Pessoas interessantes: Chaim Potok, Solomon Maimon e Sandy Koufax.

CHAIM POTOK (1929-2002)

Chaim Potok
Chaim Potok / Fontes: Times of Israel.

Herman Harold Potok, também conhecido como Chaim Potok, nasceu em Nova York e cresceu no seio de uma família de imigrantes poloneses com herança hassidíca. Ele cresceu dentro de escolas religiosas da comunidade Judaica Ortodoxa e, após a sua graduação em Literatura Inglesa (summa cum laude) na Yeshiva University, ele continuou os seus estudos no Jewish Theological Seminary of America (JTS). Nesta última instituição, ele foi recebeu a sua smicha e atuou como educador em diversas instituições Judaicas. Durante sua carreira acadêmica, ele escreveu para diversos veículos de comunicação, entre eles: “Conservative Judaism” e “Jewish Publication Society of America”. Além disso, ele fez um doutorado em filosofia pela Universidade de Pensilvânica. Potok era um rabino, um escritor, um estudioso de filosofia e um comentador do Tanach. A sua mais famosa obra literária foi “The Chosen”.

“The Chosen”, publicado em 1967 e que rapidamente se tornou um bestselling, se tornou um dos livros mais icônicos da comunidade Judaica dos Estados Unidos, mas conseguiu encontrar espaços em diversas estantes fora dessa comunidade. O romance se passa nos anos de 1940 e tem a segunda guerra mundial como um pano de fundo da vida de dois jovens: Henry Malter, um rapaz da comunidade Ortodoxa moderna que vive com o seu pai viúvo e Danny, o filho de um respeitado rebbe Hassídico. Tanto Rueven quanto Danny vivem em Williamsburg, mas ele poderiam facilmente viver suas vidas em dois universos distintos se não fosse por um acidente em uma partida de baseball. A partir deste encontro, surge uma amizade que molda o caráter de ambos. As discussões e as confissões que ocorrem entre esses dois jovens permite que os leitores observem como eles lidam com o conflito entre assimilação e preservação cultural, sionismo, filosofia, psicologia, escolhas de carreira, as frustrações da juventude e as as expectativas que os pais tem sobre eles. Dois eventos históricos tem um forte impacto na vida desses jovens: a descoberta dos crimes cometidos pelos nazistas contra os Judeus e a criação do Estado de Israel. É relevante mencionar que, apesar de Potok incorporar ao livro “The Chosen” metodologias de estudo do Talmud, a história do Hassidismo e debates rabínicos, o livro não é de difícil leitura.

O livro em questão é uma janela para os dilemas vividos pelo próprio Potok. Segundo Aaron Katz (Tablet Magazine), o mundo de Henry Malter possui semelhanças com o mundo do autor: Malter estuda em um seminário semelhante à Yeshiva University, possui um professor (Rav Gershenson) semelhante ao Rabino Joseph Soloveitchik e se sente inclinado a utilizar métodos acadêmicos de estudos do Talmud. Mais do que uma janela para os dilemas vividos pelo autor, este livro contribuiu para a desmistificação dos membros da comunidade Ortodoxa dos Estados Unidos, pois o livro demostra que essa é uma comunidade intelectualmente diversa e rica.

 

SOLOMON MAIMON (1753-1800)

Salomon Maimon
Salomon Maimon / Fonte: Encyclopædia Britannica.

Solomon Ben Joshua ou Solomon Maimon nasceu onde hoje fica a Bielorrússia, era considerado um brilhante estudioso do Talmud e trabalhou como um educador privado. No início de sua vida ele teve contato com o misticismo Judaico e desenvolvendo interesse tanto pela Kabbalah quanto pelo Hassidismo. Ao mesmo tempo, ele sempre foi fascinado pelo “conhecimento secular proibido”. Mais tarde em sua vida, ele foi influenciado pela filosofia de Maimônides (adotando o sobrenome “Maimon”). A partir deste momento, Solomon se devotou ao estudo secular e tentou sintetizar o racionalismo dogmático e o ceticismo empírico.

Em 1780, ele abandonou sua esposa (ela passou anos como agunah) e conseguiu se mudar para Berlim. Na capital da Alemanha e capital do movimento Haskalah, Solomon Maimon ganhou o respeito tanto dos maskilim que circulavam com Moshe Mendelssohn quanto Immanuel Kant. Apesar de ter se tornado um crítico das limitações da filosofia da razão pura de Kant, este último considerava Maimon o crítico que melhor compreendeu a sua obra. As relações pessoais entre Mendelssohn e Maimon não duraram muito em virtude do estilo de vida boêmio e do “espinozismo” de Maimon. Entre as melhores obras de Solomon, podemos citar: o seu comentário da obra “O Guia dos Perplexos”, “Critical Investigations on the Human Mind, or the Highest Faculty of Knowledge and Will” e a sua autobiografia.

Maimon, que costumava fazer muitas piadas sobre as supertições existentes dentro da comunidade Judaica e tinha aversão a hipocrisia que as vezes esta presente no mundo religioso, era mais um daqueles personagens que deixavam a sua comunidade Ortodoxa tradicional no leste Europeu pra mergulhar no iluminismo de Berlim, mas ele tinha uma característica peculiar: segundo Freudenthal (Universidade de Tel Aviv), este filósofo era um outsider. Ele permaneceu um ‘Ostjude’ entre os maskilim de Berlim, um livre pensador entre os Judeus observantes e um Judeu entre não-Judeus. Ao mesmo tempo, Solomon não apreciava a burguesia Judaica berlinense de seu tempo porque, na visão dele, essas pessoas estavam livres de qualquer barreira que impedisse eles de estudar as ciências, contudo, eles se contentavam com uma rasa proximidade dos conhecimentos que uma pessoa civilizada deveria ter. Além disso, ainda segundo Maimon, essa burguesia berlinense não tinha uma mente afiada como os seus colegas talmudistas da Polônia.

Entre as influências de Maimon, podemos destacar: Maimônides, Cristian Wolff, Leibniz, Espinosa, David Hume e Kant. Uma frase que se aplica muito bem ao Solomon Maimon é “estudiosos da Sabedoria não tem descanso neste mundo e nem no mundo vindouro”. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, Solomon é um dos mais originais, complicados e fascinantes filósofos do século XVIII. Ele argumentava que a imagem de D’us na humanidade era o intelecto e a medida em que ativamos e desenvolvemos as nossas capacidades intelectuais, nós nos aproximamos de D’us, ou seja, a experiência religiosa deveria ser fundamentada na busca pela verdade. Na minha opinião, Maimon era um otd brilhante cuja biografia descreve a diversidade, o mundo e a efervescência intelectual da comunidade Judaica européia do século XVIII.

 

SANDY KOUFAX (1935-1972)

Sandy Koufax
Sandy Koufax / Fonte: Times of Israel.

Também conhecido como “o braço esquerdo de D’us” ou “o homem com o braço de ouro” devido aos seus incríveis e fortes lançamentos com o braço esquerdo no baseball, Sandy Koufax era um jovem Judeu nascido no Brooklyn, Nova York, em 1935, que se tornou o mais jovem jogador de baseball a entrar no Baseball Gall of Fame!

Além dessa honra, entre os anos d 1962-1966 ele manteve um recorde de 111 vitórias contra 34 perdas, fez um recorde de 382 strikeouts em uma temporada, ganhou três troféus Cy Young Awards e um troféu de Most Valuable Player. O caminho percorrido até que o seu nome se tornasse uma lenda não foi fácil; ele sofreu com o antissemitismo de jogadores do seu time e dos times adversários. Apesar dos prêmios, o episódio mais marcante e lembrado de sua carreira – e que contribuiu para o seu status de lenda dentro do baseball e dentro da comunidade Judaica – foi o campeonato World Series em 1965. Por que?

Porque o primeiro jogo desse campeonato estava marcado para acontecer no Yom Kippur do ano de 1965. “Pelo que eu sei, não existe dispensas especiais no Yom Kippur” explicou Koufax em uma entrevista para a Associated Press. O’Malley, não-Judeu e chefe do Koufax, afirmou em uma entrevista coletiva que não deixaria Sandy jogar no Yom Kippur, pois ele não gostaria que “o rapaz fizesse isso com si mesmo”. Esta decisão não foi fácil, mas o jogador insistiu que as suas crenças pessoais eram mais importantes que as suas crenças profissionais. O seu contrato com o Los Angeles Dodgers lhe garantia o direito de não jogar em feriados do calendário Judaico.  No Yom Kippur de 1965, Sandy Koufax passou o feriado no seu hotel e não no campo de baseball ou na sinagoga. Esta decisão contribuiu para que o seu time perdesse a primeira partida, contudo, graças ao talento de Sandy Koufax, o seu time ganhou outras duas partidas decisivas naquele campeonato e o título disputado. Naquele campeonato, Koufax ficaria conhecido como “o mais valioso jogador” de baseball do campeonato.

Esse episódio se tornou lendário porque o baseball é o esporte Ameriano por excelência, o campeonato em questão era o maior palco daquele esporte e porque Koufax demonstrou orgulho de sua tradição de forma pública em uma sociedade não-Judaica. Isso demonstrou para os Judeus dos Estados Unidos que, apesar das dificuldades, eles poderiam viver o melhor da cultura Judaica e o melhor da cultura Americana, ou seja, Koufax era o retrato da segunda geração de Judeus da diáspora pós-segunda guerra mundial que não tinham vergonha ou medo de demonstrar a sua identidade Judaica. Para completar a beleza do momento, o Koufax, que se auto-descrevia como um Judeu secular não-praticante, ao escolher preservar o Yom Kippur demonstrou que as restrições desse dia não pertenciam apenas aos membros da comunidade Judaica Ortodoxa (minoria entre Judeus Americanos até hoje).

Se você quiser ler mais sobre o Sandy Koufax, busque o livro “Sandy Koufax: A Lefty’s Legacy” escrito por Jane Leavy. É importante mencionar que os jorgadores como Hank Greenberg (Detroit Tigers) e Shawn Green (Dodgers) seguiram o exemplo de Sandy Koufax. No entanto, jogadores como o Jesse Levis (Brewers) nos lembram que nem todos tem o mesmo peso e a possibilidade de tomar decisões semelhantes.

 


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Autor Desconhecido. Chaim Potok. Encyclopedia Britannica. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Chaim-Potok>. Acesso em 17 de dezembro de 2019.

Autor Desconhecido. Chaim Potok (1929-2002). Disponível em: <https://www.jewishvirtuallibrary.org/chaim-potok>. Acesso em 17 de dezembro de 2019.

ROTH, Matthue. Chaim Potok: His Judaism, and His Dissatisfaction with It, Formed the Cornerstone of His Stories. My Jewish Learning. Disponível em: <https://www.myjewishlearning.com/article/chaim-potok/>. Acesso em 17 de dezembro de 2019.

STRIER, Jacob. How Chaim Potok Illuminated The American Orthodox Community. 5 de agosto de 2019. Jewish Week. Disponível em: <https://jewishweek.timesofisrael.com/how-chaim-potok-illuminated-the-american-orthodox-community/>. Acesso em 17 de dezembro de 2019.

KATZ, Aaron R. Some Reflections on Chaim Potok’s ‘The Chosen’. 28 de abril de 2017. Tablet Magazine. Disponível em: <https://www.tabletmag.com/jewish-arts-and-culture/books/230971/reflections-on-potoks-the-chosen>. Acesso em 17 de dezembro de 2019.

ABRAMSON, Henry. Solomon Maimon: Jewish Philosopher and Freethinker of the 18th Century. 7 de março de 2014. Rabbi Abramson. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=g_xtJmkEDSk>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

WODZINSKI, Marcin. Solomon Maimon. The Yivo Ecyclopedia of Jews in Eastern Europe. Disponível em: <https://yivoencyclopedia.org/article.aspx/Maimon_Salomon>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

Autor Desconhecido. Solomon Maimon. Jewish Virtual Library. Disponível em: <https://www.jewishvirtuallibrary.org/maimon-solomon>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

Autor Desconhecido. Solomon Maimon. 17 de setembro de 2019. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/entries/maimon/>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

Autor Desconhecido. Solomon Maimon. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://www.iep.utm.edu/maimon/#H10>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

KOHLER, Kaufmann & BROYDÉ, Isaac. Solomon Ben Joshua Maimon. Jewish Encyclopedia. Disponível em: <https://www.jewishencyclopedia.com/articles/10301-maimon-solomon-ben-joshua>. Acesso em 16 de dezembro de 2019

Editors. Sandy Koufax Biography. 11 de outubro de 2019. Biography. Disponível em: <https://www.biography.com/athlete/sandy-koufax>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

ROTHENBERG, Matt. Sandy Koufax Responded to a Higher Calling on Yom Kippur in 1965. Baseball Hall. Disponível em: <https://baseballhall.org/discover/sandy-koufax-sits-out-game-one>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

MJL When Sandy Koufax Refused to Play on Yom Kippur. My Jewish Learning. Disponível em: <https://www.myjewishlearning.com/article/when-sandy-koufax-refused-to-play-on-yom-kippur/>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

TOBIN, Jonathan S. Did we need another Sandy Koufax? 11 de outubro de 2019. JNS. Disponível em: <https://www.jns.org/opinion/did-we-need-another-sandy-koufax/>. Acesso em 16 de dezembro de 2019.

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