[LIVRO] “Perguntem à Sarah Gross”, escrito por João Coelho.

Quem é o escrito João Pinto Coelho?

Escritor londrino, formado em arquitetura, que passou boa parte de sua vida em Lisboa. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz [Oswiecim], na Polônia, trabalhando perto de diversos investigadores sobre o tema do Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Person – A letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais a polônia, às ruas de Oswiecim e aos campos de concentração e extermínio. Este é é o primeiro romance de João Pinto Coelho.

“Perguntem à Sarah Gross”, o livro.

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Esse é um daqueles livros que seduz logo na primeira página. A sensação que eu tive, ao ler o texto que transcrevo abaixo, é que a personagem estava prestes a me contar a mais íntima e arrebatadora história que eu já havia ouvido.

“COTTAGE GROVE, OREGON, EUA. OUTUBRO, 2013. Gosto de ouvir a chuva quando escrevo. Talvez por isso, tenha escolhido este dia para me sentar pela última vez diante do meu caderno. O fim da tarde está pardacento e frio, e o meu quarto mudou pouco nestes quase oitenta anos. De novidade, talvez só a minha escrivaninha que trouxe do escritório do meu pai. O aroma de sua madeira é o cheiro dele e a memória mais vivida que me resta. Além disso, a casa vazia, mais os detalhes que lembram os anos felizes e os que se seguiram. Apesar de ter o quarto aquecido e as pernas cobertas por uma manta, o frio não me larga. Dizem que nos velhos isso acontece muitas vezes, pois é um frio que vem de dentro. Assim, o único remédio é aquecer-me dele. Na verdade, passo muito do meu tempo a tentar esquecer-me. Esquecer-me do presente, e do futuro também. Outro sinal da velhice, eu sei. Valha-me aquilo que vi e ouvi quando me queria lembrar de tudo. Nunca soube se a minha dava um livro, mas agora, que o escrevi, não me arrependo por, a páginas tantas, levada por parágrafos imprevistos, ter revisto os recursos expressivos, com quem troca o pijama pela roupa de sair. Contemplo as primeiras linhas, capítulos arrastados e sem notas nas margens, o que vale uma hipérbole quando o verbo é de encher? Mas tudo muda com uma frase que dói, um ferrete gravado a sangue-frio que distorce a caligrafia com que se escreve o que vem a seguir.”

A senhora Sarah Gross é a diretora de uma instituição de ensino para jovens ricos, chamada St. Oswald. No início de um novo ano letivo, ela decide começar o ano letivo com duas decisões difíceis que vão lhe render vários problemas: aceitar o primeiro jovem rapaz negro na escola e contratar uma jovem e pouco conhecida professora. Tudo isso numa escola reservada apenas à América Wasp.

Miss Parker, a jovem professora, que tenta fugir de seu passado, encontra na nova escola vários desafios e vários personagens que despertam sua curiosidade, mas nenhum deles  é tão fascinante quanto a séria e misteriosa Sarah Gross, cujo passado tem momentos de beleza e vida, bem como de perda e tristeza.

Um dos elementos que chama atenção nesse livro é que o autor descreve, através da família da Sarah Gross, como era a vida dos Judeus da comunidade de Oshpitzin (cidade na qual foi construída o infame campo de extermino Auschwitz), desde a vida política até as amizades entre as pessoas. E isso envolve o leitor e permite que o mesmo tenha um grau ainda maior de empatia para com os personagens.

Este livro apresenta personagens principais e coadjuvantes bem construídos e cheios de camada. A cada capítulo um pedaço da história de cada uma é descoberto pelo leitor. O conhecimento sobre o passado e o presente de cada um abre uma janela para que o leitor entenda o verdadeiro papel de cada um na história do livro. Algo um pouco parecido com as nossas vidas; só à medida que conhecemos uma pessoa, seus erros, suas dores e suas alegrias, entendemos as suas ações e passamos a admira-las ou nos afastamos delas.

“Perguntem à Sarah Gross”, escrito por João Coelho, é um livro sobre um jovem professora que tenta fugir do seu passado e encontra a Sarah Gross, uma sobrevivente do Holocausto que teve tudo arrancado de si e nunca conseguirá fugir do seu passado.

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