucedido e foi preso.

 

“Hitler incita o povo a um nacionalismo raivoso. Não me lembro de ter ouvido o seu nome quando, há dois anos, nós, os “inimigos internos”, começamos a lutar contra a injustiça do Tratado de Versalles. Durante a revolução ele também esteve em silêncio.”

“Um preso me conta que encontrou um pintor de casa austríaco Adolf Hitler em uma caserna em Munique nos primeiros meses da república. Àquele momento, Hitler se declarava um social-democrata. Esse homem lhe chamou atenção porque ele desandava a falar suas tolices de forma “tão erudita e pomposa”, como alguém que lê muitos livros, mas não os digere. Mas ele não o levou a sério, pois o suboficial médico revelou que, na guerra, Hitler retornou do front diretamente para o hospital militar, com sérios transtornos de nervos e cego. Uma vez no hospital, porém, ele subitamente pôde ver de novo.”

“Essa cegueira me coloca a pensar. Que forças deve ter um homem para conseguir ficar cego diante de uma época que ninguém quer ver (Ernst Toller).”

 

Além de relatos sobre momentos tão relevantes para a história do século XX, o autor nos emociona com a sua própria reflexão à respeito da vida e de sua identidade Judaica. O que dá às últimas partes do livro uma emoção especial, pois hoje sabemos o que aconteceu nos anos seguintes, com o mundo e com o povo Judeu. Este é um relato emocionante, escrito por um jovem Judeu idealista e que viveu anos de grandes mudanças históricas. Se o leitor descontar o lado idealista do autor – algo compreensível dado a sua idade e a época na qual viveu -, este é um livro cujas páginas transbordam de relatos pessoais de um mundo destruído e enterrado pela Segunda Guerra Mundial. Através dessas páginas é possível ler os relatos de um jovem alemão sobre os principais eventos do início do século XX.

 

“Não acredito na “má” natureza do homem. Acredito que ele comete as maiores atrocidades por falta de imaginação, por letargia do coração.”

“Ora, eu mesmo, quando eu li sobre a fome na China, os massacres na Armênia, os presos perseguidos nos Balcãs, não deixei o jornal de lado e prossegui com as minhas tarefas diárias habituais, sem parar nenhum minuto para pensar naquilo tudo? Dez mil famintos, mil fuzilados: o que esses números significavam para mim? Eu simplesmente os li e uma hora mais tarde já os havia esquecido. Falta de imaginação. Quantas vezes não deixei de ajudar os que necessitavam de ajuda? Letargia do coração.”

“Se tantos as pessoas ativas como aquelas que nada fazem vissem com os seus próprios olhos o que fazem e o que deixam de fazer, o homem deixaria de ser o pior inimigo do homem.”

“A mais importante tarefa das escolas de amanhã é desenvolver a imaginação humana da criança, sua capacidade de empatia, combater e superar a letargia de seu coração.”

(…)

“Penso no começo da minha juventude, na dor do garoto que era chamado de “Judeu” pelos outros moleques, no meu diálogo infantil com a imagem do Salvador, na terrível alegria que senti quando, no primeiro dia da guerra, não fui mais reconhecido como Judeu, na minha vontade apaixonada de provar, arriscando a minha vida, que sou alemão, nada mais que alemão. No campo de batalha, eu havia escrito à justiça que ela podia riscar o meu nome da comunidade Judaica. Tudo isso foi à toa? Ou eu estava enganado? Eu não amo este país? Em meio às esplêndidas paisagens do mar mediterrâneo, eu não ansiava pelas austeras e arenosas florestas de pinheiros, pela beleza dos plácidos lagos ocultos do Norte da Alemanha? Os versos de Goethe e Holderlin, que eu li quando garoto, não me causavam um grato arrebatamento? A língua alemã não é a minha língua, a línga na qual eu sinto e penso, falo e ajo, ela não é parte do meu ser, o lar que me nutre e no qual eu cresci?”

“Mas não sou também Judeu? Não pertenço ao povo que há milênios é perseguido, expulso, atormentado e assassinado? Cujos profetas ecoaram pelo mundo o grito por justiça, acolheram os miseráveis e oprimidos e nunca mais os abandonaram, cujos membros mais corajosos não se dobraram e preferiram morrer a serem infiéis a seu povo? Eu queria negar a minha mãe, e isso me envergonha. O fato de uma criança ser levada ao caminho da mentira já é, por si só, uma enorme censura contra todos os que tiveram parte disso.”

“Mas isso me torna um estrangeiro na Alemanha? É só o sangue, essa ficção, que pode servir de prova? Não a terra onde cresci, a língua que amo, o espírito que me moldou? Como escritor, não luto para encontrar a palavra perfeita? Se alguém me perguntasse onde estão as minhas raízes alemãs e onde estão as judaicas, eu não saberia o que dizer.”

“O nacionalismo fanático e a ridícula arrogância racial se agitam em todos os países. Eu também devo participar da loucura destes tempos, do patriotismo desta época? Não sou socialista justamente porque acredito que o socialismo vai superar o ódio das nações, bem como das classes?”

“As palavras “tenho orgulho de ser alemão”, ou “tenho orgulho de ser Judeu” soam-me tão tolas, como se uma pessoa dissesse: “tenho orgulho de ter olhos castanhos””.

“Devo cedo à insanidade dos perseguidores e, em vez da arrogância alemã, assumir a judaica? Orgulho e amor não são a mesma coisa, e se alguém me perguntasse qual é o meu lado, eu responderia: “Eu nasci de uma mãe Judia, Alemanha me nutriu, a Europa me cultivou, meu lar é a terra, o mundo é a minha pátria” (Ernst Toller).”

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Foto da capa do livro “Juventude na Alemanha”, escrito por Toller – Fonte: Roteirista na Yeshiva.

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