[TRADUÇÃO] “Solitário, mas não sozinho”, escrito pelo Rabino Dr. Nathan Cardozo.

*As traduções presentes no blog Roteirista na Yeshiva não significam endosso ou crítica às ideias do autor ou presentes na obra traduzida.

 

O rabino Dr. Nathan Lopes Cardozo é fundador e criador da David Cardozo Academy e do Beit Midrash of Avraham Avinu, ambos em Jerusalém. Ele também é autor de 13 livros e vários artigos publicados em inglês e hebraico. Atualmente, ele lidera um think tank cujo foco é encontrar novas formas filosóficas e halarricas de lidar com a crise de identidade e religião entre Judeus e o Estado de Israel.

O rabino Cardozo é conhecido por ser um brilhante e original ensaísta. As ideias dele são debatidas tanto em Israel quanto na diáspora. Ao longo de vida enquanto estudioso, ele esteve em várias yeshivot ashkenazitas, tais como Gateshead Talmudical College, e recebeu sua semikhah do Rabino Aryeh Leib Gurwitz.

No texto, abaixo, intitulado “Solitário, mas não sozinho”, publicado originalmente no Times of Israel, o Rabino Cardozo explica como ele reza com pessoas com quem não consegue dialogar e dialoga com pessoas com as quais ele não consegue rezar.

Nasci de parto pélvico, um procedimento muito doloroso, que minha mãe suportou com força de ferro. Nós quase não conseguimos. Era sexta-feira à noite, véspera do Shabat, e eu nasci de duas pessoas maravilhosas que, pela lei judaica, não teriam permissão para se casar. Meus pais tinham um casamento misto. Meu pai era judeu, minha mãe não era.

O médico era um judeu religioso, o Dr. Herzberger, que violou o Shabat para salvar nossas vidas. Era Amsterdã, a 26 de julho de 1946, logo após o Holocausto.

De muitas maneiras, esses dois fatos – um nascimento incomum e sendo filho de um casamento misto – criaram o cenário para minha vida. Muitas vezes vejo coisas de uma posição inversa. O que é normal para os outros evoca em mim sentimentos de admiração e choque, e o que os outros consideram surpreendente eu vejo como óbvio.

Como o produto de um casamento misto, eu passei por um processo de conversão ao Judaísmo com 16 anos e, após a conversão, eu me tornei um tanto outsider. Eu sempre me vi como um “filho de pai Judeu”, de zera Yisrael (ascendência judaica) e, portanto, judeu, mas mais tarde aprendi que isso não me fazia um judeu de acordo com Halacha.

Minha mãe, ainda jovem, veio morar com a família do meu pai depois que ela perdeu seus pais cristãos. Então, ela cresceu em um ambiente cultural liberal, socialista e judeu de Amsterdã, onde os jantares de sexta à noite eram comparáveis aos de hatunot, embora os pais de meu pai não fossem religiosos e tão pobres quanto os ratos da igreja, como a maioria dos judeus de Amsterdã. Minha mãe estava completamente integrada neste mundo e, embora soubesse que não era judia, era parte integral da comunidade, falava sua língua e se sentia totalmente à vontade nesse mundo estranho, secular, mas profundamente judeu. Não surpreende, portanto, que ela tenha se convertido anos depois, quando estava com cinquenta anos, depois que a convenci da beleza do judaísmo. Afinal, ela sempre foi judia. Com a permissão de Hacham Shlomo Rodrigues Pereira, rabino-chefe da comunidade judaica portuguesa em Amsterdã, meus pais se casaram – de acordo com a Halacha (ke-dat u-ke-din) – com o mesmo rabino que, três meses depois, casou minha esposa e eu. Havia, no entanto, uma diferença pequena, mas crucial: meus pais estavam casados há mais de trinta e cinco anos, enquanto minha esposa e eu éramos apenas iniciantes!

Eu passei mais de 12 anos aprendendo em yeshivot ultra-ortodoxas e recebi heter hein’ah (ordenação rabínica) do rabino Aryeh Leib Gurwitz, Rosh HaYeshiva de Gateshead, que foi, em seus anos mais jovens, o havruta do rabino Elchanan Wasserman, o mais conhecido discípulo do rabino Yisrael Meir Kagan, também conhecido como Hafetz Hayim. Eu conheço este mundo melhor do que muitos, mas ainda não faço parte disso. Nem pertenço ao mundo judaico secular, e certamente não ao mundo gentio. Eu continuamente luto com minha identidade e religiosidade judaica; e agora, aos 70 anos, talvez esteja mais envolvido nesse empreendimento do que antes. Dia e noite, estou ocupado com meus grandes amores: o judaísmo, Israel e o povo judeu. No entanto, sou incapaz de me sentir em casa no mundo do judaísmo ortodoxo dominante. Por muitos anos, eu era uma verdadeira yeshiva bachur, que havia comprado a filosofia hareidi, mas muito depois percebi que ela havia se tornado muito estreita, muito insípida e muitas vezes trivial.

Hoje, acredito que a Ortodoxia Moderna também se tornou entediante. Mesmo o famoso rabino Joseph Ber Soloveitchik, chefe da escola rabínica da Yeshiva University, em Nova York, não conseguiu tirá-lo de seu mal-estar espiritual. Judaísmo conservador e reformista não são opções para minha alma. Eles são muito fáceis, muito acadêmicos e incapazes de criar uma revolução espiritual. Meu judaísmo é do dissenso, protesto e guerra espiritual contra muita conformidade. A autocrítica é a questão crucial, não a satisfação pessoal. Não clichês, mas insight; não obstinação, mas elasticidade; não hábito, mas espontaneidade; estas e profunda religiosidade são, para mim, os grandes impulsionadores por trás desta magnífica tradição.

Meus inícios atípicos influenciaram meu pensamento de maneiras não convencionais e até hoje me causam problemas com alguns de meus colegas rabínicos, assim como com judeus religiosos e não-religiosos.

Aos 21 anos, casei com uma judia de uma casa de Judeus Ortodoxos. Fomos abençoados com cinco filhos, filhos especiais, muitos netos e até bisnetos. Todos eles são profundamente religiosos, amam a Torah e se destacam em uma variedade de profissões. Temos filhos que são rabinos, professores, empresários e um arquiteto licenciado em aconselhamento! Alguns dos meus netos usam kippot preto, e alguns têm pei’ot; outros têm kippot coloridos, pequenos e grandes. Alguns estão mais próximos da ultra-ortodoxia, outros são Ortodoxos Modernos; alguns fervorosos sionistas, outros não. Todos eles representam partes da minha personalidade e eu amo a diversidade.

Minha casa é em Jerusalém, em um bairro ultra-ortodoxo, onde não me sinto mais em casa. Com poucas exceções, eu oro com pessoas com as quais não posso falar e falo com pessoas com as quais não posso rezar. Ainda assim, eu amo todos eles. Eles são judeus, então eles são minha família. Mas eu não compartilho com eles uma linguagem intelectual ou espiritual-religiosa. Eu tenho pouco em comum com os judeus ortodoxos ou seculares na maneira como vejo o mundo, Deus e Torah. Para algumas pessoas, sou muito religioso; para outros, algo de herege.

Este é o meu destino e eu posso viver com isso, embora às vezes pareça um pouco, e outras vezes muito, solitário.

Meu irmão tem 64 anos e, embora, de acordo com Halacha, ele não seja judeu, ele é mais judeu do que muitos judeus que conheço. Durante anos, ele dirigiu uma casa kosher, com sua esposa não judia, para acomodar nossas visitas familiares. Ele quase se converteu, mas nunca deu o passo final. Ele quer ser enterrado em Beth Haim, o Cemitério Judaico Português em Ouderkerk, que é uma pequena cidade ao sul de Amsterdã. Mas ele sabe que isso será impossível.

Quando lhe sugeri que talvez ele devesse ser enterrado no cemitério da comunidade reformista em Amsterdã, ele me disse que só quer ser enterrado no cemitério ortodoxo; outras correntes do judaísmo não estão no seu radar.

Saber que ele não será enterrado em Beth Haim, ou em qualquer outro cemitério judeu, me magoa muito. Como será possível enterrá-lo entre os gentios quando ele é um dos nossos?

 

Você pode ler o texto, originalmente publicado em inglês, no link <https://blogs.timesofisrael.com/lonely-but-not-alone/>.

Veja também a palestra “Rescuing Judaism: Dangerous and Unacceptable Rabbinical Decisions, Immoral Religious Acts, the Need for Ethical Halacha“, do Rabino Nathan Cardozo, no Dan Panorama Hotel, em Jerusalém. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7GAUE5mrwuE>.

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