[LIVRO] “Saul Lieberman and the Orthodox”, escrito pelo Dr. Marc B. Shapiro.

A resenha deste livro, no blog Roteirista na Yeshiva, não significa endosso ou crítica às ideias expressas no livro ou o próprio autor. 

 

SOBRE O AUTOR

Dr. Marc B. Shapiro estuou na Brandeis University e na Harvard University. Ele recebeu a sua ordenação rabínica do Rabino Ehpraim Greenblatt. Hoje, atua nas catédras Harry e Jeanette Weinberg Chair in Judaic Studies na University of Scraton, na Pensilvânia, bem como é autor de vários livros e artigos sobre História Judaica, Filosofia, Teologia e Literatura Rabínica. Entre as suas obras de destaque, temos: “Saul Lieberman and the Orthodox”, “Between the Yeshiva World and Modern Orthodoxy”, “The Limits of Orthodox Theology”, “Studies in Maimonides and His Interpreters” e “Changing the Immutable: How Orthodox Judaism Rewrites Its History”.

 

SOBRE O LIVRO

O Rabino Saul Lieberman (1898-1983) (também conhecido como “The G’RasSh”) é um personagem curioso da comunidade Judaica Ortodoxa. Ele atuou como Presidente da American Academy for Jewish Research, na Academy for the Hebrew Language, na American Academy of Arts and Sciences, na Israel Academy of Sciences and Humanities, na Judaica Series da Yale University, bem como ganhou os prêmios Israel Prize for Jewish Studies e Harvey Prize of the Haifa Technion. O que o torna um personagem curioso da comunidade Judaica Ortodoxa? Ele atuou como rabino no Jewish Theological Seminary (JTS) (principal instituição do Movimento Conservador ou Masorti).

Lieberman nasceu na Bielorrúsia, onde estudou nas yeshivot de Malch e Slobodka. Nos anos de 1920, ele estudou na Universidade de Kiev, depois na França e em Jerusalém. Nesta última, ele estudou filosofia talmúdica e língua e literatura na Universidade Hebraica. No anos de 1930, ele atuou como professor e pesquisador de Talmud no Mizrachi Teachers Seminary e no Harry Fischel Institute of Talmud Research, em Jerusalém. Devido ao fato de que ele não conseguia trabalhar com o que gostava e pagar as contas, ele decidiu aceitar um emprego no Jewish Theological Seminary, onde ele terminou como diretor do seminário rabínico da instituição. O que, sem dúvida, foi uma vitória para o seminário rabínico desta instituição.

Lieberman, on the other hand, was coming to the Seminary directly from his post as head of the Harry Fischel Institute, and was in all respects unquestionably an Orthodox Jew. Yet despite the fact that Lieberman’s focus was almost exlusively on scholarship and not on religious developments in the Conservative movement, this did not lessen the anger in the Orthodox world at what was regarded as a betrayal on Lieberman’s part and a blow to Orthodox attempts to portray the Seminary as teaching a false version of Judaism (SHAPIRO, 2006, p. 17).

 

Este rabino combinava uma vasta erudição em todos os campos da literatura talmúdica e rabínica, com o conhecimento sobre o mundo classifico. Sem dúvida, ele era um membro da enlightened Orthodoxy. Isto fez om que ele desenvolvesse novos caminhos para a compreensão da vida, das instituições, e dos produtos literários do período talmúdico em eretz yisrael. Ele tinha um especial interesse em jogar luz sobre os textos rabínicos dos dois primeiros séculos da era comum, especificamente o Tosefta. Contudo, a parte mais conhecida do seu trabalho foi o esforço que ele fez para tentar manter o movimento masorti dos Estados Unidos dentro da Halacha.

A presença de Lieberman, no JTS, demonstrava uma disputa, dentro desta instituição, que ocorreu durante o século XX; entre o setor mais conservador da mesma (que desejava se manter próximo ao Conselho Rabínico Americano) e outra mais liberal (próxima ao movimento Reformista).  Essa disputa se dava em temas como ordenação de mulheres para o Rabinato, o problema das agunot, e como os estudiosos da comunidade Ortodoxa poderiam deveriam lidar com os estudiosos de seminários não-ortodoxos.

 

The problem, therefore, presents itself: How should Orthdox scholars relate to those who teach at non-Orthodox seminaries? This is obviouslt not an issue that concerns those Orthodox who pursue academic Jewish Studies, but is indeed relevant to those who are involved in trational Talmud study. For many of them, the issue is, to put it bluntly: Is one permitted to cite the Torah insights of those who are regarded as having left Orthodoxy? (SHAPIRO, 2006, p. 3).

 

A vida e a obra do Rabino Lieberman demonstram um curioso aspecto cultural da comunidade Judaica contemporânea: as dinâmicas de disputas políticas e halarricas, dentro da comunidade Ortodoxa, entre Modern Orthodoxy e Haredi e, fora da comunidade Ortodoxa, disputas da mesma natureza entre os movimentos liberais (Masorti e Reforma) e a comunidade Ortodoxa. Isso pode ser traduzido em dois exemplos: o fato das obras e ideias do Rabino Lieberman aparecerem, na forma de citação, em obras literárias que circulam na comunidade Ortodoxa e nas divergências sobre a inserção da “cláusula de Lieberman” nas Ketubot.

No primeiro caso, muitos autores religiosos da comunidade Judaica Ortodoxa consideram que o nome do Rabino Lieberman não deve aparecer nas obras que circulam dentro desta comunidade ou, no mínimo, ele não deve ser citado como “Rabino”, devido ao seu envolvimento ao Jewish Theological Seminari (masorti). Contudo, esta posição não é unânime, como Marc Shapiro descreve no livro “Saul Lieberman and the Orthodox”:

 

These luminaries were following the tradition, later formulated by Maimonides in his introduction to Shemonah Perakim, to “accept the truth from wherever it comes”. The conclict between this approach and the more conservative view has continued unabated since then, with the Maimonidean approach increasingly on the defensive (SHAPIRO, 2006, p. 3).
There is no doubt that most Orthodox scholars who do not cite Lieberman’s insights by name are simply afraid of the reaction they will encounter in right-wing circles. But the calculation of others may be simpler in that they regard Lieberman as religiously deficient. Therefore, although they are willing to learn from him, they will not mention him by name. One might think that people who feel this way would simply choose not to use Lieberman’s books, a indeed most haredim do not. However; one can actually find rabbinic precedent for those who use his works without acknowledgements. Tosafot records an opinion that although R. Meir cited the insights of his teacher, Elisha ben Avuyah, he did not reveal his source, for his teacher had left the religious fold. Thus, no matter how negatively one views Lieberman, this source can be used to justify benefiting from his writings without acknowledgemt. Similarly, Sefer Hasidim writes that a Torah insight should not  be cited in the name of one who causes others to sin, a characterization which some Orthodox, in particular haredim, would apply to Lieberman as well as othersscholars who cast their lot with the Reform and Conservative movements, even if only as teachers at their seminaries (…). Another precedent for using Lieberman’s writing but not citing him by name – and this can be used even by those who respect him – is found in Maimonides’ introduction to Shemonah Perokim. In explaining why he adopted insights from Gentile philosophers, Maimonides famously states, “Accept the truth from whoever says it.” Yet immediately following this, Maimonides also says that he does not mention these philosophers by name, since doing so “might make the passage offensive to someone without experience and make him think that it has an evil inner meaning of which he is not aware. Consequently, I saw fit to omit the author’s name, since my goal is to be useful to the reader.” This gives Orthodox writers carte blanche to omit any specific acknowledgment of the sources they are using, as long as there is a possibility that certain readers will find them objectionable (SHAPIRO, 2006, p. 39-40).

 

No segundo caso, “a cláusula de Lieberman” nas Ketubot, foi um mecanismo legal, desenvolvido pelo Rabino Lieberman, para tentar diminuir o número de agunot nas comunidades Judaicas da diáspora. Desde o iluminismo, as comunidades Judaicas da diáspora perderam os seus poderes civis no âmbito de casamento e divórcio. Um das consequências dessa nova realidade, foi o fato de que os Rabinos da diáspora perderam de obrigar o homem a dar o get para uma mulher. Isto pode gerar um alto número de agunot.

Durante décadas, as vozes tradicionais do Movimento Conservador ou Masorti nao queriam que este movimento tomasse uma medida unilateral para lidar com o tema. Eles acreditava que a comunidade Judaica Ortodoxa deveria oferecer uma solução para este dilema, contudo, o rabinato desta última, estava legalmente paralisado entre os anos 1800 e 1900. Eventualmente, as vozes liberais do Movimento Masorti ganharam. Neste contexto, o Rabino Lieberman sugeriu que uma cláusula fosse incluída no texto da Ketubah.

 

After doing research on this problem in conjunction with other rabbis, Professor Lieberman developed what came to be called “the Lieberman clause”, a clause added to the ketubah (Jewish wedding document). In effect it was an arbitration agreement used in the case of a divorce; if the marriage dissolved and the woman was refused a get from her husband, both the husband and wife were must go to a rabbinic court authorized by the Jewish Theological Seminary of America and heed their directives, which could (and usually did) include ordering a man to give his wife a get. At the time this clause was proposed it has some support in the Modern Orthodox community, and Orthodox leader Joseph Soloveitchik gave this proposal his approval. They began work on a joint rabbinic committee that would insure objective standards of marriage and divorce for both Orthodox and Conservative Judaism. However, objections from ultra-Orthodox rabbis torpedoed this effort at cooperation, and the proposed joint effort faltered. Most of Orthodox Judaism then rejected the Lieberman clause as a violation of Jewish law. As such, it is only accepted as binding and valid in non-Orthodox denominations of Judaism. This clause is still used in many ketubot (wedding documents) used by Conservative Jews today. However, in the intervening years there has been growing concern the legal validity of this clause due to United States law on separation between church and state; while this clause has been upheld in court, many rabbis are concerned that at some point in the future its binding legal nature may be denied. As such, the Rabbinical Assembly has since developed other solutions to the agunah issue that are now commonly used (Jewish Virtual Library on Saul Lieberman).

 

No final de sua vida, o Rabino Lieberman estava cada vez mais decepcionado com as decisões adotadas pelo Movimento Masorti, em especial, com as deliberações das lideranças deste sobre a ordenação de mulheres para o Rabinato. Na visão de Lieberman, esta decisão caracterizaria uma ruptura entre a Halacha normativa da comunidade Judaica religiosa. Ele chegou a escrever uma teshuvah sobre o tema intitulada “Tomeikh KaHalkha”. O Rabino Saul Lieberman viveu os últimos dias nos quais os moderados dos movimentos Ortodoxos e Masorti conseguiam ter um diálogo sobre Halacha.

 

Recent decades have seen Orthodoxy move to the right, just as Conservative Judaism has moved to the left. As far as the Orthodox are concerned, interdenominational boards of rabbis and synagogue councils are a thing of the past. Conservative Judaism has embraced halakhic egualitarianism as an absolute, and seems on the verge of a makjor shift in the direction of legitimizing homossexuality. Considering the way the two movements look today, it is hard for many to imagine that there was a time when the divisions were not so stark, when one’s denominational affiliation did not necessarily place one in direct ideological conflict with members of the other denomination. There was a time when great talmidei hakhamim of both denominations could be intellectal comrades, and outstanding minds from the Orthodox world could join their Conservative colleagues in teaching Torah. Its is a lost world of American Judaism (SHAPIRO, 2006, p. 51).

 


CURIOSIDADE: CHABAD E SAUL LIEBERMAN

O Rabino Liebermen ofereceu à Haim Zalman Dimitrovsky um cargo, como professor, no Jewish Theological Seminary (JTS). Zalman aceitou e foi para os Estados Unidos. Contudo, ao chegar no país, percebeu que o JTS era parte do Movimento Conservador ou Masorti dos Estados Unidos. Zalman era Ortodoxo e não tinha certeza se deveria aceitar o emprego que lhe foi oferecido. Então, ele buscou contato com o Rabino Menachem Mendel Schneersohn, o Rebbe Lubavitcher, para obter um conselho sobre o que deveria fazer. “Enquanto o professor Lieberman estiver no seminário, você pode permanecer lá. Se você se demitir, isso vai causar uma má impressão. Se ele [Lieberman] decidir sair, aí sim, você pode sair também”, aconselhou o Rabino Schneersohn (SHAPIRO, 2006, p. 48).”

 

CURIOSIDADE: RABINO ABRAHAM JOSHUA HESCHEL E O RABINO SAUL LIEBERMAN

Pode-se afirmar que os dois principais nomes do rabinato do Jewish Theological Seminary (JTS), no século XX, foram os Rabinos Heschel e o Lieberman. O primeiro era descendente de uma dinastia hassídica, um filosofo e teólogo. Heschel era professor de ética e misticismo judaico. Ele lidava com os aspectos não-halarricos da tradição rabínica. O segundo, Lieberman, era um litvak. As diferenças também poderiam ser vistas nos aspectos políticos: Lieberman era politicamente conservador, enquanto Heschel era politicamente um liberal.

 


 

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Foto do livro “Saul Lieberman and the Orthodox”. Fonte: Nina Avigayil Lobato.

 


 

Fontes:

Jewish Virtual Library. Saul Lieberman (1898-1983). Disponível em: <https://www.jewishvirtuallibrary.org/saul-lieberman>. Acesso em 17 de março de 2019.

SHAPIRO, Marc B. Saul Lieberman and the Orthodox. Weinberg Judaic Studies Institute University of Scraton. 2006. 54 p.

RAKEFFET-ROTHKOFF, Aaron. A note on R. Saul Lieberman and The Rav. Rabbinical Council of America. Tradition 40:4. 2007.

GOLDBERG, Hillel. Review essay: discontinuities: the case of Saul Lieberman. Rabbinical Council of America. Trdaition 40:3. 2007.

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