Rússia, Putin, Eleições de 2018 e o Ciclo Desvirtuoso de Influência.

A geografia da Rússia

 

A Rússia é uma potência terrestre e as potências terrestres sempre estão inseguras. Sem mares que as protejam, tais potências estão conscientes da fragilidade de suas fronteiras. Por isso, buscam se expandir de maneira contínua para evitar que sejam conquistadas por invasores. “É o caso especialmente dos russos, cujo território plano é quase desprovido de fronteiras naturais e proporciona pouca proteção (Kaplan, 2013)”. A região montanhosa do Cáucaso são uma barreira natural para essa potência eurasiana que é a Rússia, tal barreira natural é essencial se os russos pretendem se proteger das instabilidades políticas e religiosas do Oriente Médio. O clima da Rússia é muito frio. Tanto a geografia quanto o clima favoreceram formas centralizadas e autoritárias de governo (o jugo Tártaro instalou nos russos maior tolerância à tirania), bem como gerava no povo russo uma capacidade de suportar sofrimentos, disposição de sacrificar o indivíduo pelo coletivo, medo de invasões estrangeiras e forte interdependência entre agricultores.

“O fato do frio não permitir maiores excedentes incentivava as elites do emergente Estado Russo a procurar adquirir o controle de áreas mais amplas e eliminava qualquer estímulo para que os lavradores se empenhassem mais de maneira espontânea (Kaplan, 2013).”

 

 

Uma breve história dos “czares” russos

 

“Quem quer que governe a Rússia terá que encarar o problema dessa massa de terra perigosamente plana que avança sobre os Estados contíguos em várias direções (Kaplan, 2013)”.

PRINCIPADO DE KIEV (Século IX)

Este principado trouxe o cristianismo ortodoxo e reuniu duas forças regionais dinâmicas: os vikings e bizantinos. Aqui começou o império russo. Esta foi uma fase que durou até a invasão dos Mongóis. No período do Principado de Kiev, o centro político da Rússia foi se deslocando para o norte (Smolensk, Novgrorod, Vlasdimir e Mascou). “O período medieval se caracterizou pela autocracia e paranoia – em parte, em decorrência da pressão exercida pelos mongóis –, a ascensão de Moscou à posição de prominência foi favorecida pela sua posição vantajosa para o comércio (Kaplan, 2013)”. A Moscou medieval era cercada por inimigos (à leste, havia taija, estepes e mongóis; no sul, os turcos e os mongóis negavam a saída russa para o mar negro; no oeste e noroeste, suevos, poloneses e lituanos bloqueavam a passagem russa para o mar báltico). Este cerco só foi rompido pelos russos por Ivan IV. Este último abraçou a herança trazida pelos refugiados de Constantinopla (após a destruição da Bizâncio grega, em 1453, pelos Otomanos) e entendeu que a única resposta para o caos era o absolutismo. Ele fez várias guerras para expandir as fronteiras e tentou assegurar o bastião no Báltico, mas foi derrotado pela liga hanseática e pela Ordem Livoniana Germânica. Esta derrota levaria a Rússia à um crucial isolamento do ocidente.

As primeiras investidas russas no sentido de um império central, no fim do século XVI e no início do século XVII, criou a fama dos cossacos (empregados pelo Estado Russo para guerrear e consolidar a posição deste Estado no Cáucaso). A violência e a falta de humanidade com que a literatura de ficção narra as ações dos russos e dos cossacos em guerras é, em parte, “uma expressão da geografia da estepes russas e ucranianas, onde a horizontalidade, a continentalidade e as rotas de migração acarretaram conflitos e rápidas mudanças de rumo (Kaplan, 2013)”. Mas, todos os longos períodos de estabilidade e expansão dos impérios russos chegam ao fim – este é comumente marcado por períodos de instabilidade e turbulência até que um novo czar surgir. A Moscou medieval riu devido ao sectarismo interno. Russos, poloneses, lituanos e cossacos disputaram o que restou dela. Assim, acabava a “terceira Roma” (depois de Roma e Constantinopla) e se seguia um período turbulento.

MIGUEL ROMANOV E A DINASTIA ROMANOV.

Essa dinastia durou 300 anos e teve como principal líder o Pedro, O Grande (séculos XVII à XVIII). Ele construiu São Petersburgo, fracassou ao tentar mudar a identidade política e cultural de seu país (por ser um país eurasiano, os russos sempre se sentiram afastados da Europa e chegaram a ter períodos da história no qual tinha um sentimento de inferioridade em relação as potências da Europa. Pedro, o Grande, tentou tornar a Rússia mais europeia, mas fracassou parcialmente na sua empreitada) e viu a consolidação do litoral báltico russo. A dinastia Romanov trouxe mecanização e maior organização administrativa para o Império, ou seja, contribuiu para a modernização da Rússia. Essa dinastia também viu momentos de expansão e recuo do império (disputaram a Polônia e disputaram a porção ocidental com Napoleão em 1812).

“Enquanto os impérios marítimos da França e da Grã-Bretanha depararam-se com inimigos implacáveis no além-mar, os russos enfrentaram os seus dentro do seu território; desse modo, muito cedo aprenderam a manter-se ansiosos e vigilantes. Constituíram uma nação que, de uma maneira ou de outra, esteve sempre em guerra (Kaplan, 2013)”.

O destino manifesto russo tem as suas raízes na insegurança histórica da Rússia como potência terrestre que precisa estar em constante ataque e exploração em todas as direções. Tal destino manifesto de expressa no surto de construções de ferrovias integrando o país durante a dinastia Romanov, bem como na conquista da Rússia sobre a Bielorrússia e Ucrânia (ambos os países possuem estreitos laços culturais e históricos com os russos), conflitos no Cáucaso e na exploração da geografia siberiana. Esta última, marcada pela crueldade e riqueza estratégica, colocou a Rússia na geopolítica do pacífico e trouxe à superfície duas características marcantes do destino manifesto russo: as riquezas naturais como fonte de poder e sombrios traços morais.

“O súbito aparecimento da Rússia entre as grandes potências europeias de princípios do século XVIII estava relacionado aos ricos depósitos de minério de ferro encontrados nas florestas dos Urais, perfeitos para a produção dos canhões e mosquetes imprescindíveis à guerra moderna. Do mesmo modo, em meados da década de 1960, a descoberta de vários campos de petróleo e gás natural no noroeste da Sibéria guindaria a Rússia ao status de hiperpotência energética no começo do século XXI (Kaplan, 2013)”.

 

RÚSSIA E RECURSOS NATURAIS
“A Rússia se orgulha das maiores reservas de gás natural do mundo, da segunda maior reserva de carvão e da oitava maior de petróleo, boa parte das quais se encontra na Sibéria Ocidental, entre os Urais e o Planalto Central Siberiano. Além disso, claro, há as imensas reservas de energia hídrica nas montanhas, rios e lagos da Sibéria Ocidental, num momento da história em que a escassez de água é crítica para não poucas nações, especialmente a China. Em seus sete primeiros anos no cargo, Putin usou a receita gerada pela energia para quadruplicar o orçamento militar, em especial o da Aeronáutica; e, desde então, ele só tem feito crescer. Em virtude da geografia – a Rússia, como já disse, não dispõe de fronteiras topográficas evidentes além dos oceanos Ártico e Pacífico -, os russos parecem aceitar “a arraigada militarização” de sua sociedade e a “interminável busca por segurança, por intermédio do estabelecimento de um império terrestre”, que Putin, graças ao seu califado energético, vem lhes proporcionando. Em lugar da liberalizar a Rússia e estender seu poder brando em todo o seu potencial pela ex-União Soviética e o Rimland eurasiano adjacente, Putin optou por um expansionismo neoczarista, que, no curto prazo, os abundantes recursos naturais do país tornam possível (…).
RÚSSIA E O RESSURGIMENTO DO ISLÃ
“Em muitos desses lugares, da Tchetchênia, na Ciscaucásia, ao Tadjiquistão, bem ao lado da China, a Rússia tem que lidar com o ressurgimento do Islã ao longo de uma vasta fronteira meridional que, historicamente, integrava o reino cultural e linguístico da Grande Pérsia. Por conseguinte, a recuperação das repúblicas perdidas pela Rússia, mediante o estabelecimento de uma esfera de influência que as abrace, definitivamente depende da cordialidade de um Irã que não dispute essas áreas com os russos e não exporte para lá o radicalismo islâmico. A Rússia, por razões calcadas na geografia, não pode oferecer aos Estados Unidos mais que um parco auxílio em sua campanha contra o regime iraniano (Kaplan, 2013)”.

 

 

A UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS (URSS).

Em lugar do regime semimodernizado adotado por Pedro, o Grande, que governava a Rússia do Báltico (“janela para o Oriente”) surge um Estado administrado pelo Kremlin, a sede histórica semiasiática da Moscóvia medieval. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) era um cárcere de nações cuja religião nacional – um equivalente secular à ortodoxia – era o comunismo. A guerra fria, que parecia interminável para quem viveu o período, acabou como outros momentos de expansão da história da geopolítica russa.

“A recorrência do ciclo de expansão e colapso, em uma topografia basicamente plana, é a característica central da história russa (…). Com efeito, (…) por mais que a fronteira aberta e o ônus militar por ela engendrado tenham “fomentado a centralização do poder russo” – e, de fato, o poder dos czares era legendário – a Rússia era, não obstante, um Estado fraco, porque os czares não desenvolveram instituições administrativas robustas nas províncias remotas, o que, por sua vez, tornou a Rússia ainda mais vulnerável a invasões (Kaplan, 2013)”.

O desmantelamento do império soviético – evento que o Presidente Putin definiu como a maior catástrofe geopolítica do século XX – lembrou a Rússia de sua posição de vulnerabilidade, pois a mesma perdeu as montanhas e os estepes em suas fronteiras. Tal como no fim dos outros impérios russos, houve desordem após o desmantelamento da URSS e ocorreu o ressurgimento da doutrina oiticentrista do eurasianismo (algo que esta de acordo com a história e geografia da Rússia).

“Em vista dos altos e baixos da história russa, aos quais vieram a somar-se suas novas vulnerabilidades geográficas, a Rússia não teve outra escolha senão tornar-se uma potência revisionista, decidida a reconquistar – de qualquer maneira, sútil ou não, – seu exterior imediato na Bielorrússia, na Ucrânia, na Moldávia, no Caucaso e na Ásia central, onde ainda viviam 26 milhões de pessoas de etnia russa. Durante a década perdida dos anos de 1990, enquanto a Rússia oscilava à beira de um colapso econômico e permanecia, por conseguinte, fraca e humilhada, um novo ciclo de expansão encontrava-se, não obstante, em gestação (Kaplan, 2013)”.

QUAIS SÃO OS ATUAIS DESAFIOS RUSSOS?
Entre os principais desafios enfrentados pela Rússia, temos: (1) baixo nível de natalidade, altos nível de mortalidade, alta incidência de abortos e baixo nível de imigração; (2) uma comunidade mulçumana em expansão demográfica (que, em uma década, por chegar a 20% da população russa); (3) ressurgimento do islã ao longo da fronteira meridional; (4) áreas como o norte do Cáucaso, São Petersburgo e outras com tendência ao separatismo; e (5) crise econômica.

 

Putin (2000 – …)

 

O Putin, o mais novo czar da Rússia, ergueu o seu império as custas das riquezas naturais do país e não voltou a Rússia para a Europa e o Ocidente, ao contrário, ele lidera um governo marcadamente centralizador e autoritário que repudia a democracia ocidental e a ordem internacional liberal. Como ele consegue governar? O governo Putin tem como bases oligarquias (aqueles da oligarquia que apoiam o seu governo recebem proteção e os que não o fazem são eliminados, não é possível governar a Rússia sem o apoio dessas oligarquias, que consistem de membros ligados ao  antigo politiburo do partido comunista que ficaram ricos após as privatizações pós-desmantelamento da URSS), políticos corruptos, organizações criminosas, cerceamento das liberdades de imprensa e de expressão, e apoio dos departamentos de segurança do país. Note que não existe um sistema de mudança de elite natural na Rússia e as instituições mudaram apenas no nome, e tal como na URSS, essas instituições não estão sujeitas ao controle da sociedade. O que o Putin pretende? Essencialmente, Putin pretende distanciar a OTAN das fronteiras do Estado russo, manter a estabilidade política dentro do seu território e ter a capacidade de exercer influência nos vizinhos, e enfraquecer os vizinhos (ex-repúblicas soviéticas) para que os mesmos adotem se submetam as políticas do Kremlin criando, assim, um cinturão de proteção ao redor do território da Rússia.

Com o objetivo de aumentar a estabilidade política dentro do seu território, Putin criou uma “nova” identidade nacional pós-URSS. Nesta identidade nacional russa, o Estado e a fé da igreja ortodoxa estão unidos: ser um bom cristão é ser um bom russo, e vice-versa. As lideranças clericais dessa igreja criticam os valores ocidentais como heresia e estimulam o apoio ao Presidente Putin (o que contribuí para o aumento da popularidade dele). Esta identidade nacional russa tem como uma de suas bases a ideia de que a força de uma nação se baseia nas suas tradições e não no império da lei. A igreja e os cossacos modernos (que atualmente funciona como um tipo de polícia política pró-regime) são instituições que alimentam a tradição, o orgulho e o coletivismo russo, o que, por sua vez, alimenta o patriotismo na forma do respeito ao líder, a valorização da preservação do Estado e da expressão de poder do mesmo. O Presidente Putin é um líder político que forneceu aos russos, depois da crise econômica, política e cultural que marcou a década de 1990, a estabilidade que eles historicamente desejam. Tudo isso é possível, entre outras razões, em decorrência do controle a imprensa, pois, na Rússia, quem controla a imprensa, controla o país.

Como o regime controla a imprensa? Apesar de não existir uma censura oficial à imprensa, o Kremlin ataca qualquer parte da mídia que seja minimamente independente e crítica às políticas do regime, e quase todos os principais veículos de imprensa pertencem ao Estado ou tem relação com o mesmo. Dentro da “imprensa oficial” existe muita divulgação de propaganda pró-regime que alimenta tanto o público interno da Rússia quanto o público externo. Para o público interno, esta imprensa passa a mensagem de que a democracia não existe, de que o regime russo é o mais estável e possui a liderança mais forte e mais qualificadas do mundo. Para o público externo, esta propaganda serve como persuasão, ou seja, incentiva desinformação, teorias da conspiração e muita confusão. O FSB (herdeiros da KGB) lança campanhas de desinformação – tais como o seu antecessor, a KGB, lançava – contudo, o produto que eles vendem hoje não é o comunismo, mas sim uma “guerra híbrida” usando hackers. Como eles fazem isso? Eles criam uma história, simples e direta, e espalham a mesma através de múltiplas plataformas. As pessoas que publicam essas histórias não podem ser diretamente ligadas ao Kremlin. As diferentes partes da máquina de informação amplificam a história ao ponto em que não é possível, em muitos casos, saber a origem da mesma. E os opositores políticos do Kremlin?

Atualmente o mais famoso nome da oposição ao Kremlin é o Alexei Navalny. Este está na política há seis anos e usa as redes sociais para divulgar as suas ideias (é uma forma de fugir dos limites impostos pelo controle não oficial da imprensa imposto pelo Kremlin). As suas ideias envolvem duras críticas ao regime Putin (Navalny fala abertamente que o governo russo é autoritário e corrupto) e a expressão de valores ocidentais na relação sociedade-Estado. O principal público de Alexei Navalny são os jovens do caos econômico dos anos de 1990 e não se sentem atraídos pelos valores tradicionais russos. Contudo, Navalny é um líder populista. Ele não ataca nenhuma outra característica do governo Putin que não seja a corrupção, pois deseja continuar atraente para o público nacionalista do país. Navalny já foi preso e acusado de corrupção, bem como teve membros de sua equipe de campanha ameaçados e presos. Acusações que ele nega e acredita terem raízes políticas – em decorrência de condenações em processos de corrupção, ele não poderá concorrer às eleições de 2018, deixando o caminho do Putin livre de qualquer opositor digno de nota. Apesar não de não poder concorrer às eleições, Alexei Novalny continua fazendo uma campanha informal pelo país na tentativa de tornar o seu nome mais conhecido e influenciar a opinião pública com a sua agenda.

Nada disso é novo para o Presidente Putin. O último grande opositor político do Presidente russo foi Boris Nemtsov. Este último liderou protestos, em 2011, contra o regime e, em 2015, foi morto há alguns quarteirões do próprio Kremlin e, apesar das proximidades do Kremlin serem bastante vigiadas por câmeras, quase todas não gravaram o momento em que os assassinos de Nemtsov se aproximaram do carro dele para o matar. O assassinato teve uma enorme repercussão na mídia estrangeira e chechenos foram presos depois de confessarem o crime. Contudo, a dúvida permanece: teria sido um assassinato político ordenado pelo próprio Presidente Putin? Segundo afirmou na época do assassinato o então senador republicano, John McCain, o responsável pelo crime teria sido o Presidente Putin. O Kremlin, o Putin e qualquer outro representante do governo russo, negam envolvimento do Kremlin com o assassinato de Nemtsov em vários documentários e reportagens (veja as fontes desse artigo).

Por que existe essa áurea de mistério se os assassinos foram presos e confessaram o crime? Porque, historicamente, quase todos os grandes opositores políticos do Kremlin são vítimas de assassinatos misteriosos, mas raramente se consegue ligar qualquer crime ao próprio Kremlin. Nem todos os opositores políticos do regime Putin são vítimas de assassinatos com tons de assassinatos políticos, em geral, apenas aqueles que decidem investigar ou chamar atenção para possíveis crimes de corrupção do governo. Muitos opositores políticos do Kremlin de Putin são colocados sobre vigilância, tem seus direitos civis cerceados, são acusados de crimes etc. A resposta de representantes do governo russo a esses supostos assassinatos políticos se baseia no seguinte argumento: de fato existe uma atmosfera de assassinatos políticos, mas esta não foi criada pelo Putin, mas por países ocidentais numa ação contra a Rússia. Como se pode discutir sobre eleições em um país no qual existe censura não oficial à imprensa e um clima de assassinatos políticos? Porque a Rússia é uma democracia, mas não uma democracia liberal.

“Para nós, no Ocidente, a democracia significa a democracia liberal: um sistema político caracterizado não só por eleições livres e justas, mas também pelo Estado de direito, a separação dos poderes e a proteção das liberdades fundamentais de expressão, reunião, religião e prosperidade (Zacharias, 2003)”.

Essas liberdades citadas por Zacharias estão relacionadas ao liberalismo constitucional. Elas não dizem respeito ao procedimento de eleger um governo, mas sim, aos objetivos dos governos.

“O liberalismo constitucional (…) refere-se a tradição enraizada na história ocidental, que procura proteger a autonomia e dignidade do indivíduo contra toda a coerção, seja qual for a sua origem – o Estado, a igreja ou a sociedade. O conceito encerra duas ideias interligadas. Liberalismo porque se liga a uma tradição que remonta aos Gregos e aos Romanos e que enfatiza a liberdade individual. Constitucional porque coloca o Estado de Direito no centro da esfera política. O liberalismo constitucional desenvolveu-se na Europa Ocidental e nos Estados Unidos como defesa dos direitos dos indivíduos, designadamente à vida e à propriedade e à liberdade de religião e de expressão. Para garantir estes direitos, o liberalismo constitucional pôs o acento tónico no controle do poder dos governos, na igualdade perante a lei, num poder judicial independente e na separação da Igreja do Estado. Nas suas várias combinantes, o liberalismo constitucional defende que os indivíduos têm certos direitos naturais (ou inalienáveis) e que os governos, para os garantir, deve aceitar uma lei básica que limite seus poderes (…). Desde 1945, a maior parte dos governos ocidentais conjuga democracia e liberalismo constitucional. Por isso, é difícil imaginar as duas realidades desligadas, na forma de uma democracia iliberal ou de uma autocracia liberal (…). O melhor símbolo do modelo ocidental de governo não é o sufrágio universal, mas sim o juiz imparcial (…). Os políticos americanos e israelitas censuram muitas vezes a Autoridade Palestina pela sua ausência de democracia. Mas, de fato, Yasser Arafat é o único líder do mundo árabe que foi escolhido através de eleições, razoavelmente livres. O problema da Autoridade Palestina não reside na sua democracia – que, embora com enormes defeitos, pelo menos funciona a meio gás – mas no seu liberalismo constitucional, ou, melhor dizendo, na absoluta ausência deste (…). A democracia que gozamos no Ocidente foi sempre o que Aristóteles chamou de um regime misto. Tem, com certeza, um governo eleito, mas tem, também, leis constitucionais e direitos, um poder judicial independente, partidos políticos fortes, igrejas, empresas, associações privadas e elites profissionais. A democracia política foi um elemento essencial, mesmo crucial, do conjunto – ao fim e ao cabo, o povo detinha o poder – mas o sistema era complexo em muitas facetas e nem todas estavam sujeitas ao sufrágio universal. Na verdade, o objetivo de muitas destas instituições e grupos não democráticos era temperar as paixões públicas, educar os cidadãos, guiar a democracia e, por essa via, garantir a liberdade (Zacharias, 2003)”.

O Putin sempre viu, como seu principal objetivo de vida, o renascimento do seu país. E, tal como no passado, este é um país que possui pouco espaço para dissidentes políticos. De fato, Putin reascendeu as luzes do Kremlin, contudo, depois de muito tempo buscando estabilidade, a partir de 2017, o Kremlin passou a buscar rotatividade e sangue novo (para atender as ansiedades dos novos eleitores). Para salvaguardar resultados favoráveis nas eleições de 2018, o regime fez algumas modificações no mecanismo eleitorais com o objetivo de diminuir a competição política. O Kremlin aboliu, em 2004, eleições diretas para os cargos de governador (um cargo que é a principal ligação entre os órgãos federais e as administrações locais) na federação Russa. Tal ação tinha como objetivo garantir eleições locais favoráveis ao regime, contudo, devido à crise econômica e a protestos contra corrupção, tais eleições favoráveis não aconteceram e eleições diretas voltaram a acontecer. Vale mencionar que, se um governador for forçado a renunciar antes do fim de seu mandato por escândalos políticos ou acusações criminais, o Putin pode indicar o seu sucessor. Foi instituído o chamado “filtro municipal”, este filtro obriga que candidatos regionais tenham de 5% a 10% dos conselheiros locais a seu favor nas eleições (tais conselheiros na prática são controlados pelos governadores locais) – este representa um enorme obstáculo para candidatos de oposição (um terço dos candidatos foram barrados das eleições de 2017 devido ao filtro). Todos esses mecanismos instituídos desde 2004 servem para diminuir a competição política, facilitar a eleição de indivíduos pró-Kremlin em cargos relevantes e centralizar o poder no governo federal. Uma das razões pelas quais o Kremlin entende tal centralização como sendo necessária é a crise econômica que afeta certas regiões da Rússia. Historicamente, o que derruba um regime na Rússia é a desordem. Logo, é necessário manter rédeas curtas sobre a economia.

Várias regiões na Rússia sofrem com a crise econômica e o aumento dos gastos públicos. As autoridades regionais não conseguiram melhorar as condições econômicos. Isso constitui uma óbvia ameaça a estabilidade política do regime, para combater isso o Kremlin tem retirado a independência financeira das regiões problemáticas. Como o regime fez isso? Muitas dessas regiões dependem de empréstimos de bancos e o Ministro das Finanças russo garante que tais empréstimos sejam acompanhados de taxas de juros baixas, tudo isso tem como contrapartida a perda de autonomia financeira para essas regiões. Além disso, o Kremlin tem trocado governadores de regiões mais endividadas e as partes anexadas ao território russo (Criméia e Sevaspool) tem recebido auxílio financeiro adicional. Putin é um líder político extremamente popular na Rússia. As duas principais razões pelas quais ele é popular são: propagada e economia. Ele sobrevive a crise econômica e as sanções do ocidente, porque ele é um conservador fiscal: fez corte de benefícios sociais, adotou um programa de austeridade, diminuiu o valor da moeda e controlou a inflação.

A reeleição de Putin em 2018 – na mesma época em que os russos vão celebrar o aniversário de anexação da Criméia – tem um resultado certo: o Putin será reeleito. Contudo, de acordo com a constituição atual, ele não pode buscar a reeleição em 2024 e, após as eleições de 2018, Putin se tornará o líder político que por mais tempo liderou a Rússia (mais tempo que Stalin). Logo, após 2018, é provável que começaremos a observar o surgimento de faíscas de instabilidade na política doméstica da Rússia e começaram discussões sobre a Rússia pós-Putin. Não tenha dúvidas de que a Rússia sobreviverá ao Putin e outro czar surgirá no vácuo deixado por uma possível ausência de Putin e 2024, pois, por razões geopolíticas e históricas, o poder do Estado russo implora por um czar. Os objetivos do Kremlin devem continuar os mesmos depois de 2018: manter a estabilidade política interna e expressar poder para além da fronteira – a diferença é que o território se tornará mais instável. Não faltam desafios externos ao Kremlin.

Entre os vários desafios à frente da Rússia, pode-se destacar: o ressurgimento do Islã nas fronteiras e como manter o ciclo desvirtuoso de influência russa nos países ocidentais de tal forma que tal ciclo continue a favorecer a política externa da Rússia.

Muitos jovens que moram em aldeias em países como o Daguestão emigraram para a Síria com o objetivo de fazer parte do grupo terrorista Daesh. Quando esses jovens retornam, já radicalizados e com treinamento terrorista, eles têm como alvo instituições ligadas ao Estado russo. O fundamentalismo islâmico na fronteira russa tem sua origem numa mistura nos valores não-ocidentais das sociedades de maioria mulçumana e na pobreza e no desemprego (falta de perspectiva) que faz parte da realidade dessas cidades abandonadas por esses jovens. O Daedesh explora a insatisfação desses jovens através de propagandas. Ao mesmo tempo, num esforço de combate à potenciais terroristas, o Estado russo facilita a emigração dos jovens radicalizados e garante que eles nunca consigam retornar legalmente para a Rússia, especialmente através de prática de ameaças aos indivíduos radicalizados.

O Putin considera a expansão da OTAN para o leste como uma ameaça aos interesses russos. Quais seriam os interesses russos na região? A Rússia tem o interesse de criar um anel defensivo ao redor de seu território principal e deseja que a Geórgia e Ucrânia façam parte de tal anel (o Putin mencionou isso na Munich Security Conference em 2007). Os russos esperam, assim como policy makers como Kissinger, que o ocidente aceite que a Ucrânia é parte do interessa nacional russo, tanto quanto a Bielorrússia e Moldova. A Rússia busca manter, o máximo possível, ex-repúblicas soviéticas sob o seu controle, e evitar que tais países se tornem zonas de influência do ocidente. é interessante notar que países como a Bielorrússia, sob uma perspectiva geopolítica, funcionam como Estados tampão entre a Rússia e a OTAN, algo essencial não apenas para a segurança física do Estado russo, mas também para a preservação de seus interesses comerciais, pois é através de países como Ucrânia e Bielorrússia que passam as estruturas de condutores de gás e de petróleo russo que são consumidos pela Europa. O Putin tolera a independência de repúblicas como a Bielorrússia com a condição de que elas não se voltem para o ocidente. É importante lembrar que não devemos esperar críticas às ações expansionistas do Putin de dentro da sociedade russa, pois os russos valorizam mais uma economia estável e o orgulho nacional expresso em um líder forte do que a democracia liberal. Para além da fronteira imediata da Rússia, é interessante entender como o Kremlin pretende influenciar a política da Europa e de outras potências à seu favor. Tal influência se dá, principalmente, com base no que o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais dos Estados Unidos definiu como “ciclo desvirtuoso de influência russa” em um relatório, publicado em 2017, intitulado “The Kremlin Playbook: Understanding Russian Influence in Central and Eastern Europe”.

Este ciclo desvirtuoso de influência russa começa com a penetração política e econômica da Rússia nos países que ela visa influenciar. Como se dá tal penetração? A Rússia busca ganhar influência (se não, controle) de importantes instituições do Estado e da economia. E usar esse poder para moldar, a seu favor, as políticas e decisões nacionais. Qual é o resultado disso? O resultado dessa influência é a erosão dos padrões de governança e da credibilidade do modelo democrático como uma forma de governança – em casos mais graves, tal influência gera “State capture”. O que é a captura de um Estado? “The action of a small number of firms [or such group as military, ethnic groups, and kleptocratic politicians] to shape the rules of the game to their advantages through illicit, nontransparent provision of private gains to public officials (Conley et al, 2016)”. Tal influência é possível através de corrupção e quando se apaga as linhas entre o público e o privado.

“Malign Russian influence in Central and Eastern Europe primarily follows two tracks: one aimed at manipulating a country by dominating – and abusing – strategic sectors of its economy (which we will refer to as “economic capture”), and another that centers on the cultivation of political relationships with aspiring autocrats, populists, Euroskeptic, and Rusian sympathizers (or “political-capture”). While there are specific patterns of conduct within each track, there is no clear-cut path that Russa appears to follow in any case. Rather, a tactical combination of actors and drivers may be used in pursuit of specific strategic outcomes – all of which depend on the unique conditions present within each country, thus acquiring a Russian “tailor-made” strategy of influence (…). The mechanisms of Russian influence are designed to thrive in Western democracies because they use Western rules and institutions and exploit their systemic weaknesses. By penetrating and utilizing the system from within (e.g., taking advantages of lax ownership disclosure requirements, not investigating corruption allegations, preventing the work of an independent press and judiciary, preventing transparency into political party financing and NGO registration, as well as allowing media outlets to disseminate erroneous information that fosters public confusion and disillusionment), Russian influence weaken European democratic institutions, erode European unity, and discredit the Western model of democratic governance, using the very same Western rules and regulations. What is the Kremlin’s ultimate strategic goal as it wields its influence? Clearly, the Kremlin is interested in ensuring that it is able to maximize the economic benefits of its engagement with the region and further enrich members of its inner circle as they seek opportunities beyond the Russian economy. Another motivation is to weaken the European Union, NATO, and the desirability, credibility, and moral authority of Western democracies led by the United States. This motivation is particularly targeted at EU aspirant countries such as Serbia, Ukraine, Moldova, and Georgia to reduce their enthusiasm for their desires Western orientation so that they cooperate and integrate less with the West. A final driver is Russia’s desire to elevate itself and its model of governance as a more attractive and conducive alternative to the U.S. – dominated West: an illiberal and authoritarian sovereign “democracy” that is economically controlled by the oligarchic capitalism of a select inner circle (Conley et al, 2016)”.

 

IMAGEM I - Canais de influência russo
Imagem retirada do relatório “The Kremlin Playbook: Understanding Russian Influence in Central and Eastern Europe” do CSIS (2016).

 

Do relatório “The Kremlin Playbook: Understanding Russian Influence in Central and Eastern Europe”, publicado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS – Estados Unidos), destaco:

 

  • “Thus, the Kremlin’s authoritarianism and its model of illiberal “sovereign democracy” reinforces and serves as a source of inspiration for a new generation of European leaders who seek to maintain and extend their hold on power by upholding the vision of a political strongman who is the national answer to international threats and chaos (Conley et al, 2016)”.

 

  • “Russia has also been able to rely on prominent pro-Russian businessmen-turned-politicians to advance its interests politically, primarily in countries where Russia’s economic footprint is significant. Many of these individuals have personal business stakes in Russian business as well as the Russian security apparatus, and they have a strong interest in ensuring that economic and political relations remain favorable “Thus, the Kremlin’s authoritarianism and its model of illiberal “sovereign democracy” reinforces and serves as a source of inspiration for a new generation of European leaders who seek to maintain and extend their hold on power by upholding the vision of a political strongman who is the national answer to international threats and chaos (Conley et al, 2016)”.

 

  • “The common thread among all categories of drivers is endemic corruption. Numerous politicians affiliated with pro-Russian politicians, political parties, businessmen, and nongovernmental organizations have been implicated in a series of graft, bribery, and public procurement scandals that have reached the highest levels of government “Russia has also been able to rely on prominent pro-Russian businessmen-turned-politicians to advance its interests politically, primarily in countries where Russia’s economic footprint is significant. Many of these individuals have personal business stakes in Russian business as well as the Russian security apparatus, and they have a strong interest in ensuring that economic and political relations remain favorable “Thus, the Kremlin’s authoritarianism and its model of illiberal “sovereign democracy” reinforces and serves as a source of inspiration for a new generation of European leaders who seek to maintain and extend their hold on power by upholding the vision of a political strongman who is the national answer to international threats and chaos (Conley et al, 2016)”.

 

  • “If Russian political influence aims to exploit the weaknesses in Central and Eastern European societies and erode liberal institutions, then Russian economic influence seeks to manipulate sectoral market dynamics and exploit governance loopholes to generate unfair profit and influence national decision making. Russia’s economic influence in Central and Eastern Europe is derived from its dominance of strategic sectors of the economy. Because the region is disproportionately reliant on Russian oil and natural gas resources, the energy sector has been the main channel through which Moscow’s economic influence is exerted in the region. But Russia’s financial networks dating back to the Soviet era have remained largely in place, as they have been allowed to freely integrate into the region’s economies and EU countries. Over the course of the past several years (in particular, since the 2008 financial crisis), Russia has become increasingly present in the finance, media and telecommunications, transportation, arms, construction, industrial, and real state sectors using these preexisting financial, intelligence, and security networks in many countries (Conley et al, 2016)”.

 

  • “In the identification of a distinct sets of drivers, tactics, and instruments, a clear commonality emerges: both systems of economic and political capture rely on corruption as the conduit through which Russian influence is channeled into the local environment and ultimately expanded. The drivers of Russian influence seek to exploit existing deficiencies within the democratic fabric of the state. Political influence is secured by fomenting popular discontent and exposing the vulnerabilities of the liberal democratic system of governance. Economic influence is secured by attaining a dominant position in strategic sectors on favorable terms, and then robustly defending this dominant position by all means available. With both tracks, Russian political influence and Russian-linked economic acquisitions gravitate toward sectors where generous state resources and state-owned assets play a critical role in market making. Similarly, agents of Russian influence seek state public procurement contracts to rewards their patronage networks (Conley et al, 2016)”.

 

  • “Russia’s strategy is simple and straightforward: it exploits the inherent weakness within the Western capitalist democratic system. It is the lack of rigorous oversight and transparency of our governance standards that are readily available for exploitation, but Russia is not the only source and driver of corruption. All countries struggle with corruption and corruptible individuals in both the public and private sectors, but Russia uses it as an instrument of statecraft that is highly adaptable and poised to easily take root in new environments, making nearly all countries susceptible. Distinctive features of he combined effects of economic and political capture related to Russian interests include the circumvent of established formal rules of transparency and democratic definition of national interests, as national administrations have been replaced by private companies in drafting rules and regulations, while the same private interests eventually become the final beneficiaries of greater access to public resources (Conley et al, 2016)”.

 

  • “But has corrupt Russian influence been deliberately cultivated, or it is simply a unique export of Russia’s particular economic model? In her book Putin’s Kleptocracy, Karen Dawisha describes Russia today as a “mafia state” ruled by “an interlocking of associations and clan-based politics centered on Putin”, which serves the purpose of “strengthening Putin’s hold on power”, silencing critics, and maximizing … economic benefits”. This network is hierarchical and far-reaching, consisting of politicians at all levels (including high-level ministers), intelligence and security officials, businessmen, prominent companies, state-owned enterprises, and organized criminal elements. According to Dawisha, state institutions – including the Russia Federal Security Bureau (FSB) – are responsible for maintaining these networks which have become so intertwined that “one cannot differentiate between the activities of the government and organized crime groups”. Corruption lubricates the activity of this system as “it is the basis for upward mobility in Russia”, and the reward of “access to illicit wealth” in exchange for loyalty is what allows it work to expand and grow (Conley et al, 2016)”.

 

  • “The first step to returning a democracy to a clean bill of health is to diagnose the extent of Russian influence in its institutions and economy and to identify the most vulnerable element of that influence. Simultaneously, the United States and the other members of NATO and the European Union must collectively recognize that Russian influence is not a just a domestic governance challenge, but a national security threat, and efforts to counter it must thus be treated as such. Left unchecked this influence over time will compromise the integrity of Central and Eastern European democracies and will dramatically impact U.S foreign policy goals by eroding NATO and the European Union – ultimately undermining the Western democratic model. Given that several NATO and EU members may already be compromised, the United States and Europe must be prepared to dedicate a considerable amount of policy attention and financial resources to combating this influence and developing greater resiliency against this malign virus (Conley et al, 2016)”.

 

Entre as recomendações políticas feitas pelo relatório, temos:

 

  • “Elevate and design a specific, high-level task force within the Treasury Department’s Office and Financial Crimes Enforcement Network that focuses solely on tracing and prosecuting illicit Russian-linked financial flows if they interact with the U.S financial system (Conley et al, 2016)”.

 

  • “Encourage NATO and EU members to task their own financial intelligence units with developing dedicated units that track illicit Russian transactions (Conley et al, 2016)”.

 

  • “Prioritize enhanced EUA-U.S. financial intelligence cooperation (Conley et al, 2016)”.

 

  • “Elevate anticorruption by strengthening institutions as an element of NATO’s Readiness Action Plan (Conley et al, 2016)”.

 

  • “U.S. government assistance to Central and Eastern Europe and the Westen Balkans must be completely revamped to prioritize combating Russian influence and strengthening governance (Conley et al, 2016)”.

 

  • “EU institutions and member states should substantially enhance anticorruption and development assistance mechanisms to help the most vulnerable countries build greater resilience to Russian influence (Conley et al, 2016)”.

 

Conclusão

 

A influência da Rússia sobre países ocidentais na região da Europa é uma das maiores ameaças à integridade da União Europeia. Logo, é extremamente importante fazer a seguinte pergunta: quem será o representante principal dessa ameaça depois de 2018. Quem vai ganhar as eleições russas de 2018? O Putin.

A pergunta que você, como internacionalista, deve fazer é: como será o mundo (e a Rússia) após-Putin? Este último é mais um dos czares que os vários impérios russos tiveram e seu governo marcou a identidade nacional pós-URSS, bem como foi o regime Putin que reergueu a Rússia após a crise cultural, econômica e política da década perdida de 1990, contudo já é possível pensar no mundo pós-Putin e como a Rússia vai lidar com os desafios das próximas décadas.

Por que Putin vai ganhar as eleições de 2018? O principal adversário do Putin, Alexei Navalny, não poderá concorrer as eleições (ele foi preso, acusado de corrupção e condenado, o que impossibilita a sua candidatura) e porque, na Rússia, não existe uma democracia liberal. Segundo Fareed Zacharias (2003), para o ocidente, democracia significa democracia liberal, ou seja, um sistema político caracterizado não só por eleições livres e justas, mas também pelo Estado de Direito, a separação dos poderes e a proteção das liberdades fundamentais de expressão, reunião, religião e propriedade – essas liberdades estão relacionadas ao liberalismo constitucional. Nada disso existe na Rússia. Na verdade, Navalny tem sorte, pois os adversários do Kremlin têm o estranho hábito de morrer envenenados ou como vítimas de assassinatos misteriosos como, por exemplo, Boris Nemstov em 2015. Além disso, existe um forte controle estatal sob a mídia russa e mecanismos legais nas eleições regionais como, por exemplo, “filtros municipais”, que diminuem as chances da oposição ao Kremlin alcançar cargos politicamente relevantes.

Putin é um líder político extremamente popular na Rússia. Os cidadãos russos dão mais valor à uma economia estável e ao orgulho nacional expresso em um líder forte do que à democracia liberal. Ações militares em regiões próximas à fronteira russa, tais como a Criméia, só contribuem para a popularidade de Putin, pois tais ações têm como objetivo garantir a criação de um anel de defesa, contra a OTAN, ao redor do território maior da Rússia e impedir que as ex-repúblicas soviéticas fiquem sobre a influência do ocidente. Segundo Robert D. Kaplan (2013), as ações da Rússia em suas fronteiras próximas, sob o regime Putin, nada diferem das necessidades geopolíticas de Ivan IV (Ivan, o Terrível), Pedro (o Grande) e Stalin, pois quem quer que governe a Rússia terá que encarar o problema dessa massa de terra perigosamente plana que avança sobre os Estados contíguos em várias direções. Neste sentido, Putin estava certo quando afirmou que a fragmentação da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX.

De fato, Putin – que sempre viu, como seu principal objetivo de vida, o renascimento de seu país – conseguiu reascender as luzes do Kremlin. Após a sua reeleição em 2018, ele irá governar a Rússia por mais tempo que qualquer outro líder político do país, inclusive o Stalin e, de acordo com a atual constituição russa, Putin não poderá se reeleger em 2024. Isto faz com que muitos comecem a se questionar como será a Rússia pós-Putin. Uma pergunta perigosa, pois pode provocar faíscas na política interna da Rússia (eu disse faíscas, acho improvável um incêndio dado às amarras das instituições russas pela cleptocracia descrita do relatório do CSIS) Os objetivos do Kremlin devem continuar os mesmos após 2018: manter a estabilidade da política interna e expressar poder além da fronteira – a diferença é que o território para as ações políticas se tornará mais instável, pois os desafios estratégicos à frente são muitos (ressurgimento do fundamentalismo islâmico nas fronteiras, parar o avanço da OTAN em direção ao leste através da criação de um anel de defesa ao redor do território maior da Rússia, conter a crise econômica interna e manter o que o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos chamou de “ciclo desvirtuoso de influência russa” nas potências ocidentais).

Se o Putin conseguir se manter como a principal liderança russa nas próximas duas décadas sem cair perante aos desafios, ele terá assegurado o seu nome ao lado de vários czares que governaram a Rússia. A União Europeia e os Estados Unidos precisam de grandes líderes políticos, líderes que façam Putin chegar a mesma conclusão que Stalin chegou, durante os últimos episódios políticos Guerra da Coréia, quando se viu numa guerra contra Einsenhower e Churchill; a conclusão de que o mundo estava ficando perigoso de novo.

 


 

FONTE:

CONLEY, Heather A., MINA, James, STEFANOV, Ruslan et al. “The Kremlin Playbook: Understanding Russian Influence in Central and Eastern Europe”. A Report of the CSIS Europe Program and the CSD Economics Program. Ano de 2016.

KAPLAN, Robert. “A Vingança Da Geografia: A Construção Do Mundo Geopolítico A Partir Da Perspectiva Geográfica”. Ed. 1. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

ZACHARIAS, Fareed. “O Futuro Da Liberdade: A Democracia Iliberal Nos Estados Unidos E No Mundo”. Ed 1. Lisboa: Gradiva Publicações, 2003.

FRIEDRICH, Jorg. “YALU: À Beira da Terceira Guerra Mundial”. Rio de Janeiro: Record, 2011.

CONLEY, Heather A., Mina, James. Stefanov, Ruslan et al. “The Kremlin Playbook: Understanding Russian Influence in Central and Eastern Europe”. Center for Strategic and Internacional Studies. CSIS Report, 2016.

VOX. “From spy to president: The rise of Vladimir Putin”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=lxMWSmKieuc>.

Reporters Without Borders for Freedom of Press. “Freedom of Press Ranking”. Link: <https://rsf.org/en/ranking>.

PBS NewsHour. “Inside Putin’s Russia”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=_AkAZIk73F0>.

CNN. “CNN Special Report: The Most Powerful Man in The World”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=ZZ-Kwr0VFUE>.

DW Documentary. “Moscow’s empire – rise and fall (1/4)”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=SgzGLYpykEA>.

DW Documentary. “Moscow’s empire – rise and fall (2/4)”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=fSqMpZ5qhz0>.

DW Documentary. “Moscow’s empire – Russia’s reemergence (3/4)”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=DCgDChqQZwk>.

DW Documentary. “Moscow’s empire – Russia’s reemergence (4/4)”. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=RE5AOa_HJiY>.

BURKHARDT, Fabian & KLUGE, Janis. “Dress Rehearsal for Russia’s Presidential Election”. German Institute for International and Security Affairs. Ano da publicação 2017. Link: <https://www.swp-berlin.org/fileadmin/contents/products/comments/2017C37_bkd_klg.pdf>.

JOHNSON, Chase. “Russia’s 2018 Presidential Election”. The Blue Review. Ano 2017. Link: <https://thebluereview.org/russia-2018/>.

CHAUSOVSKY, Eugene. “Putin and Russia’s 2018 Election”. Stratfor Worldview. Link: <https://worldview.stratfor.com/article/putin-and-russia-s-2018-election>.

BUCOMBRE, Andrew. “Henry Kissinger has ‘advised Donald Trump to accept’ Crimea as part of Russia”. The Independent. Link: <http://www.independent.co.uk/news/people/henry-kissinger-russia-trump-crimea-advises-latest-ukraine-a7497646.html>.

FERGUSON, Niall. “The Russian Question”. Foreign Policy. Link: <http://foreignpolicy.com/2016/12/23/the-russian-question-putin-trump-bush-obama-kissinger/>.

 

Um comentário sobre “Rússia, Putin, Eleições de 2018 e o Ciclo Desvirtuoso de Influência.

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