Existia uma alternativa ao Little Boy e ao Fat Man em 1945?

Existem duas escolas de pensamento que fundamentam a resposta para a pergunta que encabeça este ensaio; “Havia uma alternativa ao Little Boy e ao Fat Man em 1945?”. A primeira, os tradicionalistas, alegam que não havia uma alternativa para o uso de armas de destruição em massa em Hiroshima e Nagasaki, pois o número de mortes requeridos para o sucesso da Operação Downfall era alto demais e tal operação faria a guerra no teatro do pacífico durar mais tempo eventualmente transformando a mesma em mais um conflito da guerra fria (PALMER & GIANGRECO, 2018).

O papel da Rússia no esforço de guerra contra o Japão era destruir a presença do exército japonês na Manchúria, ocupar a Península LiaoTung e se retirar de qualquer território japonês ocupado após a rendição do Japão. Contudo, se a guerra se prolongasse, é possível imaginar que tal ocupação se tornaria mais um conflito da Guerra Fria como o caso da Península Coreana (PAULIN, 2007). O presente ensaio terá como foco principal as operações militares criadas para levar o Japão à se render e a vitória dos Estados Unidos no teatro de operações do pacífico, sendo o papel das tropas soviéticos analisado de forma periférica.

A segunda escola de pensamento, os revisionistas, defendem que os números de mortes previstos na Operação Downfall eram exagerados e que era possível alcançar a rendição do Japão através de uma invasão aérea, terrestre e marítima (PALMER & GIANGRECO, 2018). O presente artigo é uma defesa da visão tradicionalista com base na teoria realista das Relações Internacionais (Tucídides e Waltz) e a teoria de Coesão Militar de Castillo.

Em 1944, quando os Estados Unidos estenderam o seu domínio até as ilhas Marianas, uma base foi criada a partir da qual aviões B-29 poderiam bombardear Tokyo e outros alvos importantes no Japão. Em março do ano seguinte, 83.793 japoneses já haviam morrido em decorrência desses bombardeios e, em maio de 1945, a Alemanha se rendeu; a guerra no teatro de operações da Europa acabava enquanto a Guerra Fria já havia tido início na Conferência dos Três Grandes de Yalta (CORRELL, 2009) (DOBBS, 2012).

Neste contexto, em 1945, os conflitos da segunda guerra mundial no teatro de operações do pacífico continuavam. O general Henry Arnold, comandante da Força Aérea americana, acreditava que era possível obter a rendição japonesa através de uma combinação de bloqueios, bombardeio e cerco. A sua opinião não era unânime, o General George Marshall, Chefe do Estado Maior, acreditava ser necessária uma invasão com “tropas no chão” para levar os japoneses a se renderem (CORRELL, 2009).

As lideranças japonesas não concebiam a rendição como uma opção. Em agosto de 1945, milhares de japoneses estavam se destinando às posições de defesa em Kyushu e Hoshu, enquanto mulheres e crianças eram treinadas para portarem explosivos e outros armamentos para causar o maior número de mortes americanas em um eventual conflito (CORRELL, 2009).

Em julho de 1945, as lideranças americanas revelam a Operação Downfall. Esta operação possuía dois pilares: a Operação Olympic e a Operação Coronet (CORRELL, 2009). Em termos de tropas, a operação iria requerer 2.5 milhões de soldados americanos. Estes viriam das forças que haviam lutado na Europa e que seriam transferidas para o teatro do pacífico. Desses 2.5 milhões de soldados, havia estimativas de que 250,000 mil a 1 milhão iriam morrer na Operação Downfall (CORRELL, 2009) se o Japão lutasse até o fim e não se rendesse após a invasão de Honshu (GIANGRECO, 1995). Entre os anos de 1944 e 1945, havia previsões que envolviam 4.5 Japoneses mortos para cada 1 morte de soldados Americanos (PALMER & GIANGRECO, 2018).

No último ano dos conflitos do teatro de operações do pacífico na segunda guerra mundial, o Japão estava enfraquecido militarmente e já não possui a capacidade de conduzir operações ofensivas, mas estava longe de estar derrotado.

 

While the Japonese military was not capable of conducting offensive operations, it was capable of defending the homeland against the anticipated American invasion. The bloody, fight-to-the-death battles on Spain, Iwo Jima, and Okinawa were only a sample of what the American invasion force would gace on the beaches of Kyushu and throughout the Japonnese home islands. Japan began mobilize its entire population for a decisive battle that would mean victory or total anihilation for the Japanese people (…). The American invasion of Guadalcanal, in the Solomon Islands, was the beginning of a series of bloody campaings against the Japanese that would place them on the defensive for the remainder of the war. While the Japanese could not match the enormous firepower of the United States, victory did not come easily or cheaply for the American forces. The Warrior Code the Japanese followed did not allow surrender; instead, it glorified death in battle (…). Japanese leaders ordered and expected every soldier to embrace death instead of surrender (…). American soldiers and marines faced this fanatical, fight-to-the-death attitude on every island they conquered. The bloody suicidal fighting got only worse once the Japanese lost freedom of manuever on the sea and in the air, and island garrisons could no longer receive adequate reinforcements (PAULIN, 2007, 5 – 6 p).

 

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos Americanos no teatro do pacífico, o uso de bombas atômicas contra o Império japonês não foi uma decisão fácil para o Presidente Truman. Além de debates gerais sobre o futuro competição internacional no campo de desenvolvimento de armar atômicas, sobre a necessidade que os Estados Unidos tinham de armazenas materiais necessários para a construção dessas armas e a extensão do efeito destrutivo delas, havia discussões específicas no Estado Maior dos Estados Unidos sobre como usar a bomba contra o Japão.

Neste último caso, havia quatro pontos principais na discussão: 1) haveria avisos prévios para o Japão antes do uso? 2) Essas armas seriam usadas contra alvos isolados ou em grandes cidades? 3) Quais seria o impacto do uso dessas armas no Japão na relação entre URSS e USA? O Uso começaria uma corrida armamentista entre essas duas potências? 4) Quais seriam os impactos políticos dessa arma entre aliados e inimigos dos EUA? (PAULIN, 2007).

Em 16 de julho de 1945, os Estados Unidos fazem um teste bem-sucedido da bomba atômica no Novo México e, em 24 de julho de 1945, o Presidente Truman autoriza o uso dessas armas contra o Japão. Os dois principais fatores que o fizeram tomar uma decisão favorável ao uso dessas armas de destruição em massa foram: o fato de que elas provocariam à rendição do Japão salvando vidas de soldados Americanos que morreriam na Operação Downfall e o fato desta rendição economizar tempo e dinheiro do esforço de guerra dos EUA.

Os alvos americanos, no Japão, eram: Hiroshima, Kokura e Nagasaki. No dia 6 de agosto de 1945, um avião B-29 chamado de Enola Gay jogou uma bomba atômica de Urânio denominada de Little Boy sobre Hiroshima. A explosão destruiu 60% da cidade e mantou/feriu 200.000 pessoas, mas o Japão não se rendeu. Após esse bombardeio, os americanos jogaram 720,000 panfletos pedindo que os civis japoneses evacuassem cidades e denunciando o governo do Japão por não ter declarado a sua rendição (FUSSELL, 1981) (PAULIN, 2007). Mesmo após o primeiro ataque americano e a desintegração do exército Kwatung pelos soviéticos, os membros militares Conselho japonês Supremo para a Direção da Guerra acreditavam ser bela a honra de ter a sua nação destruída como uma flor (PAULIN, 2007). No dia 9 de agosto de 1945, um avião B-29 jogou uma bomba nuclear de plutônio, denominada de Fat Man, sobre Nagasaki, matando 36.000 pessoas e levando o Japão à finalmente declarar oficialmente a sua rendição incondicional aos Estados Unidos em 14 de agosto de 1945.

É interessante mencionar que na noite do dia 14 de agosto de 1945, membros do exército japonês tentaram realizar um golpe de Estado contra o Imperador para impedir que a declaração de rendição se tornasse pública, mas o golpe fracassou.

Recentemente, ao observar um debate entre alunos de uma escola de elite paulistana sobre “o uso desproporcional de força”, “um ato de vingança” por parte dos Americanos contra os Japoneses em Hiroshima e Nagazaki, bem como ouvi afirmações indignadas desses alunos sobre “as violações de direitos humanos” e “a falha moral” americana neste episódio da segunda guerra mundial, não consegui evitar de pensar em LeMay e no fato de que os soldados que morrem em conflitos como o que estava sendo discutido não são oriundos da camada social dos alunos que faziam o julgamento moral em questão.

Apesar da dificuldades de fazer projeções quanto ao número de mortes para os lados envolvidos no conflito em questão, muitos autores (Jones, Friedrich, Giangreco e outros) fazem projeções com base no cenário de guerra proposto (Operação Downfall) que obrigam o leitor à refletir sobre a fala do General Curtis LeMay sobre o tema: “a bomba atômica provavelmente salvou três milhões de vidas japonesas e, talvez, um milhão de vidas americanas”.

Os alunos estavam errados ao concluírem que o uso de armas de destruição em massa em Hiroshima e Nagasaki foram atos de vingança. O proposito daquelas bombas não era punir pessoas, mas parar a guerra (FUSSELL, 1981). O Estado Maior dos Estados Unidos fez uma clara avaliação do custo benefício da Operação Downfall e do uso das bombas, concluindo que havia mais benefícios no segundo plano de guerra – um exemplo histórico de que os Estados são unidades políticas racionais. Outro elemento que os alunos desconsideraram foi a natureza anárquica do sistema internacional, que faz das guerras (explosões de violência) um fenômeno natural e terrível deste sistema. Em 1945, essa natureza colocou estrategistas militares dos Estados Unidos perante duas escolhas ruins e, para finalizar uma guerra na qual havia atos sádicos e de selvageria em ambos os lados (FUSSELL, 1981), estes estrategistas optaram pelo plano de guerra cujos custos de vida e econômicos eram menores.

Sim, morreram civis em Hiroshima e Nagasaki. Vidas que não podem ser substituídas, tanto quanto morreram civis em Londres, Dresden, Tokyo e Berlin. A crueldade da guerra e as necessidades estratégicas que surgem das diferenças de coesão militar entre os atores envolvidos, faz dos bombardeios atômicos no Japão tenham sido a “escolha menos pior”. Devido ao fato de que a coesão militar dos japoneses era maior que a dos americanos e de que as tropas Americanas que iriam lutar na Operação Downfall já vinham das batalhas do teatro de operações da Europa, para manter o equilíbrio de poder favorável aos Estados Unidos, a opção lógica seriam o uso das bombas Little Boy e Fat Man.

Por fim, no debate em questão, os alunos, tanto devido ao distanciamento histórico quanto devido à uma compreensão um tanto idealista dos dilemas do campo de segurança internacional, consideraram que a decisão do Presidente Truman foi uma falha moral. É provável que John Stuart Mill, Locke, e Kant concordassem com os alunos.

A literatura da Realpolitik não é farta em debates sobre a moralidade do ambiente político. Talvez por reconhecer a falibilidade da natureza humana que existe de baixo do verniz de civilização construída graças a capacidade das instituições de conter a bárbarie humana. Ao mesmo tempo, a Realpolitik não se exime completamente desses debates. Dentro desta literatura existem duas tendências que coexistem: a primeira, representada por Rochau, que adota uma interpretação pragmática da política sem perder de vista os valores iluministas e, a segunda, representada por Bismarck, que adota uma interpretação tão cínica da política ao ponto que os valores iluministas não são mais uma referência.

Truman certamente tinha os valores iluministas como o horizonte a ser preservado ao fim da segunda guerra mundial, mas o espaço de ação moral dos Estados é menor que a de um indivíduo. Uma pessoa pode decidir fazer o certo independente das consequências, a natureza anárquica do sistema internacional, reduz este espaço de decisão pois obriga o Estado a ter dois objetivos: sobreviver e adquirir mais poder para sobreviver. Além disso, os espaços no qual os debates de Mill, Locke e Kant aconteciam eram repleto de regras, mas o espaço moral dos Estado Unidos, nas circunstâncias exploradas por este artigo tomou suas decisões, aconteceu no mundo de homens como General Patton e, segundo este general, a guerra não é uma disputa com luvas – a guerra só acontece quando as leis, ou seja, as regras falharam. Neste sentido, eu reservo ao Presidente Truman um julgamento mais leniente do que o proposto pelos alunos.

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